ログインCapítulo 4
Narrado por Ariella Acordei com o celular vibrando em cima da cômoda. Eram seis e meia. Mensagem do hospital: Rafa tinha passado bem a noite. O tratamento estava controlando a produção da proteína defeituosa. Respirei aliviada. Levantei e fui para o banheiro. O chuveiro era enorme, com pressão perfeita e água que aquecia em segundos. No começo, eu me sentia culpada por gastar tanta água. No apartamento, banho demorado era luxo. Aqui, parecia pecado não aproveitar. Fiquei debaixo da água quente por uns bons minutos, sentindo os músculos relaxarem. Pensei nos meninos, na noite anterior, nos olhos cinzentos de Alessandro me observando no jantar. Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. Me vesti, finalizei o cabelo às pressas e desci. Rossetti estava na cozinha, arrumando a mesa. — Bom dia, senhora. — Bom dia. Alessandro já desceu? — Está no escritório. Pediu para avisar que quer vê-la antes de sair. Olhei para ela. — Agora? — Sim. Deixei a xícara de café pela metade e fui para o escritório. Bati na porta. — Entre. A voz dele era seca. Abri a porta. Ele estava atrás da mesa, cercado de papéis. O terno impecável, o olhar gelado. Mal levantou a cabeça. — Sente-se. Sentei. — Preciso que você me acompanhe hoje à noite. — Aonde? — Jantar com investidores. Japoneses. Contrato de duzentos milhões. Pisquei. — Duzentos milhões? Ele ignorou minha surpresa. — Vista o vestido que a Rossetti vai deixar no seu quarto. Cabelo solto. Maquiagem discreta. — E se eu não quiser ir? Ele levantou os olhos devagar. O olhar cinzento me perfurou. — Faz parte do contrato. Aparições públicas quando necessário. Cláusula sete. Cruzei os braços. — Você podia ter avisado antes. — Estou avisando agora. — Hoje de manhã? O jantar é à noite? — Isso mesmo. Respirei fundo. Contei até três. — Algo mais? — Aprenda a sorrir. Parece que está sempre pronta para uma briga. Levantei devagar. — Posso ir agora? Ele fez um gesto com a mão, me dispensando. Na porta, me virei. — Ah, Alessandro? Ele ergueu uma sobrancelha. — Você também devia aprender a sorrir. Parece que sempre está enterrando alguém. Saí antes que ele respondesse. --- Passei a manhã no hospital. Rafa estava no jardim, sentado num banco. Beto ao lado, como sempre. — Ari! — Rafa sorriu. — Os médicos disseram que a proteína já está baixando. Que em algumas semanas posso até voltar pra escola. Sentei ao lado dele. — Isso é ótimo. — E o tratamento não é tão ruim quanto eu pensava. Só um pouco chato. Beto me olhava em silêncio. Quando Rafa se distraiu com um pássaro, ele falou baixo: — Tá tudo bem? — Tô indo a um jantar hoje. Com ele. — Jantar? — Negócios. Investidores. Beto franziu a testa. — Você vai? — Tenho que ir. Contrato. Ele não gostou, mas não disse nada. --- Voltei para a mansão no fim da tarde. No quarto, o vestido estava estendido na cama. Preto, simples na frente, mas com as costas de fora. Caro demais. Lindo demais. Tomei outro banho antes de me vestir. Dessa vez mais rápido, só para lavar o cheiro do hospital. Quando saí, me olhei no espelho. Pele limpa, cabelos ainda úmidos. Passei creme, finalizei os cachos. Maquiagem leve, como ele pediu. Quando coloquei o vestido, me virei de costas para o espelho. As costas completamente expostas. — Quem é você? — murmurei para meu reflexo. Desci. Alessandro estava no hall, de terno escuro. Quando me viu, seu olhar percorreu meu corpo dos pés à cabeça. Demorou um segundo a mais no meu corpo. Depois voltou para o celular. — Atrasada. Olhei no relógio. Eram dois minutos. — Dois minutos. — Atrasada. Respirei fundo. Não ia discutir. No carro, o silêncio foi pesado. Ele respondia e-mails. Eu olhava pela janela. — Quem são esses investidores? — perguntei. — Japoneses. Três homens. Muito tradicionais. — O que eu faço lá? — Sorri. Fala o básico. Não me envergonha. Olhei para ele. — Não te envergonhar? — Isso mesmo. Ri baixinho. — Pode