LOGIN5. O herdeiro
Arthur Meu pai tinha duas maneiras de me convocar para uma reunião: pela secretária, quando o assunto era profissional, e por mensagem, quando pretendia arruinar meu dia. Naquela segunda-feira, às oito e dez, recebi: Henrique: Sala do conselho. Nove horas. Não se atrase. Nenhum bom-dia. Nenhum contexto. A delicadeza habitual dos Vasconcellos. Às oito e cinquenta e cinco, atravessei o corredor envidraçado do último andar da sede do grupo, na Faria Lima, com um café na mão e a certeza de que alguém estava prestes a pedir alguma coisa absurda. Encontrei meu pai sentado à cabeceira da mesa. Otávio ocupava a cadeira à direita. Pronto. O absurdo tinha nome. Meu primo ergueu os olhos do tablet e sorriu. — Arthur. Que surpresa vê-lo antes das dez. — Otávio. Que surpresa vê-lo trabalhando. Ele ajeitou a gravata. Aos quarenta e um anos, Otávio Vasconcellos cultivava três grandes talentos: sorrir sem demonstrar os dentes, transformar reuniões em competições e aparecer em fotografias ao lado de pessoas importantes. O quarto era tentar ocupar minha cadeira. — Sentem-se — ordenou meu pai. Henrique Vasconcellos não precisava levantar a voz. Passara a vida inteira treinando pessoas para obedecer ao seu silêncio. Sentei. — Temos um problema? — perguntei. — Temos uma oportunidade — respondeu ele. Olhei para Otávio. — Pior ainda. Meu pai ignorou. — A Cristais Lacerda está em dificuldades. Augusto precisa de um investidor para evitar a execução das garantias. Conhecia a empresa. Tradicional fabricante de cristais, boa reputação, gestão financeira desastrosa. Um caso interessante de reestruturação. — Podemos avaliar uma aquisição parcial — sugeri. — Dependendo do endividamento, pode haver ativos interessantes. — Não estou falando apenas de uma aquisição. Otávio cruzou as mãos sobre a mesa. Reconheci a expressão. Ele sabia de alguma coisa que eu não sabia. E estava se divertindo. — O acordo entre nossas famílias prevê uma condição para a operação — explicou meu pai. — Qual? Henrique me encarou. — Você vai se casar. Fiquei em silêncio. Não por choque. Por educação. Era importante oferecer ao interlocutor a oportunidade de perceber sozinho o tamanho da estupidez que acabara de dizer. Meu pai não percebeu. — Com a filha de Augusto Lacerda — acrescentou. Pousei o café. — Pai, se isso é uma tentativa de melhorar meu humor, recomendo contratar um comediante. — Estou falando sério. — Esse é justamente o problema. Otávio pigarreou. — O casamento consolidaria a parceria entre as famílias e permitiria a execução do acordo societário. Virei para ele. — Você ensaiou essa frase diante do espelho? — Estou apenas esclarecendo. — Então esclareça por que está tão interessado no meu estado civil. O sorriso dele aumentou. — Porque suas decisões afetam o grupo inteiro. Meu pai ergueu a mão antes que eu respondesse. — Basta. Existe uma cláusula no antigo acordo de acionistas. A formalização de uma aliança familiar permite determinada reorganização de participações e garante a entrada do investimento. — Uma aliança familiar — repeti. — Estamos administrando um conglomerado ou negociando terras na Idade Média? — O documento é válido. — A validade jurídica de uma ideia não a torna inteligente. Henrique se inclinou para a frente. — Não preciso que goste. Preciso que compreenda o que está em jogo. Olhei para os dois. Aquela reunião não tinha sido convocada para ouvir minha opinião. Tinha sido convocada para comunicar uma decisão. — E por que eu? Otávio soltou uma risada discreta. — Porque você é o herdeiro indicado para assumir a presidência executiva. — Que observação brilhante. Vou pedir que incluam na ata. Meu pai abriu uma pasta. Dentro havia documentos, projeções e uma minuta de deliberação do conselho. Reconheci meu nome antes de terminar a primeira página. A promoção que vinha negociando havia meses estava condicionada à aprovação de uma reorganização societária. E a reorganização, aparentemente, dependia daquela aliança. — Você está vinculando minha nomeação a um casamento? — perguntei. — Estou dizendo que a operação precisa ser concluída antes da votação definitiva. — E se eu recusar? Henrique não respondeu imediatamente. Foi Otávio quem se manifestou: — O conselho terá de considerar outras opções. Olhei para meu primo. Ele sustentou meu olhar com a tranquilidade de um homem que acabara de receber um presente. Entendi. A cadeira que eu disputava havia anos estava ali, ao alcance da mão. E Otávio esperava que meu orgulho me fizesse perdê-la. — Muito conveniente — murmurei. — Não fui eu que redigi o acordo — respondeu ele. — Imagino sua decepção. Meu pai fechou a pasta. — Arthur, você sabe o que construímos. Sabe o quanto trabalhou para chegar até aqui. Sabia. Aos trinta e sete anos, eu havia passado mais da metade da vida