LOGINDona Zuleide chegou às cinco em ponto, como em todos os domingos dos últimos três anos, carregando um bolo de fubá embrulhado em pano de prato e a bolsa grande onde guardava de tudo: cartela de remédio, fita métrica, caramelo, terço. Tinha cinquenta e oito anos, mãos marcadas por agulhas de uma vida de costura e um jeito de entrar nos lugares como quem pede licença às paredes. Atrás dela vinha Tobias, vinte e dois anos, um metro e noventa de impaciência, mochila nas costas e fone de ouvido pendurado no pescoço.
— Oi, filha. — Dona Zuleide abraçou a filha com força, um abraço de verdade, de braços inteiros, e Lavínia afundou o rosto no ombro da mãe por um segundo mais longo que o habitual. Precisava sentir aquele amor. — O que foi? — Nada, mãe. — Mentiu não querendo atordoar a mãe. — Hum. Era a palavra mais cheia de significado do vocabulário materno. Lavínia desviou os olhos. — A Serafina vem, mãe. Ex-namorada do André. Dona Helga insistiu. — Suspirou. Tobias parou no meio da sala. — A modelo? — A modelo. — A que sumiu quando ele precisou de rim? — Debochou. — Tobias — disse Dona Zuleide, num tom que o garoto conhecia desde a infância e que significava: engole isso. Mas era tarde. A campainha tocou. Serafina chegou de carro de aplicativo, meia hora depois deles, com uma sacola de doces importados e um sorriso de convidada exemplar. Cumprimentou Dona Zuleide com ambas as mãos ("a senhora é a mãe da Lavínia? Que encanto!"), apertou a mão de Tobias, que a recebeu como quem recebe uma multa, e tirou os sapatos na porta, atenção que Lavínia reparou e que, ela mesma, jamais teria exigido. — Posso ver a casa? — perguntou curiosa. — Ouvi tanto falar. Andou pelo apartamento descalça, com o ritmo de quem passeia por uma galeria. Passou os dedos pelo encosto do sofá de linho cru. — Você não trocou nada — murmurou. — Nada mesmo. — Foi o decorador que fez — disse Lavínia. — O decorador. — Serafina sorriu, quase terna. — Sei. O André mandou fazer exatamente do jeito que eu desenhei num guardanapo, em 2017, num restaurante em Pinheiros. Cabeceira de couro, sofá de linho, estante até o teto, cozinha com ilha. Eu disse que era o meu sonho. — Olhou para ele, que estava parado junto à janela, as mãos nos bolsos. — Ele lembrou. Ninguém respondeu. Ao fundo, a caixa de som tocava a playlist de sempre, o jazz suave, a voz rouca. — Nossa! — Serafina levou a mão ao peito. — A playlist da república! Eu que montei isso, André, você não trocou uma música? — Não troquei — respondeu ele, com o olhar fixo no horizonte da cidade. — Que memória boa — disse Tobias, devagar, do sofá. Dona Zuleide pousou a mão no joelho do filho. Lavínia sentiu o ar mudar de densidade. Que minutos constrangedores. E foi ali, parada no meio da sala, com uma travessa de bolo na mão, que ela entendeu, de uma vez e por inteiro, que a casa que a abrigava não fora desenhada para ela. O sofá, a estante, o quarto, a cabeceira, a música que tocava às terças. Cada peça fora escolhida por um homem que, ao erguer paredes, pensava em outra. Ela vivia dentro de um projeto alheio. Cozinhava, dormia, chorava, respirava dentro da imaginação de uma mulher que agora, descalça, sorria diante da própria obra. — A cozinha — disse Serafina, entrando no cômodo — é a única parte que eu nunca teria pensado. Isso é seu, né? Ficou lindíssima. — Passou a mão na bancada de mármore. — O André sempre soube que você precisava de espaço. Você. Ela dizia "você" e, por um segundo, Lavínia sentiu algo parecido com respeito. Teria sido mais fácil se Serafina fosse cruel. Mas não era, não parecia. Era leve, solar, afetuosa, e talvez nem soubesse que cada palavra sua sobre a casa e a playlist era uma pedra encaixada na parede de uma verdade insuportável. O lanche durou uma hora e vinte. Serafina comeu bolo de fubá com elogios que pareciam de verdade, contou histórias engraçadas de passarelas e riu com Dona Zuleide de uma anedota sobre costura. Tobias não riu. Observava tudo de cima, o queixo apoiado na mão, até que Serafina foi ao banheiro e ele a seguiu, "para pegar um copo d'água". Lavínia ouviu a conversa por acaso, da cozinha, pelo corredor