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Capítulo 3

Author: Ray B.
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-02 03:57:44

3. Dez minutos de choro

Beatriz

Meu pai havia ordenado que eu fosse para casa.

Naturalmente, fiz outra coisa.

Não por rebeldia. Rebeldia exige energia, e eu tinha acabado de gastar a minha atravessando o Atlântico para descobrir que meu namorado estava dividindo a cama com outra mulher.

Mandei uma mensagem dizendo que precisava de algumas horas.

Ele não respondeu.

Meu pai sempre considerou o silêncio uma forma superior de desaprovação.

No táxi, ajustei o cronômetro do celular para dez minutos.

Não é frieza. É método.

Aprendi num curso de gestão de crises que emoções reprimidas acabam cobrando juros. Como boa consultora, concluí que o ideal seria estabelecer um orçamento.

Dez minutos.

Depois disso, eu precisava funcionar.

— Pode ir — disse ao motorista, um rapaz mais jovem, calado, com um fone de ouvido de um lado só.

Iniciei o cronômetro.

Esperei.

Nada.

Olhei pela janela. São Paulo passava em borrões de concreto, ônibus e pessoas apressadas. A cidade seguia funcionando com uma indiferença quase ofensiva.

Comecei a achar que talvez tivesse esgotado meu estoque de lágrimas. Que anos de contenção profissional tivessem secado o mecanismo e eu fosse a primeira mulher da história a ser traída sem chorar.

Então o rádio decidiu tocar uma música sertaneja sobre traição.

Foi uma covardia.

Chorei.

Chorei do jeito feio, com ruído, o rosto contraído e os ombros sacudindo. E, para minha própria surpresa, chorei com um croissant na boca, porque ele estava ali, ainda morno, no saco aberto sobre meu colo.

Desperdiçar manteiga me pareceu a única coisa realmente irresponsável naquela manhã.

O motorista estendeu uma caixa de lenços por cima do banco, sem olhar para trás.

Depois trocou de estação.

Registrei mentalmente a manobra de gestão emocional mais eficaz do meu repertório: choro e carboidrato, em paralelo.

Mas não era apenas Daniel.

Era a camisa azul que eu havia escolhido para ele. A caneca que atravessara um oceano na minha mala. As noites em Londres em que me permiti adormecer abraçada a alguém sem pensar em quanto tempo levaria até precisar partir.

Era a lembrança dele chegando com sopa quando fiquei doente.

De alguém que ficava.

Apertei os olhos.

Talvez fosse isso que mais doesse.

Eu não tinha perdido apenas um namorado.

Tinha perdido a confiança numa promessa que ele nunca fizera em voz alta, mas que eu, estupidamente, acreditara ter recebido.

O cronômetro tocou.

Dez minutos.

Enxuguei o rosto com um lenço e inspirei fundo.

— Fim do orçamento — anunciei.

O motorista soltou uma risadinha pelo nariz.

O celular vibrou.

Daniel.

Recusei.

Vibrou novamente.

Recusei.

Duas mensagens chegaram em seguida.

Bia, foi um erro. A gente precisa conversar.

Você sabe como a distância desgasta a gente.

Li a segunda duas vezes.

A distância desgasta, sim. Mas desgastar é uma coisa; atravessar a cozinha dele com uma camisa que eu comprei é outra.

Digitei devagar:

Daniel, acabou. Não ligue, não escreva, não mande flores. Minhas coisas podem ser enviadas por um entregador.

Enviei.

Meu dedo ficou parado sobre o nome dele.

Dois anos cabiam naquela conversa. Fotografias, aniversários, planos de férias, mensagens enviadas de aeroportos. Uma quantidade constrangedora de corações vermelhos para duas pessoas que se consideravam adultas.

Bloqueei.

Fiquei olhando a tela, esperando que a decisão me trouxesse algum alívio.

Não trouxe.

Mas era a decisão certa.

Às vezes, maturidade é fazer o que precisa ser feito sem receber nenhuma recompensa imediata por isso.

Liguei para Camila.

— Eu preciso de vinho e de uma advogada.

— São oito e quarenta da manhã, Bia.

— Eu preciso de vinho e de uma advogada às oito e quarenta.

Houve uma pausa. Depois, o barulho de alguém se levantando da cama.

— Vem pra cá. Tenho o vinho e sou a advogada.

— E se eu chegar chorando?

— Chega do jeito que quiser. Só cobro depois.

Camila Reis mora em Pinheiros, num apartamento pequeno, com plantas demais e uma estante de livros jurídicos que ela jura ter lido.