ficar tranquilo. Sei me comportar melhor que muito playboy que nasceu em berço de ouro. Ele me olhou de lado. — Veremos. --- O restaurante era absurdamente caro. Iluminação baixa, móveis de madeira escura, garçons de luva. Os investidores eram três homens japoneses, todos de terno, todos sérios. Alessandro mudou completamente na frente deles. Educado, cortês, até simpático. Falava japonês perfeitamente. Fiquei observando. No meio do jantar, um deles apontou para mim e perguntou algo. Alessandro respondeu, eles riram. Depois se virou: — O senhor Tanaka quer saber como nos conhecemos. Olhei para ele. Depois para Tanaka. — Foi num café — respondi, olhando nos olhos do japonês. — Ele derrubou café na minha blusa. Não pediu desculpas, mas pagou a lavagem a seco. Alessandro traduziu. Os japoneses riram. Tanaka disse algo e apontou para mim. — Ele perguntou se você sempre fala o que pensa — Alessandro traduziu. Sorri. — Diga que sim. E que aprendi que gente honesta é mais rara que dinheiro. Tanaka riu de novo e levantou a taça para mim. Retribuí. No fim do jantar, os negócios tinham avançado mais do que Alessandro esperava. No carro de volta, ele ficou em silêncio por um longo tempo. Depois: — Onde aprendeu a fazer isso? — O quê? — A lidar com gente assim. Com dinheiro e com poder. Dei de ombros. — Trabalhei em restaurante. Garçonete vê todo tipo de gente. Aprende a ler quem é quem. Ele me olhou. — O Tanaka raramente gosta de alguém. Disse que você lembra a filha dele. — Que morreu? — arrisquei. Ele franziu a testa. — Como sabe? — O olhar dele. Quando falou de mim, tinha tristeza. Alessandro ficou em silêncio. Depois: — Você observa demais. — Você observa de menos. O silêncio voltou. Mas diferente. Menos pesado. --- Chegamos na mansão. Desci do carro e fui direto para o quarto. Tirei o vestido com cuidado, coloquei no cesto de roupas suja. Tomei um banho rápido para tirar a maquiagem e o cansaço da noite. Água quente, vapor, silêncio. Fiquei ali, pensando. Na noite, nos japoneses, no olhar de Alessandro quando me viu de vestido. Bateram na porta. Enrolei a toalha e fui atender. Era ele. Ainda de terno, mas a gravata frouxa, o cabelo levemente desarrumado. — O jantar deu certo. Fechamos o contrato. — Que bom. Ele me olhou. A toalha, os cabelos molhados, o rosto sem maquiagem. — Você já ia dormir? — Ia. Ele hesitou. — O Tanaka pediu para te dar isso. Estendeu um cartão. Simples, com um nome e um número. — Disse que se você precisar de algo no Japão, pode ligar. Olhei para o cartão. — Ele é influente lá? — Muito. Guardei o cartão. — Obrigada. Ele ficou ali, parado na porta. — Por que fez isso? — O quê? — Falar do café. Humanizar a história. Podia ter ficado calada. Pensei antes de responder. — Porque gente rica também gosta de verdade. Talvez até mais, porque vivem cercados de mentiras. Ele me olhou por um longo momento. — Boa noite, Ariella. — Boa noite, Alessandro. Ele fechou a porta. Fiquei ali, de toalha, cartão na mão, pensando. Ele não disse "obrigado" dessa vez. Mas o olhar... o olhar disse mais do que palavras. --- No dia seguinte, tomei banho e desci para o café. Encontrei Sofia sozinha na sala. — Cadê a babá? — perguntei — Mandaram embora. — Sofia respondeu — O quê? — respondi, chocada Ela deu de ombros. — Meu pai falou que não prestava. Olhei para Rossetti, que colocava café na mesa. — Alessandro dispensou ela esta manhã. Disse que a senhora cuidará da Sofia até encontrarem outra. — Eu? — Ordem dele. Sofia me olhou com aqueles olhos cinzentos. — Você vai cuidar de mim? Olhei para a menina. Depois para Rossetti. — Parece que sim. Sofia quase sorriu. Mais tarde, passei no escritório. Bati e entrei sem esperar resposta. — O que foi isso? Alessandro levantou os olhos dos papéis. — O quê? — A babá. Mandar embora sem me perguntar. Ele largou a caneta e recostou na cadeira. — Não preciso perguntar. — E agora? — cruzei os