aberto. — Eu lembro de você — disse Tobias, a voz baixa. — Você mandou um coração por mensagem quando ele estava morrendo. — Eu não era compatível — respondeu Serafina, sem alterar o tom. — Mas minha irmã era. Houve uma pausa. — Pelo visto — disse Serafina — era mesmo. Passos. A porta do banheiro. Dona Zuleide apareceu na cozinha com os olhos arregalados, puxando o ar pelo nariz. — Esse menino — sussurrou. — Eu vou dar um beliscão nele quando chegar em casa. — Deixa, mãe. Serafina foi embora às sete, com abraços para todos, dois beijos em Dona Zuleide e um aperto de mão rápido em André, que a acompanhou até o elevador. Quando as portas se fecharam, o silêncio que ficou na sala parecia ter sido deixado de propósito. Dona Zuleide foi para a cozinha lavar as xícaras, o que sempre fazia quando precisava dizer algo importante com as mãos ocupadas. Lavínia ficou ao lado dela, enxugando. — Filha. — Fala, mãe. — Casa bonita não é casa que é sua. — Dona Zuleide esfregou uma colher com mais força que o necessário. — Casa é onde tem alguma coisa que você escolheu. — Eu escolhi o fogão — disse Lavínia, e a voz tremeu no meio. Tinha que se segurar para não desabar. — Eu sei, minha filha, mas talvez isso não seja suficiente. — Mãe, eu pedi o divórcio. A velha parou. A água continuou correndo. — E ele? — Não assina. Dona Zuleide fechou a torneira. Enxugou as mãos no avental, devagar, uma de cada vez, e olhou a filha de frente. Os olhos dela eram os mesmos de quando Lavínia tinha oito anos e voltava da escola chorando porque haviam rido do seu sapato. — Eu criei vocês dois sozinha, num quarto e cozinha na Penha, e sei o que é ficar onde não tem nada pra você. — Fez uma pausa. — Não fica por gratidão, Lavínia. Gratidão é uma coisa linda, mas que mata gente devagar. Lavínia abraçou a mãe pelo pescoço e ficou assim, em silêncio, sentindo o cheiro de fumo, sabão e fubá. À noite, na cama, de costas um para o outro, ela falou para o escuro: — Foi você que escolheu o sofá? — Foi o decorador. — A Serafina desenhou. A respiração dele mudou. Não muito. O suficiente para partir mais o coração dela. — Foi há muito tempo — disse ele. — Eu sei. Nenhum dos dois dormiu. Ficaram os dois fingindo, cada um na sua margem, com um metro de lençol frio entre eles e, nas costas de cada um, a mesma casa.Lavínia o levou para o terraço do clube. Andou rápido, com os saltos batendo no piso de pedra, e André foi atrás, sem dizer nada, mas o corpo não escondia a tensão. Atrás deles, o salão voltou aos poucos ao burburinho. Ela ouviu uma voz de mulher gritar um nome, uma risada abafada, o som de uma taça quebrando.O terraço estava vazio. Tinha um jardim iluminado com lanternas baixas, duas cadeiras de ferro e um banco de madeira. Lavínia parou perto do parapeito, apoiou as duas mãos na pedra fria e respirou para conter o nervosismo. — Me conta que porra está acontecendo, Lavínia. — Ele estava confuso, com certa raiva.Ela virou. André estava a poucos passos de distância, a gravata já estava torta, os braços caídos ao longo do corpo. O rosto dele estava sem cor.— Eu ia te contar. — Quando? — Ele quase berrou.— Depois de trinta de junho.— Por que depois de trinta de junho? — Porque é o prazo do dossiê. — Ela engoliu em seco, reunindo coragem. — Eu precisava ter enviado para você não
O salão do clube tinha lustres de cristal, mesas redondas com toalhas brancas e uma orquestra de cordas tocando num canto. Oitenta convidados, quase todos de preto e dourado, que circulavam com taças de espumante nas mãos e cochichavam quando um casal específico passava.Lavínia usava um vestido azul-marinho de manga longa, simples, que ela mesma escolhera numa loja de rua. O cabelo estava preso num coque baixo. André usava um terno escuro e tinha o braço esquerdo dobrado, oferecendo o cotovelo. Ela aceitou.Ao entrar, ela sentiu os olhares. Alguns eram de curiosidade, outros de piedade, alguns de satisfação. A prima de Campinas desviou o rosto. Os tios de André fingiram conversar entre si. Uma senhora de cabelo claro olhou-a de cima a baixo e pegou a bolsa com os dois braços, como se Lavínia fosse a assaltar.— Cabeça erguida — murmurou André, sem olhar para ela.— Estou.Dona Zuleide e Tobias já estavam numa mesa perto da pista. Helga os convidara, e Lavínia ainda não tinha entendid
