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Capítulo 4

Author: Ray B.
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-02 06:46:24

4. A mesa do pai

Beatriz

A casa dos Lacerda ficava no Alto de Pinheiros, atrás de um portão que eu lembrava maior.

O jardim continuava impecável. O cheiro de jasmim também. Era reconfortante descobrir que pelo menos as plantas não tinham sido substituídas por Vera.

Entrei sem anunciar minha chegada.

No hall, o lustre de cristal desenhado por minha mãe permanecia no mesmo lugar. O piso de madeira, porém, dera lugar a um mármore branco que parecia pertencer a um consultório de luxo.

Subi a escada antes de procurar meu pai.

Queria ver meu quarto.

Abri a porta e encontrei um closet.

Sapatos organizados por cor, bolsas em prateleiras iluminadas e uma poltrona de veludo onde antes ficava minha escrivaninha.

Fiquei parada, tentando localizar algum vestígio da menina que vivera ali.

Nada.

— Gostou da reforma?

Vera apareceu atrás de mim.

— Adorei. Especialmente a parte em que minha infância virou depósito de sapatos.

Ela sorriu.

— Você mora fora há tantos anos, querida. O espaço estava sem uso.

— Claro. Memórias ocupam muito espaço.

Vera ignorou a provocação.

— Seu pai está esperando.

Desci sem responder.

Augusto Lacerda estava sentado à cabeceira da mesa de jantar. Parecia menor do que na última vez em que o vira. Mais magro, mais pálido.

Levantou-se com dificuldade para me abraçar.

— Minha filha.

O cheiro familiar de sua loção de barba apertou alguma coisa no meu peito.

— Pai, o senhor está bem?

— Estou ótimo. Sente-se.

Era mentira.

Mas minha família sempre preferiu mentiras bem-vestidas.

A sopa chegou antes da explicação.

— A situação da Cristais Lacerda é grave — começou meu pai. — Temos dívidas, fornecedores atrasados e bancos pressionando.

Pousei a colher.

— Por que não me chamou antes? Reestruturação empresarial é literalmente o meu trabalho.

— Achei que conseguiria resolver.

— E conseguiu?

Ele desviou os olhos.

— Henrique Vasconcellos ofereceu ajuda.

Conhecia o nome. O Grupo Vasconcellos era um conglomerado poderoso, com investimentos em diferentes setores.

— Quanto ele pretende investir?

— O suficiente para salvar a fábrica.

— Em troca de quê?

Meu pai hesitou.

Vera ajeitou o guardanapo no colo.

Aquilo nunca era um bom sinal.

— Existe uma condição no acordo entre as famílias — explicou Augusto. — Uma aliança formal.

— Que tipo de aliança?

— Um casamento.

Olhei para ele.

Depois para Vera.

— Desculpa. Acho que o voo afetou minha audição.

— Beatriz...

— O senhor disse casamento?

— Com o filho de Henrique.

Soltei uma risada curta.

Ninguém acompanhou.

— Pai, estamos em 2026. Empresas fazem fusões, aquisições, joint ventures. Não costumam trocar filhas por investimentos.

— É uma condição prevista num antigo acordo de acionistas — explicou ele. — Henrique está disposto a cumprir sua parte.

— Que generoso. E eu entro como ativo ou garantia?

— Não fale assim — repreendeu Vera. — Estamos tentando salvar o patrimônio da família.

— Naturalmente. Seria uma tragédia perder o patrimônio e manter a dignidade.

Meu pai bateu a mão na mesa.

Não com força. O suficiente para me fazer calar.

— São duzentos e quarenta funcionários, Beatriz. Famílias que dependem daquela fábrica.

A resposta me atingiu.

Conhecia aquelas pessoas. Ou pelo menos algumas delas. Homens e mulheres que trabalharam ao lado da minha mãe, transformando areia e fogo em peças que viajavam pelo mundo.

— E o senhor acha que a solução é me casar com um desconhecido?

— Acho que precisamos considerar todas as possibilidades.

— Inclusive vender sua filha?

Ele abaixou a cabeça.

Por um instante, senti vergonha da pergunta.

Depois me lembrei de que era uma pergunta perfeitamente razoável.

— Eu não queria que chegássemos a isso — murmurou.

Olhei para suas mãos trêmulas.

Ainda estava magoada por tudo o que ele fizera quando eu era criança. Pelo internato, pelas ausências, por ter permitido que Vera transformasse minha casa num lugar onde eu nunca mais me senti bem-vinda.

Mas aquele homem continuava sendo meu pai.

E a fábrica continuava carregando o nome da minha mãe.

— Quero os balanços financeiros — falei. — Dívidas, contratos, garantias. Tudo.

Ele ergueu os olhos.

— Você vai considerar?

— Vou analisar a situação. São coisas diferentes.

Vera sorriu.

— Sabia que você acabaria entendendo.

— Não se anime. Ainda estou tentando decidir se essa proposta é ilegal ou apenas medieval.

Meu pai respirou fundo.

— Henrique quer organizar um jantar na sexta-feira. Para apresentar vocês.

— E quem é o felizardo?

— O filho dele. O herdeiro do grupo.

— Ele tem nome ou também faz parte do acordo de confidencialidade?

— Você vai conhecê-lo no jantar.

Balancei a cabeça.

Fantástico.

Eu tinha voltado ao Brasil para surpreender meu namorado, descoberto uma traição e, antes mesmo de desfazer a mala, recebido uma proposta de casamento com um desconhecido.

Minha vida sentimental havia sido terceirizada.

Levantei-me.

— Sexta-feira eu vou ao jantar.

Meu pai pareceu aliviado.

Vera abriu um sorriso vitorioso.

Ergui um dedo.

— Mas não confunda minha presença com um sim.

Atravessei o hall e parei sob o lustre.

A luz atravessava os cristais desenhados por minha mãe, espalhando pequenos reflexos pelo chão.

Tudo naquela casa parecia ter sido substituído.

Menos aquilo.

Talvez fosse por isso que eu ainda não conseguia simplesmente ir embora.

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