braços. — Quem vai cuidar da Sofia? — Você. Pisquei. — Como assim, eu? — Você reclamou que ela não tinha paciência com a Sofia. — A voz dele era calma, controlada. — Agora vai ter chance de fazer melhor. — Isso é castigo? Ele se levantou. Veio na minha direção, devagar. Parou perto. Muito perto. — É um teste. Você fala tanto de cuidar da Sofia, de entender criança. Agora prove. Olhei nos olhos cinzentos dele. Desafio puro. — E se eu não quiser? Ele inclinou a cabeça. — Pode recusar. Mas lembre-se: cuidar dela não estava no contrato. Fazer isso é escolha sua. Assim como ajudar no jantar ontem foi escolha sua. Fiquei em silêncio. Ele deu um passo para trás. — Pense. Voltou para a mesa. Saí sem dizer nada. --- No quarto, tirei a roupa e entrei no banheiro. Mais um banho. O segundo do dia. Mas eu precisava pensar, e debaixo da água quente era mais fácil. Fiquei ali, sentindo a água escorrer pelo corpo. O que ele estava fazendo? Me testando? Me provocando? Fechei os olhos. Lembrei do olhar dele no jantar. Lembrei do jeito que ele disse "você observa demais". Lembrei do cartão do japonês. Desliguei o chuveiro. Me vesti e desci. Sofia estava na sala, desenhando. Sentei ao lado dela no tapete. — O que vai desenhar hoje? Ela me olhou. — Você. Sorri. — Então me faz bonita. Ela pensou. — Você já é bonita. Meu peito apertou. Ficamos ali, as duas, em silêncio. Ela desenhando, eu observando. Depois de um tempo, ela empurrou o papel na minha direção. Era eu. Cabelos cacheados, vestido, sorrindo. Ao lado, uma figura menor. — Quem é essa? — apontei para a figura menor. — Eu. — E Lina? Ela apontou para um traço no colo da figura menor. — Aqui. Quase ri. — Ficou lindo. Ela quase sorriu. Lá no escritório, eu sabia que ele estava nos observando. Sempre observando. Mas dessa vez, quando olhei para a janela, ele desviou o olhar primeiro.Capítulo 37 Narrado por Ariella O dia passou tranquilo demais até a mensagem dele... Não foi uma manhã diferente. Acordei sem pressa, tomei banho, escolhi uma roupa confortável. Desci já perto do meio-dia. Os meninos estavam no jardim com Sofia. Rafa corria atrás de uma bola, Sofia gritava alguma regra inventada, e Beto lia como sempre, mas atento ao redor. Rossetti organizava a cozinha. A casa tinha aquele silêncio vivo que eu já reconhecia. Não era vazio. Era rotina. Ele não estava. Tinha saído cedo, disseram. Eu não perguntei para onde. Não era novidade. --- O almoço foi servido pouco depois. A mesa estava posta como sempre — pratos quentes, frutas já cortadas, sucos naturais, tudo organizado com cuidado por Rossetti. Nada excessivo, mas longe de ser simples. As crianças comeram rápido e voltaram para o jardim. Eu fiquei um pouco mais à mesa, sem pressa, mexendo no prato mais do que comendo. Depois, subi. Troquei de roupa por algo ainda mais confortável e deitei por al
Capítulo 36Narrado por Ariella O dia começou sem pressa. Acordei com o sol entrando pelas frestas da cortina, mas não levantei imediatamente. Fiquei ali, sentindo o tecido da camisola de cetim contra a pele, os cachos ainda protegidos pela touca. A Rossetti tinha razão sobre o cetim. Antes, eu acordava com um ninho na cabeça. Agora, os fios continuavam definidos, quase como na noite anterior. Peguei o celular na mesa de cabeceira. Nove e meia. Nenhuma mensagem de urgência. Bom. Levantei, fui até o banheiro e só então tirei a touca. Os cachos caíram soltos, ainda alinhados. Passei os dedos para separar algumas mechas e gostei do que vi. O banho, dessa vez, foi demorado. Abri o chuveiro e deixei a água esquentar enquanto escolhia os produtos. A bancada de mármore estava cheia — frascos de vidro fosco, rótulos em italiano, cheiros que eu ainda não sabia nomear. Entrei no box. A água quente caiu nas costas. Massageei o shampoo no couro cabeludo com calma, sentindo a espuma se for
