LOGINA casa de Helga Valadares, em Higienópolis, cheirava a coisa antiga e cara: cera de assoalho, lírios frescos e aquela discrição de dinheiro que nunca precisou dizer o próprio nome. Seu Valdir, o motorista, abriu a porta do carro para Lavínia com uma reverência de meio centímetro, e ela agradeceu como agradecia havia três anos, convencida de que ele conhecia todos os segredos da família e de que os levaria para o túmulo.
André não dissera uma palavra durante o trajeto. Dirigira com as duas mãos no volante, o maxilar travado, os olhos fixos numa estrada que conhecia de cor. Uma vez, no semáforo da Angélica, Lavínia perguntou se ele estava bem. "Estou", respondeu ele, rápido demais. E depois, como se a pergunta tivesse uma porta de volta: "E você?" Ela quase riu. Os dois estavam mentindo ao mesmo tempo, com a mesma educação, e isso, pensou, era talvez a coisa mais íntima que haviam feito juntos em meses.
Helga os esperava no alto da escada, de tailleur claro e colar de rubis, os cabelos grisalhos presos num coque que parecia esculpido. Tinha sessenta e quatro anos, a postura de quem nunca se curvou diante de ninguém e uma habilidade rara: conseguia dizer uma coisa e o seu contrário na mesma frase, sorrindo. Segurou o rosto do filho com as duas mãos, beijou-lhe as bochechas e murmurou "meu menino" com uma ternura que Lavínia, em três anos, nunca vira dirigida a ninguém além dele.
Depois olhou para a nora.
— Querida. — Dois beijos no ar, sem contato. — Está um pouco abatida, não? Dormindo mal?
— Estou ótima, Dona Helga. Obrigada.
— Claro que está.
A copeira, Cida, uma mulher miúda de uniforme cinza e olhos atentos, ofereceu uma bandeja de suco de maracujá. Lavínia aceitou e trocou com ela um olhar breve, aquele reconhecimento mudo entre quem sabe o que é servir. Cida baixou os olhos primeiro. Era a única pessoa naquela casa que jamais fingia não ver.
A campainha tocou às treze e vinte. Helga olhou o relógio de pulso, satisfeita, como quem calculou o atraso ao segundo. Lavínia teve a impressão de que tudo naquele almoço havia sido coreografado, inclusive o suspense desnecessário.
Serafina Montenegro entrou como entram as pessoas que sabem estar sendo olhadas. Tinha trinta e um anos, cabelos castanho-mel soltos até a metade das costas, olhos verdes grandes demais para o rosto, um vestido branco simples que custava mais que o aluguel de qualquer apartamento da zona leste. A pele tinha o brilho opaco de quem vive entre fusos horários. Abraçou Helga primeiro, com um "tia!" que soou doce e treinado. Depois virou-se para André.
O abraço durou três segundos. Lavínia contou.
Não era o tempo que a feria, e sim o que aconteceu no rosto dele. André riu. Uma risada curta, rouca, de surpresa, daquelas que escapam do corpo antes de o dono decidir permiti-las. Lavínia não a ouvia havia pelo menos dois anos. Talvez nunca a tivesse ouvido assim, inteira, sem calibragem. Por um segundo, ele pareceu mais novo, mais leve, um garoto flagrado numa travessura que tinha esquecido que adorava.
Ele próprio pareceu se assustar com o som. Recuou meio passo, ajeitou a gola do blazer e olhou, por reflexo, para a esposa.
— Você deve ser a Lavínia — disse Serafina, estendendo a mão com um sorriso luminoso. — O André fala tanto de você.
Fala? Lavínia apertou-lhe a mão. Nunca ouvira o marido pronunciar o nome dela com nenhuma emoção que não fosse "cuidado". Ele dizia "a Lavínia está bem" quando perguntavam. "A Lavínia fez o jantar". "A Lavínia tem fisioterapia". Era assim que falava dela: no pretérito perfeito dos afazeres.
— Prazer — disse ela.
Foi então que o cheiro chegou. Subiu da pele de Serafina com o calor do abraço, cremoso e doce, um pouco pesado, tão familiar que Lavínia pensou, por um instante, que fosse o próprio pulso. Âmbar e peônia.
— Ah — disse Serafina, inclinando a cabeça em reconhecimento. — Você usa o meu perfume!
— O seu? — Lavínia ficou atordoada, mas se conteve.
— Uso desde os dezenove. — Ela riu, encantada, como quem encontra uma conhecida num país distante. — Foi o André que me deu o primeiro frasco, no meu aniversário. Dentro de uma caixa azul, com um cartão enorme. Ele escolheu sozinho, lembra, André? Que fofura vocês dois.
Que fofura. A frase era um lenço de seda passado no pescoço de alguém, e Lavínia sentiu, nitidamente, a pressão.
— Coincidência — ouviu-se dizer.
Foi a palavra que escolheu. Usaria por mais algumas semanas, até que a palavra se desfizesse na mão como um lenço de papel molhado.