tentando provar que não ocupava um cargo apenas por carregar o sobrenome Vasconcellos. Trabalhei em unidades deficitárias, negociei operações que ninguém queria assumir e passei noites inteiras corrigindo erros de executivos que recebiam o dobro do meu salário. Não pretendia entregar tudo a Otávio porque meu pai resolvera organizar um casamento de conveniência. — Quem é ela? — perguntei. Henrique pareceu satisfeito por finalmente ouvir uma pergunta prática. — A filha de Augusto. — Essa parte eu entendi. Nome, idade, profissão. Alguma informação que permita distingui-la das outras mulheres do planeta. — É uma mulher independente. Mora no exterior e trabalha com consultoria. — Ótimo. Uma desconhecida que provavelmente vai me odiar. Otávio inclinou a cabeça. — Talvez vocês tenham mais em comum do que imagina. — Aparentemente, ambos temos parentes inconvenientes. Meu pai respirou fundo. — Ela também tem motivos para considerar a proposta. — Imagino. Ninguém aceitaria isso por diversão. A palavra casamento continuava me incomodando. Não pela cerimônia, pelas alianças ou pelos fotógrafos. Essas coisas podiam ser organizadas, administradas e encerradas. O problema era o que vinha depois. Uma mulher na minha casa. Uma rotina dividida. Alguém que teria o direito de perguntar onde eu estava, por que chegara tarde ou por que evitava falar de determinados assuntos. Eu não dividia minha vida com ninguém havia anos. E gostava assim. — Qual seria a duração? — perguntei. — O acordo prevê um período inicial de doze meses, com condições a serem negociadas. — Então estamos falando de um contrato. — Estamos falando de um casamento — corrigiu Henrique. — Com prazo, cláusulas e interesses financeiros. Se chamar de contrato, pelo menos economizamos hipocrisia. Otávio sorriu. — Sempre tão romântico. — Guarde essa observação para o meu discurso de casamento. Meu pai se levantou devagar. Desde o infarto, anos antes, seus movimentos tinham adquirido uma cautela que eu ainda não me acostumara a ver. Por um instante, lembrei do telefonema que recebera em Paris. Da urgência. Do avião. De tudo que deixei para trás naquela viagem. Afastei a lembrança antes que ela terminasse de se formar. — Não estou pedindo que se apaixone — disse Henrique. — Estou pedindo que faça o necessário pela família. Pela família. Era impressionante quantas decisões ruins cabiam naquela expressão. Olhei para a pasta. Depois para Otávio. Meu primo já parecia escolher as cortinas da sala que pretendia ocupar. — Quero analisar o acordo completo — falei. — E as condições da operação. Nada será assinado sem meu advogado. Henrique assentiu. — Naturalmente. — Também quero conhecer a mulher antes de qualquer compromisso. — Haverá um jantar na sexta-feira. — Ela sabe? — Augusto vai conversar com a filha. A resposta não me agradou. Não precisava conhecer aquela mulher para imaginar sua reação ao descobrir que dois homens haviam discutido seu casamento numa sala de conselho. — E se ela disser não? Meu pai sustentou meu olhar. — Então teremos de encontrar outra solução. Pelo menos alguém reconhecia que ela podia recusar. Levantei-me. — Vou ao jantar. Otávio perdeu o sorriso por uma fração de segundo. Pequena. Deliciosa. — Isso significa que aceitou? — perguntou Henrique. — Significa que vou conhecer a proposta. E a mulher. Nessa ordem, se possível. Recolhi meu café, agora frio. — Uma última coisa, pai. — O quê? — Se pretende me vender como marido, espero que tenha preparado uma apresentação melhor do que essa. Saí antes que ele respondesse. No elevador, observei meu reflexo no aço escovado. Terno impecável. Gravata no lugar. A expressão de sempre. Por fora, nada havia mudado. Por dentro, eu calculava os riscos de aceitar um casamento com uma desconhecida. Não pensei em amor. Nem em Paris. Muito menos numa garota de olhos desafiadores que, doze anos antes, me ensinara que certas apostas custavam mais do que qualquer homem estava disposto a pagar. Eu havia enterrado aquela história. E, naquela manhã, tinha problemas suficientes com o presente. O que eu ainda não sabia era que os dois estavam prestes a se encontrar.12. Ressaca moral Arthur Acordei no sábado com uma dor de cabeça que não tinha absolutamente nada a ver com álcool. Bebi duas taças de vinho na noite anterior. Quantidade insuficiente para justificar o estado deplorável do meu humor. A verdadeira responsável tinha cabelos castanhos, olhos claros e uma habilidade extraordinária para transformar qualquer conversa numa disputa. Beatriz Lacerda. Passei doze anos sem vê-la. Em menos de três horas, ela conseguiu pisar no meu pé, questionar minha capacidade de tomar decisões e me lembrar de uma palavra que eu preferia ter eliminado do vocabulário. Aposta. O café estava pronto quando entrei na cozinha. Peguei uma xícara e consultei o celular. Sete mensagens do meu pai. Três de Otávio. Uma de Rafael, perguntando por que eu havia ligado às onze e quar
