Mag-log inValentina
Eu não sabia exatamente o que esperava encontrar quando corri para o jardim interno.
Talvez uma criança chorando.
Talvez uma crise.
Talvez apenas medo.
Não esperava encontrar meu coração completamente despreparado.
Aoife estava sentada no chão de pedra perto da fonte, os joelhos dobrados contra o peito, os cabelos castanhos c
Meu pai.Duas palavras tinham sido suficientes para fazer o chão parecer instável sob meus pés.Cillian continuava segurando a fotografia, os olhos fixos no rosto de Eamon O'Rourke, embora o homem que aparecia naquela imagem não fosse seu pai. Eu tinha certeza disso. A fotografia mostrava minha mãe, uma mulher muito parecida com ela e um desconhecido que carregava o símbolo da Matilha.Mesmo assim, Cillian acabara de dizer que Eamon havia entregado Aisling Byrne àquelas pessoas.Minha mãe.A mulher que eu conhecera como Isabella Moretti.A mulher que me ensinara a amarrar os sapatos, que reclamava quando eu deixava a janela aberta durante o inverno e que costumava passar os dedos pelos meus cabelos enquanto eu fingia dormir.Olhei para Cillian, esperando que ele explicasse que eu havia entendido errado.Ele não explicou.— Seu pai? — perguntei, sentindo a garganta apertar. — Você está dizendo que Eamon entregou minha mãe para aquelas pessoas?Patrick, que permanecia próximo ao veículo
A revelação sobre Eamon continuava martelando na minha cabeça quando entrei no carro.Cillian havia admitido que seu pai tentara incluir uma cláusula no contrato que permitiria à matilha impedir minha saída da propriedade caso minha ligação com alguma linhagem antiga fosse descoberta. Aquilo significava que Eamon suspeitava de alguma coisa antes mesmo de termos encontrado os documentos da minha mãe, antes de Giulia chegar à Irlanda com a caixa e antes de eu descobrir que Isabella Moretti era, na verdade, Aisling Byrne.Eamon sabia.Talvez não soubesse tudo, mas sabia o suficiente para tentar garantir que eu permanecesse sob a autoridade do Alfa.Olhei para Cillian enquanto ele assumia o volante. A luz acinzentada da manhã atravessava o para-brisa, destacando o cansaço em seu rosto e a pequena mancha de sangue que permanecia perto da gola da camisa. Ele estava diferente do homem que me recebera naquela mansão. Ou talvez eu estivesse começando a enxergar coisas que antes não conseguia p
A palavra continuou comigo enquanto descíamos.Reivindicação.De mim.Eu tinha passado semanas tentando entender o que significava ser reconhecida pelo lobo de Cillian, depois tentando compreender o que o Conselho queria quando falava em me marcar como Luna. Agora existia outro grupo, uma Matilha que minha mãe temera o suficiente para abandonar o próprio nome, atravessar o mar e construir uma vida inteira sobre documentos falsos, dizendo que eu pertencia a eles.E, em algum ponto entre uma ameaça e outra, percebi que estava cansada de ser tratada como alguma coisa que podia ser reivindicada.Cillian caminhava um pouco à minha frente. Não tinha voltado a discutir minha decisão de acompanhá-lo, embora eu soubesse que não gostava dela. Seus movimentos estavam tensos, os sentidos atentos a cada som da casa, e de vez em quando ele levava a mão à lateral do corpo onde
A mensagem tremia entre meus dedos.A italiana será devolvida quando Valentina Byrne vier buscá-las sozinha.Li outra vez, embora não houvesse nada para compreender melhor. As palavras eram simples. A ameaça também.Giulia tinha atravessado a Europa porque eu pedi ajuda.Tinha deixado a vida dela na Itália, comprado uma passagem só de ida e entrado numa casa cheia de pessoas que podiam se transformar em lobos porque eu dissera que precisava dela. Poucas horas depois, alguém a arrancara do quarto ao lado do meu.Por minha causa.— Não.Amassei o papel.Cillian segurou meu pulso antes que eu pudesse me virar.Não apertou. Apenas impediu que eu avançasse para a janela.— Valentina.— Solta.— Você não vai atrás dela sozinha.— Foi exatamente o que eles pediram.— Por isso mesmo.Puxei o braço.Ele soltou imediatamente, mas se colocou entre mim e a janela.Os olhos ainda tinham aquele dourado sobrenatural ao redor das pupilas. As mãos haviam voltado ao normal, embora pequenas manchas de s
O uivo do lado de fora atravessou a casa, mas eu mal consegui ouvi-lo.Meus olhos estavam presos nas mãos de Cillian.Nas garras.Eu já tinha visto coisas que deveriam ter me preparado para aquilo. Tinha visto Cillian como lobo, enorme e negro, avançando pela floresta para me proteger. Tinha descoberto que homens e mulheres ao meu redor eram capazes de mudar de forma. Tinha visto pessoas se transformarem no círculo de pedras sob a lua cheia e, apenas na noite anterior, ouvira Cillian explicar que o lobo dentro dele não era simplesmente um animal.Mesmo assim, nada havia me preparado para vê-lo daquele jeito.Talvez porque o lobo completo fosse mais fácil de aceitar.Quando ele estava transformado, meu cérebro conseguia separar as coisas. Cillian era o homem. Aquela criatura enorme era o lobo. Eu sabia que ambos ocupavam a mesma existência, que ele continuava consciente dentro daquele corpo, mas visualmente existia uma fronteira. Uma forma terminava para que a outra começasse.Agora nã
Eu tinha dormido menos de três horas quando desisti de fingir.O diário de minha mãe continuava aberto sobre a mesa, exatamente na página em que Giulia e eu havíamos parado. A luz da manhã atravessava as cortinas e alcançava parte da cama, onde cartas, fotografias e documentos ainda estavam espalhados. Giulia dormia no quarto ao lado depois de eu praticamente obrigá-la a descansar, mas eu não conseguira fazer o mesmo. Toda vez que fechava os olhos, uma frase diferente voltava.A Matilha não caça lobos. Ela caça aquilo que existia antes deles.Depois outra.







