MasukAndré chegou às oito e dois.
Lavínia tinha contado. Durante três anos, ele jamais se atrasara mais do que dois minutos nem chegara um minuto antes, parecia que ele tinha tudo cronometrado e o casamento fosse um compromisso com horário marcado na agenda dele. A chave girou na fechadura, os passos atravessaram o hall e, antes mesmo de ele entrar na cozinha, ela já sabia o que veria: o terno escuro aberto, a gravata frouxa, e nas mãos um buquê grande demais para um simples jantar de terça.
Peônias. Cor-de-rosa, enormes, com o perfume pesado das flores. Ela costuma refletir que as flores mentem sobre a própria delicadeza.
— A florista disse que estavam no ponto — falou ele, estendendo o buquê com um sorriso cuidadoso. — Pensei em você.
O primeiro espirro veio antes que ela pudesse segurar.
— Saúde.
— Obrigada. São lindas. — Mentalmente ela se perguntou como ele não percebia?
Eram lindas, mas também eram as flores que lhe fechava o nariz e lhe arranhava os olhos desde a adolescência, coisa que ela havia dito uma vez, no primeiro ano, num tom de brincadeira que ele provavelmente tomou por modéstia.
Lavínia pegou o buquê, tomou o cuidado de colocá-lo num vaso no extremo oposto da sala, perto da janela, e engoliu um anti-histamínico escondida atrás da porta da despensa. Já era rotina. Teve que aprender a administrar as alergias com a mesma disciplina com que administrava todas as desilusões que havia tido no casamento.
Quando voltou, André estava ao lado da mesa posta, olhando-a como se a visse pela primeira vez no dia. Aproximou-se, inclinou o corpo e encostou os lábios na testa dela, rápido, seco, cuidadoso. O beijo na testa. Três anos de beijos na testa. Um casal de fachada.
— Tomou os remédios? — A expressão era preocupada.
No início ela achava fofo, mas quando percebeu que seria o único sentimento a receber dele, tornou-se deprimente. Mas de qualquer forma apreciava o cuidado.
— Tomei.
— Foi ao fisioterapeuta?
— Fui.
— E a dor?
— Suportável.
Ele assentiu, satisfeito com o relatório. Em algum lugar do apartamento, a caixa de som tocava a playlist de sempre, aquele jazz suave com uma cantora de voz rouca cujo nome Lavínia nunca soube. A playlist era escolha dele. Fora ele que a montara ainda antes do casamento, e tocava sozinha, de um jeito que parecia ter sido pensada para uma mulher de outro temperamento, mais loira em espírito, mais dada a vestidos de seda do que a aventais.
Jantaram à mesa de oito lugares, em dois, um em cada ponta, com cinco metros de madeira entre eles. André elogiou o risoto "está ótimo, como sempre" e falou do trabalho: a incorporadora, uma licitação, um sócio que o irritava. Lavínia ouviu, assentiu nos momentos certos e esperou ansiosa. Havia um tipo de coragem que só chegava com o prato vazio.
— André. — Chamou inquieta. Toda a calma se esvaiu.
— Hum? — respondeu ele distraído.
— Eu quero o divórcio.
O garfo dele parou no ar. Foi um intervalo mínimo, quase invisível, mas ela o viu. Aprendera a ler aquele homem em micro-movimentos, como quem traduz uma língua morta.
— Não. — Ele bufou contendo qualquer sentgimento oposto a calma. — Isso está fora de questão, falámos disso.
— Você falou. Eu ouvi. — Suspirou.
— Lavínia. — Ele pousou o garfo com uma delicadeza exagerada. — Você está cansada. Seus exames são na segunda-feira, o Otávio quer avaliar a creatinina. Não é um bom momento para tomar decisões grandes.
— Nunca é um bom momento para ti.
— Quando passar a consulta, a gente conversa.
— É a melhor decisão para nós dois. — continuo Lavínia. — Você sempre diz isso quando se trata desse tipo de conversa.
— E sempre tenho razão em dizer — respondeu ele, num tom que pretendia ser leve e saiu quebradiço.
Ela o encarou. Era um homem bonito, de maneira discreta, de ombros largos e olhos cinzentos que mudavam de cor conforme a luz, e que no passado, na época em que ela ainda empilhava bandejas num refeitório escolar, ela havia observado de longe com uma devoção que nunca confessou a ninguém. Lembrou-se de uma frase que escrevera num caderno aos dezessete anos: algum dia ele vai olhar para mim. Ele olhava agora. Olhava como se olha para um paciente. Com atenção, com cuidado, com medo de errar a dose.
— Eu não estou doente, André. — Saiu quase como um sussuro.