Na sexta-feira à noite, Lavínia pôs a mesa para dois.Não era a mesa de oito lugares. Era a ilha de mármore da cozinha, com dois pratos, dois copos e uma jarra de água. Fez um frango assado com batatas e alecrim, sem sal demais. Tomou o remédio, mediu a pressão duas vezes e anotou. Treze por oito. Ajeitou o cabelo no reflexo do micro-ondas e esperou.André chegou às sete e dez. Estava cansado. Tinha passado o dia em reuniões com o jurídico e o contador, e a gravata estava solta no pescoço. Quando viu a mesa posta, parou na porta da cozinha.— O que aconteceu? — Parecia surpreso.— Nada. Senta.Ele sentou. Comeram em silêncio nos primeiros cinco minutos. Lavínia mexeu na batata com o garfo, sem comer. Ele percebeu.— Você disse que precisava me contar uma coisa. — Ele adiantou.— Três. — Ela corrigiu.— Três coisas.— Eu vou falar tudo de uma vez, e eu preciso que você me deixe terminar.André pousou o garfo. Cruzou as mãos em cima do mármore.— Pode falar.Lavínia respirou fundo. Sent
André ficou um tempo parado em frente à padaria, com o motor ligado e as mãos no volante, olhando a foto de Lavínia na tela do celular. Ela viu o maxilar dele se mexer duas vezes antes de ele falar.— Eu vou contratar alguém para descobrir quem foi.— Não.— Lavínia, alguém seguiu você. Tirou foto. Publicou. — Ele estava irritado. — Sabe-se lá o que mais essa pessoa pode fazer.— Eu sei. Mas eu não quero ninguém no meu pé. — Ela virou o corpo no banco para olhar para ele. — Eu quero que você pare de resolver tudo sozinho, André. Principalmente as coisas que são minhas.Ele apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos ficaram brancos.— E se acontecer alguma coisa com você?— Se acontecer, eu te aviso.— Você não avisa nada. — Então vai ter que confiar.André respirou fundo e soltou o ar pelo nariz. Passou a mão no rosto e deixou os ombros caírem.— Está bem — disse. — Por enquanto.— Obrigada.Ele engatou a marcha e voltou para a avenida. Nenhum dos dois falou mais até chegarem
O consultório do Dr. Otávio estava com o ar-condicionado ligado demais. Lavínia sentou na cadeira da esquerda, com a bolsa no colo e as mãos apertando a alça. André ocupou a da direita, com o paletó dobrado sobre os joelhos e a coluna reta. Entre os dois havia uma distância de um braço, que nenhum tentou encurtar. Antes de entrarem, na sala de espera, André preencheu sozinho a ficha dela, com a letra apertada. Lavínia o observou escrever de memória o número do convênio, a data de nascimento, o tipo sanguíneo, o nome dos remédios. Ele sabia tudo. Ela sentiu uma coisa confusa, uma mistura de carinho e irritação, e desviou o olhar para a revista que não ia ler. Otávio entrou com uma pasta, sentou, abriu e leu em silêncio por quase um minuto. Lavínia reparou que a testa dele ficou franzida duas vezes. Sentiu um aperto no peito. — Eu preciso fazer uma pergunta antes de começar — disse ele, levantando os olhos. — Lavínia, você autoriza que eu fale sobre o seu quadro na frente do seu mari
André esperou quarenta minutos na sala do hospital, sentado numa cadeira de plástico, com os joelhos balançando. Quando a porta do consultório abriu e o Dr. Otávio apareceu de jaleco e óculos, ele se levantou depressa. — Entra, André. Os dois se sentaram. Otávio cruzou as mãos sobre a mesa, e André notou que o médico não olhava para a gaveta onde guardava as pastas dos pacientes. — Eu sei por que você veio — disse Otávio. — E sei que você sabe que eu não posso discutir um paciente sem autorização. — Ela é minha esposa. — E é uma paciente. Mesmo assim. — Otávio tirou os óculos e os esfregou na manga. — Mas eu posso te perguntar uma coisa. Por que você acha que ela escondeu isso de você? André baixou a cabeça. Apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para o chão. — Porque eu a trato como se ela fosse um objecto frágil. — E você trata? — Trato. — Ele devia estar com vergonha. — Então talvez ela tenha medo de que você faça justamente isso agora. André passou as duas mão