11. O corredor Arthur A sobremesa ainda estava sobre a mesa quando Beatriz decidiu que já tinha suportado aquele jantar por tempo suficiente. Henrique discutia com Augusto a possibilidade de realizar a cerimônia em três semanas. Vera parecia especialmente interessada na lista de convidados, embora ninguém tivesse confirmado que haveria um casamento. Eu, por minha vez, tentava descobrir por que o brinde de Beatriz à liberdade de escolha continuava me incomodando. Ela pousou a colher, limpou os lábios com o guardanapo e se levantou. — Com licença. Preciso ir ao toalete. Antes de sair, lançou um olhar na minha direção e inclinou discretamente a cabeça para o corredor. Não era um convite. Era uma convocação. Esperei alguns segundos
10. Brinde de cristal Beatriz Existem situações em que uma mulher precisa manter a compostura. Uma reunião com investidores hostis. Uma apresentação diante de um conselho de administração. Um jantar com a família depois de descobrir que seu namorado a traía. E existe uma categoria especial de sofrimento: descobrir que o homem escolhido para ser seu marido é o mesmo que você passou doze anos tentando esquecer e odiar. Arthur Vasconcellos estava sentado ao meu lado. Pior: estava confortável. Eu reconhecia aquela postura. Ombros relaxados, expressão tranquila, uma das mãos apoiada perto da taça. Como se encontrar uma antiga namorada numa negociação matrimonial fosse apenas mais um compromisso na agenda. Eu, por outro lado, considerava seriamente a possibilidade de me esconder debaixo da mesa. Não seria elegante. Mas seria terapêutico. — Beatriz, querida, você está tão calada — comentou Vera. Ergui os olhos. — Estou ouvindo. — Desde quando? Arthur tossiu discretamente. Olh
9. O noivo Arthur Eu tinha ensaiado a indiferença durante a semana. Não por insegurança. Por método. Quando se entra numa negociação às cegas, a primeira regra é nunca deixar o outro lado perceber que você também não sabe onde está pisando. Aceitei conhecer a filha de Augusto Lacerda porque minha cadeira na presidência executiva dependia daquela operação. Uma esposa seria uma complicação administrável, desde que viesse sem história, sem expectativas românticas e, preferencialmente, sem interesse em reorganizar minha vida. Meu pai dissera apenas que ela morava em Londres e trabalhava com consultoria. Não perguntei mais. Foi um erro. Às oito e dez da noite, eu estava junto à janela da sala privativa, girando uma abotoadura enquanto meu pai conversava sobre investimentos. Ouvi os saltos primeiro. Passos firmes, sem hesitação. Depois, uma voz feminina respondeu a alguma gentileza de Henrique com uma ironia perfeitamente educada. Meu corpo reconheceu aquela voz an
8. O vestido errado Beatriz Na sexta-feira, às cinco da tarde, descobri que havia cometido um erro gravíssimo. Não foi aceitar o jantar com um desconhecido. Nem considerar um casamento de conveniência para salvar uma fábrica. Foi permitir que Marta escolhesse minha roupa. — Não — declarei, observando o vestido pendurado diante do espelho. — Você nem experimentou. — Não preciso. Ele tem intenções. Marta, costureira de confiança da minha família havia quase vinte anos, ergueu uma sobrancelha. — Vestidos não têm intenções, Beatriz. — Esse tem. E nenhuma delas é respeitável. O tecido de seda verde-escura deslizava sobre o cabide com uma elegância suspeita. Decote discreto, alças finas, cintura marcada e uma fenda lateral que, dependendo do movimento, poderia revelar mais do que eu pretendia. Era lindo. Esse era justamente o problema. — Quero o preto — insisti. — O preto parece roupa de audiência. — Excelente. Estou prestes a participar de uma negociação en
7. Razões própriasBeatrizNa segunda-feira, às seis e vinte da manhã, eu estava a caminho de Itu.Não era exatamente a reação esperada de uma mulher que acabara de recusar uma proposta de casamento.Camila recomendara descanso. Meu pai recomendara bom senso. Vera provavelmente recomendaria um vestido apropriado para conhecer o futuro marido.Eu escolhi visitar uma fábrica à beira da falência.Cada pessoa lida com crises da maneira que consegue.A estrada estava quase vazia. No banco do passageiro, uma pasta com os balanços da Cristais Lacerda dividia espaço com um café que já esfriara e o caderno de desenhos da minha mãe.Passei o domingo inteiro examinando números.O resultado era péssimo.A empresa tinha produtos excelentes, clientes fiéis e uma capacidade admirável de transformar faturamento em dívida.Meu pai conseguira preservar o prestígio da marca enquanto destruía sua saúde financeira.Era quase um talento.Estacionei diante da fábrica pouco depois das oito.O prédio de tijol