O almoço foi servido na sala de jantar, uma mesa para catorze com apenas quatro lugares ocupados. Helga conduziu os assentos com a leveza de uma diplomata: Serafina à direita de André, Lavínia à ponta oposta, ao lado da própria sogra, que pousou a mão em seu pulso e disse, com ternura venenosa:
— Você sempre ficou tão bem à ponta, querida. Quem observa, entende melhor.
Havia bacalhau ao forno, arroz de brócolis, salada de rúcula com pera, e um vinho branco que ninguém, além de Serafina, provou com entusiasmo. Falaram de Milão: de passarelas, de aeroportos, de um apartamento com vista para um canal, de quatro anos que, segundo Serafina, "passaram voando e arrastando, as duas coisas".
— E agora, minha filha? — perguntou Helga com certa ternura. Era surpreendente. — Voltou para ficar?
— Ainda não sei. — Serafina girou o garfo e deixou os olhos pousarem em André, de leve. — Depende.
André estudava o prato com uma concentração desproporcional.
— A Lavínia cozinha divinamente, sabia? — disse Helga, mudando o assunto com uma agilidade cruel. — O André me conta. Um risoto, um assado, tudo perfeito. É um dom, né? Tem gente que nasce para servir.
O silêncio durou um segundo. Cida, parada junto ao aparador, ficou imóvel como uma estátua.
— Eu nasci para cozinhar, Dona Helga — respondeu Lavínia, devagar.
— Claro, querida. Foi o que eu disse.
Serafina riu, brilhante, e tocou o braço de André.
— Aliás, você ainda detesta coentro?
— O quê? — André piscou.
— Coentro. Você fazia cara de enjoo só de sentir o cheiro. Lembra daquela viagem para Salvador, quando você mandou devolver a moqueca?
— Lembro.
— E agora?
— Eu como — disse ele.
Lavínia sentiu o sangue baixar dos ouvidos até o peito. Ela usava coentro. Usava no risoto de limão, nas saladas, no peixe das quintas-feiras. Colocava-o em quase tudo, por hábito e por prazer. E durante três anos, três anos inteiros, ele havia comido em silêncio, sem uma sobrancelha levantada, sem uma palavra.
— Você sempre foi educado demais para reclamar — disse Serafina, com carinho. — É o seu defeito.
Era. Lavínia, de repente, entendeu isso como se uma luz tivesse se acendido num quarto de que nunca percebera as paredes. André era educado com ela do jeito como se é educado com uma anfitriã numa casa onde não se está à vontade. Educado com ela como com uma estranha. Comia o que ela servia, sorria quando ela olhava, beijava-lhe a testa, e fechava, por trás de tudo, uma porta que ela nunca soubera que existia.
Na sobremesa, Helga bateu palmas, satisfeita com o próprio roteiro.
— Eu estava pensando — anunciou. — A Serafina nunca viu o apartamento de vocês. Seria tão simpático se ela passasse lá hoje, para um lanche. Vai, André, leva ela.
— Mãe...
— Querida — Helga se voltou para Lavínia, sorrindo —, você não se importa, não é?
Lavínia olhou para as duas mulheres: uma de rubis e coque, outra de vestido branco e perfume dela. E depois para o marido, que a olhava de volta com uma expressão que ela não sabia nomear. Parecia pedido de desculpa. Parecia, também, uma súplica.
— Claro que não — respondeu. — Minha mãe e meu irmão vão lá no domingo à tarde, como sempre. Vai ficar animado.
No carro, a caminho de casa, ninguém falou. Foi André quem rompeu o silêncio, na altura da Paulista, com a voz baixa.
— Ela vai só tomar um café. — Se explicou, sem a mínima necessidade.
— Eu sei — disse Lavínia.
E sabia. Sabia muitas coisas naquele domingo. A maioria, pela primeira vez, em voz alta, dentro de si.