Capítulo 35Narrado por Alessandro Passaram-se algumas semanas. O tratamento experimental dos meninos tinha sido um sucesso. Os exames mostraram o que o médico chamou de "remissão dos sintomas agudos" — a proteína defeituosa estava controlada, os níveis estáveis, os órgãos sem sinais de progressão da doença. Eles voltaram para casa no início do mês, e a mansão, que antes parecia um museu silencioso, agora vivia cheia de barulho. Rafa corria pelos corredores como se estivesse compensando o tempo perdido no hospital. Beto continuava lendo no jardim, mas agora levantava os olhos de vez em quando para ver o irmão correndo atrás de Sofia. Ela não desgrudava dos dois. Era "Rafa" pra lá, "Beto" pra cá, e a Lina sempre no colo, como se fizesse parte do trio. Ariella se dividia entre os três com uma naturalidade que eu não sabia que existia. Ela resolvia as brigas, ajudava com o dever, cortava fruta no meio da tarde, e ainda encontrava tempo para me olhar de um jeito que me desarmava. Eu
Capítulo 34 Narrado por Alessandro O escritório estava silencioso quando entrei. O sol já tinha clareado o suficiente para entrar pelas janelas do fundo, mas ainda era cedo. Antes das oito. O motorista tinha me deixado ali, eu tinha dispensado o café que a recepcionista ofereceu, e agora estava sozinho com os números na tela. A reunião com os representantes da filial de Dubai tinha sido remarcada três vezes na última semana. Dessa vez, não podia adiar. O contrato com os fornecedores dos Emirados estava emperrado havia dois meses, e o intermediário, um libanês com escritório em Londres, já tinha avisado que se não fechássemos até o fim do mês, o negócio esfriava. Eu não podia perder aquela oportunidade. A expansão para o mercado do Golfo era o próximo passo lógico. As filiais na Europa já estavam consolidadas. Cingapura operava com margem confortável. O Oriente Médio era a peça que faltava para fechar o circuito. Olhei para o relógio. 8h47. A ligação estava marcada para as 9h.
Capítulo 33Narrado por AriellaAcordei antes do despertador.Não foi um despertar brusco, nem leve. Só… inevitável. Como se o corpo já soubesse que não adiantava continuar ali.Fiquei deitada por alguns segundos, olhando para o teto ainda escuro. O silêncio do quarto era confortável, mas não o suficiente para me fazer ficar.Respirei fundo e me levantei.---O banho demorou mais do que o normal.A água quente caía constante enquanto eu apoiava a mão na parede, deixando o vapor tomar o espaço. Não estava pensando em nada específico, mas também não estava vazia.Era um meio termo estranho.Lavei o cabelo com calma, massageando mais devagar do que o habitual. Passei condicionador, deixei agir e fechei os olhos por alguns segundos.Quando saí, o ar frio do quarto bateu de leve na pele.Sequei o cabelo parcialmente usando o difusor por alguns minutos, só o suficiente para tirar o excesso de umidade e dar forma.---No closet, demorei mais do que o necessário.Passei os dedos por algumas p
Capítulo 32Narrado por AriellaO carro entrou no portão da mansão quando já estava completamente escuro.Alessandro estacionou e desligou o motor, mas não saiu na hora. Ficou ali alguns segundos, as mãos ainda no volante.Eu também não me mexi.A cabeça não desligava. Era como se tudo do dia ainda estivesse acontecendo ao mesmo tempo. A médica falando, o shopping, ele… as coisas que ele disse.Aquilo ficava voltando, sem parar.A porta do lado dele abriu primeiro.Ele deu a volta no carro e abriu para mim. Esperei um segundo antes de descer.— Vai querer comer? — Alessandro perguntou, encostado na porta.— Não — respondi, passando por ele.Ele fechou a porta atrás de mim.— Você não comeu o dia inteiro — disse ele, vindo logo atrás.Parei no meio do caminho e olhei.— Eu sei exatamente o que eu fiz hoje — falei, firme.Ele me observou por um segundo, como se fosse insistir.Mas não insistiu.---Entramos.O hall estava silencioso demais. Tudo no lugar. Nada fora do normal.Menos eu.