— Eu sei.
— Você me trata como se eu fosse quebrar a qualquer momento.
— Você já quebrou uma vez — disse ele, baixo. Parecia atordoado. — Por minha causa. Então o melhor para nós dois, é ficarmos juntos.
E aquela era a frase. Lavínia sentiu-a atravessar o peito como uma agulha fina. Por minha causa. Nunca "por amor". Nunca "por você". Por minha causa, a causa dele, a culpa dele, o centro de gravidade de um casamento inteiro que girava em torno de uma dívida que ela jamais cobrou.
Ela se levantou de rompante, recolheu os pratos e disse:
— Vou lavar a louça.
— Dona Nair deixa tudo pronto amanhã. — Ele se levantou.
— Eu gosto de lavar.
Ele não insistiu. Nunca insistia.
Mais tarde, no banheiro de mármore branco, André apoiou as duas mãos na pia e deixou a água correr sem fazer nada. O reflexo no espelho era o de um homem de trinta e dois anos que parecia ter quarenta.
No bolso interno do paletó, pendurado atrás da porta, havia um envelope dobrado em três, que ele guardava havia onze semanas: o pedido de divórcio que Lavínia deixara sobre a escrivaninha do escritório, redigido por um advogado, com um post-it amarelo grudado na primeira página. Quando você puder. L. Ele o havia lido uma vez, e uma vez bastara. Guardara no bolso como se fosse um recibo, e desde então o carregava de paletó em paletó, nunca sobre a mesa, nunca na gaveta, em algum limbo onde o documento não pudesse se tornar real.
Ele não entendia por que se recusava a assinar. Dizia a si mesmo que era por causa da saúde dela. Que o divórcio a deixaria sem plano, sem apoio, sem estrutura. Que a mãe dela, o irmão, a família inteira desabariam. Eram todas verdades. Mas havia uma outra, mais funda, mais feia, que ele evitava olhar como se evita encarar o sol: a ideia de chegar em casa e não encontrar o cheiro de refogado no corredor lhe dava vertigem. A solidão.
Fechou a torneira, secou o rosto e foi para o quarto.
Dormiam na mesma cama, de king size, cada um na sua margem, com quase um metro de lençol frio entre eles que nenhum dos dois ousava atravessar. André adormeceu primeiro, como sempre, deitado de lado, de costas para ela, respirando fundo e regular. Lavínia ficou de olhos abertos no escuro, escutando-lhe a respiração, contando os segundos entre uma inspiração e a seguinte.
Pousou a palma da mão sobre a cicatriz, por baixo da camisola.
Quinze centímetros de pele cosida. A prova de que ela já tinha dado a ele tudo o que possuía para dar. E, ainda assim, ali estavam os dois, na mesma cama, separados por um oceano de lençol.
Na sexta-feira à noite, Lavínia pôs a mesa para dois.Não era a mesa de oito lugares. Era a ilha de mármore da cozinha, com dois pratos, dois copos e uma jarra de água. Fez um frango assado com batatas e alecrim, sem sal demais. Tomou o remédio, mediu a pressão duas vezes e anotou. Treze por oito. Ajeitou o cabelo no reflexo do micro-ondas e esperou.André chegou às sete e dez. Estava cansado. Tinha passado o dia em reuniões com o jurídico e o contador, e a gravata estava solta no pescoço. Quando viu a mesa posta, parou na porta da cozinha.— O que aconteceu? — Parecia surpreso.— Nada. Senta.Ele sentou. Comeram em silêncio nos primeiros cinco minutos. Lavínia mexeu na batata com o garfo, sem comer. Ele percebeu.— Você disse que precisava me contar uma coisa. — Ele adiantou.— Três. — Ela corrigiu.— Três coisas.— Eu vou falar tudo de uma vez, e eu preciso que você me deixe terminar.André pousou o garfo. Cruzou as mãos em cima do mármore.— Pode falar.Lavínia respirou fundo. Sent
André ficou um tempo parado em frente à padaria, com o motor ligado e as mãos no volante, olhando a foto de Lavínia na tela do celular. Ela viu o maxilar dele se mexer duas vezes antes de ele falar.— Eu vou contratar alguém para descobrir quem foi.— Não.— Lavínia, alguém seguiu você. Tirou foto. Publicou. — Ele estava irritado. — Sabe-se lá o que mais essa pessoa pode fazer.— Eu sei. Mas eu não quero ninguém no meu pé. — Ela virou o corpo no banco para olhar para ele. — Eu quero que você pare de resolver tudo sozinho, André. Principalmente as coisas que são minhas.Ele apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos ficaram brancos.— E se acontecer alguma coisa com você?— Se acontecer, eu te aviso.— Você não avisa nada. — Então vai ter que confiar.André respirou fundo e soltou o ar pelo nariz. Passou a mão no rosto e deixou os ombros caírem.— Está bem — disse. — Por enquanto.— Obrigada.Ele engatou a marcha e voltou para a avenida. Nenhum dos dois falou mais até chegarem