Lavínia o levou para o terraço do clube. Andou rápido, com os saltos batendo no piso de pedra, e André foi atrás, sem dizer nada, mas o corpo não escondia a tensão. Atrás deles, o salão voltou aos poucos ao burburinho. Ela ouviu uma voz de mulher gritar um nome, uma risada abafada, o som de uma taça quebrando.O terraço estava vazio. Tinha um jardim iluminado com lanternas baixas, duas cadeiras de ferro e um banco de madeira. Lavínia parou perto do parapeito, apoiou as duas mãos na pedra fria e respirou para conter o nervosismo. — Me conta que porra está acontecendo, Lavínia. — Ele estava confuso, com certa raiva.Ela virou. André estava a poucos passos de distância, a gravata já estava torta, os braços caídos ao longo do corpo. O rosto dele estava sem cor.— Eu ia te contar. — Quando? — Ele quase berrou.— Depois de trinta de junho.— Por que depois de trinta de junho? — Porque é o prazo do dossiê. — Ela engoliu em seco, reunindo coragem. — Eu precisava ter enviado para você não
O salão do clube tinha lustres de cristal, mesas redondas com toalhas brancas e uma orquestra de cordas tocando num canto. Oitenta convidados, quase todos de preto e dourado, que circulavam com taças de espumante nas mãos e cochichavam quando um casal específico passava.Lavínia usava um vestido azul-marinho de manga longa, simples, que ela mesma escolhera numa loja de rua. O cabelo estava preso num coque baixo. André usava um terno escuro e tinha o braço esquerdo dobrado, oferecendo o cotovelo. Ela aceitou.Ao entrar, ela sentiu os olhares. Alguns eram de curiosidade, outros de piedade, alguns de satisfação. A prima de Campinas desviou o rosto. Os tios de André fingiram conversar entre si. Uma senhora de cabelo claro olhou-a de cima a baixo e pegou a bolsa com os dois braços, como se Lavínia fosse a assaltar.— Cabeça erguida — murmurou André, sem olhar para ela.— Estou.Dona Zuleide e Tobias já estavam numa mesa perto da pista. Helga os convidara, e Lavínia ainda não tinha entendid
Na sexta-feira à noite, Lavínia pôs a mesa para dois.Não era a mesa de oito lugares. Era a ilha de mármore da cozinha, com dois pratos, dois copos e uma jarra de água. Fez um frango assado com batatas e alecrim, sem sal demais. Tomou o remédio, mediu a pressão duas vezes e anotou. Treze por oito. Ajeitou o cabelo no reflexo do micro-ondas e esperou.André chegou às sete e dez. Estava cansado. Tinha passado o dia em reuniões com o jurídico e o contador, e a gravata estava solta no pescoço. Quando viu a mesa posta, parou na porta da cozinha.— O que aconteceu? — Parecia surpreso.— Nada. Senta.Ele sentou. Comeram em silêncio nos primeiros cinco minutos. Lavínia mexeu na batata com o garfo, sem comer. Ele percebeu.— Você disse que precisava me contar uma coisa. — Ele adiantou.— Três. — Ela corrigiu.— Três coisas.— Eu vou falar tudo de uma vez, e eu preciso que você me deixe terminar.André pousou o garfo. Cruzou as mãos em cima do mármore.— Pode falar.Lavínia respirou fundo. Sent
André ficou um tempo parado em frente à padaria, com o motor ligado e as mãos no volante, olhando a foto de Lavínia na tela do celular. Ela viu o maxilar dele se mexer duas vezes antes de ele falar.— Eu vou contratar alguém para descobrir quem foi.— Não.— Lavínia, alguém seguiu você. Tirou foto. Publicou. — Ele estava irritado. — Sabe-se lá o que mais essa pessoa pode fazer.— Eu sei. Mas eu não quero ninguém no meu pé. — Ela virou o corpo no banco para olhar para ele. — Eu quero que você pare de resolver tudo sozinho, André. Principalmente as coisas que são minhas.Ele apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos ficaram brancos.— E se acontecer alguma coisa com você?— Se acontecer, eu te aviso.— Você não avisa nada. — Então vai ter que confiar.André respirou fundo e soltou o ar pelo nariz. Passou a mão no rosto e deixou os ombros caírem.— Está bem — disse. — Por enquanto.— Obrigada.Ele engatou a marcha e voltou para a avenida. Nenhum dos dois falou mais até chegarem
O consultório do Dr. Otávio estava com o ar-condicionado ligado demais. Lavínia sentou na cadeira da esquerda, com a bolsa no colo e as mãos apertando a alça. André ocupou a da direita, com o paletó dobrado sobre os joelhos e a coluna reta. Entre os dois havia uma distância de um braço, que nenhum tentou encurtar. Antes de entrarem, na sala de espera, André preencheu sozinho a ficha dela, com a letra apertada. Lavínia o observou escrever de memória o número do convênio, a data de nascimento, o tipo sanguíneo, o nome dos remédios. Ele sabia tudo. Ela sentiu uma coisa confusa, uma mistura de carinho e irritação, e desviou o olhar para a revista que não ia ler. Otávio entrou com uma pasta, sentou, abriu e leu em silêncio por quase um minuto. Lavínia reparou que a testa dele ficou franzida duas vezes. Sentiu um aperto no peito. — Eu preciso fazer uma pergunta antes de começar — disse ele, levantando os olhos. — Lavínia, você autoriza que eu fale sobre o seu quadro na frente do seu mari
André esperou quarenta minutos na sala do hospital, sentado numa cadeira de plástico, com os joelhos balançando. Quando a porta do consultório abriu e o Dr. Otávio apareceu de jaleco e óculos, ele se levantou depressa. — Entra, André. Os dois se sentaram. Otávio cruzou as mãos sobre a mesa, e André notou que o médico não olhava para a gaveta onde guardava as pastas dos pacientes. — Eu sei por que você veio — disse Otávio. — E sei que você sabe que eu não posso discutir um paciente sem autorização. — Ela é minha esposa. — E é uma paciente. Mesmo assim. — Otávio tirou os óculos e os esfregou na manga. — Mas eu posso te perguntar uma coisa. Por que você acha que ela escondeu isso de você? André baixou a cabeça. Apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para o chão. — Porque eu a trato como se ela fosse um objecto frágil. — E você trata? — Trato. — Ele devia estar com vergonha. — Então talvez ela tenha medo de que você faça justamente isso agora. André passou as duas mão