É minha amiga mais antiga de Londres, onde dividimos uma casa cheia de goteiras e um forno elétrico que só funcionava às quartas-feiras. Dois anos antes, ela voltou para o Brasil, e eu nunca a perdoei completamente pela deserção.

Cheguei com o saco de croissants numa mão e a mala na outra.

Camila abriu a porta de moletom, olhou para meu rosto e me abraçou.

Não perguntou nada.

Fiquei imóvel por um segundo antes de corresponder.

Havia algo perigosamente reconfortante em ser abraçada por alguém que não exigia explicações.

— Eram seis — anunciei, quando nos afastamos. — Sobraram cinco. Comi um no táxi, chorando.

— Muito produtivo.

— Dez minutos cronometrados.

— Orgulho de você.

Sentamos no chão da sala, entre almofadas, com uma garrafa de vinho aberta às nove da manhã e um prato de porcelana onde Camila empilhou os croissants como se fossem canapés.

Contei tudo.

Do porteiro à caneca. Da mulher na cozinha à toalha caída.

Camila ouvia como ouve clientes, com o queixo apoiado na mão e uma expressão neutra que só mudava nos detalhes importantes.

O que significava que mudou várias vezes.

Quando cheguei à camiseta do avesso, ela riu tanto que precisou se apoiar no sofá.

— Desculpa. Desculpa. É que é muito bom.

— Eu sei. Foi o que mais me irritou.

— Nunca gostei dele — confessou, quando se recompôs.

— Você disse que ele era ótimo.

— Eu disse que ele era... adequado.

Olhei para ela.

Começamos a rir ao mesmo tempo.

E, no meio do riso, meus olhos se encheram de lágrimas outra vez.

Camila não tentou me interromper.

Apenas aproximou o prato de croissants.

Era por isso que continuávamos amigas.

— O pior é que ele tem razão numa coisa — murmurei. — Eu nunca estava.

— Bia, estar longe não é autorização para ele dormir com outra pessoa.

— Eu sei.

Girei a taça pela haste.

— Mas às vezes acho que facilito as coisas.

— Que coisas?

— Ir embora. Nunca deixo muita coisa minha em lugar nenhum. Nem roupa, nem planos, nem...

Parei.

Camila me observou.

— Nem você?

Não respondi.

Era irritante ter uma amiga inteligente.

— Bia, você não precisa merecer que alguém seja fiel. Isso deveria ser o mínimo.

Baixei os olhos.

— Eu achei que ele fosse diferente.

— Talvez tenha sido, por um tempo. Mas isso não desculpa o que fez.

Fiquei olhando o vinho na taça.

— Eu só queria chegar a algum lugar e encontrar alguém feliz porque voltei.

Camila apertou minha mão.

— Eu fiquei feliz.

Olhei para ela.

— Você também ficou feliz porque eu trouxe croissants.

— Uma coisa não exclui a outra.

Ri, mesmo com os olhos molhados.

Lá fora, a cidade acordava inteira, com ônibus, padarias e gente que não tinha acabado de perder nada.

Olhei pela janela e tive a sensação estranha de ter saído de um lugar sem ter chegado a outro.

Era um estado conhecido.

Passei boa parte da vida nele.

Às dez e quinze, o celular vibrou novamente.

Olhei a tela por reflexo, preparada para outro pedido de desculpas mal redigido.

Não era Daniel.

Era meu pai.

Uma mensagem curta, sem saudação, sem pontuação decorativa, no estilo de quem estava pagando por palavra.

Pai: A situação mudou. Precisamos conversar hoje.

Beatriz: Sobre o quê?

Pai: Seu futuro.

Beatriz: Isso costuma ser uma decisão minha.

Pai: Desta vez, não inteiramente.

Beatriz: Pai, seja objetivo.

A resposta demorou alguns segundos.

Pai: É sobre seu casamento.

Camila, que lia por cima do meu ombro, parou de mastigar.

— Casamento? — perguntou. — Quem está casando você?

Antes que eu respondesse, chegou outra mensagem.

Pai: Precisamos conversar sobre uma proposta de casamento.

Beatriz: Espero sinceramente que seja o seu.

Pai: Beatriz.

Beatriz: Pai.

Pai: Venha para casa.

Fiquei olhando para a tela.

Eu havia começado aquela manhã acreditando que surpreenderia meu namorado.

Descobri que ele me traía, terminei um relacionamento de dois anos e chorei dentro de um táxi com um croissant na boca.

Agora meu pai queria discutir meu casamento.

— Camila?

— O quê?

— Acho que vamos precisar de outra garrafa.

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