O consultório do Dr. Otávio estava com o ar-condicionado ligado demais. Lavínia sentou na cadeira da esquerda, com a bolsa no colo e as mãos apertando a alça. André ocupou a da direita, com o paletó dobrado sobre os joelhos e a coluna reta. Entre os dois havia uma distância de um braço, que nenhum tentou encurtar. Antes de entrarem, na sala de espera, André preencheu sozinho a ficha dela, com a letra apertada. Lavínia o observou escrever de memória o número do convênio, a data de nascimento, o tipo sanguíneo, o nome dos remédios. Ele sabia tudo. Ela sentiu uma coisa confusa, uma mistura de carinho e irritação, e desviou o olhar para a revista que não ia ler. Otávio entrou com uma pasta, sentou, abriu e leu em silêncio por quase um minuto. Lavínia reparou que a testa dele ficou franzida duas vezes. Sentiu um aperto no peito. — Eu preciso fazer uma pergunta antes de começar — disse ele, levantando os olhos. — Lavínia, você autoriza que eu fale sobre o seu quadro na frente do seu mari
André esperou quarenta minutos na sala do hospital, sentado numa cadeira de plástico, com os joelhos balançando. Quando a porta do consultório abriu e o Dr. Otávio apareceu de jaleco e óculos, ele se levantou depressa. — Entra, André. Os dois se sentaram. Otávio cruzou as mãos sobre a mesa, e André notou que o médico não olhava para a gaveta onde guardava as pastas dos pacientes. — Eu sei por que você veio — disse Otávio. — E sei que você sabe que eu não posso discutir um paciente sem autorização. — Ela é minha esposa. — E é uma paciente. Mesmo assim. — Otávio tirou os óculos e os esfregou na manga. — Mas eu posso te perguntar uma coisa. Por que você acha que ela escondeu isso de você? André baixou a cabeça. Apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para o chão. — Porque eu a trato como se ela fosse um objecto frágil. — E você trata? — Trato. — Ele devia estar com vergonha. — Então talvez ela tenha medo de que você faça justamente isso agora. André passou as duas mão
André não dormiu. Passou a noite no escritório, sentado na poltrona, com as fotos abertas no celular e um site de medicina aberto no computador. Leu sobre creatinina, sobre filtração, sobre estágios. Quando o dia clareou, já sabia mais do que queria saber. Às sete e meia da manhã de sábado, Lavínia entrou na cozinha de roupão, com o remédio da pressão na mão. Parou na porta. A folha dobrada estava em cima da mesa, aberta, bem no meio do jogo americano dela. André estava sentado diante dela, com os braços apoiados na mesa e os olhos vermelhos. — Senta — disse ele sem enrolar, a expressão séria. A boca de Lavínia ficou seca. Ela engoliu em seco, deixou o remédio sobre a bancada e se sentou devagar, com as mãos apoiadas nas coxas. Olhou para o papel e depois para ele. — Eu estava procurando o abridor — disse André. A voz saiu rouca. — Abri a gaveta. Li o caderno. — Eu vi que a gaveta estava diferente. — Você viu? — Eu vi o pano de prato dobrado do jeito errado. Ele soltou um ri
Na sexta-feira, André chegou em casa às seis e quarenta, quase duas horas mais cedo do que o normal. Não trazia flores, mas trazia duas sacolas de mercado. Lavínia estava na cozinha, cortando tomate. Parou com a faca no ar quando ouviu a chave na porta e viu o marido entrar com as sacolas penduradas nas duas mãos, o paletó dobrado no braço e a gravata frouxa. Ele pôs tudo em cima da bancada e coçou a nuca, sem olhar direito para ela. — Eu comprei umas coisas. — Estou vendo. — Ovo, arroz, alho, cebola. — Ele puxou os itens um por um, como se tivesse que provar que estava tudo ali. — Li uma receita na internet. Não sei se é a certa. Lavínia pousou a faca. Sentiu o peito ficar um pouco mais leve e, ao mesmo tempo, os ombros se tensionarem. Era confuso. Ela cruzou os braços na frente do corpo. Não podia negar que o gesto mexeu com ela. — Você disse que ia me contar por que eu não devia comprar flores — lembrou ele. — Disse. — Então conta. — Ele parecia ansioso. Ela respirou fund







