FAZER LOGINCapítulo 3
Narrado por Ariella Acordei com o sol entrando pela fresta da cortina. Meu primeiro pensamento foi para os meninos. Peguei o celular e vi a mensagem do hospital: Rafa estava estável, o tratamento começaria em algumas horas. Respirei fundo. Tomei banho, me vesti e desci. Rossetti estava na cozinha, preparando o café. — Bom dia, senhora. — Bom dia. Alessandro já saiu? — Está no escritório. Pediu para não ser incomodado. Acenei. Sentei e peguei uma xícara de café. Sofia apareceu na porta, de uniforme, Lina no colo. Parou e me olhou. — Bom dia — falei. — Bom dia — respondeu baixinho. Ela sentou longe de mim, no outro lado da mesa. Rossetti colocou um prato na frente dela. Ficamos em silêncio. — Hoje vou ver meus irmãos no hospital — falei. — Eles estão doentes. Ela me olhou. — Que doença? — Uma coisa no fígado. O corpo deles produz uma proteína que faz mal. Mas estão fazendo tratamento. Ela processou a informação. — Meu pai disse que você vai morar aqui. — Vou. — Pra sempre? — Por um tempo. Ela pensou. — Tá. Levantou e saiu com a babá que esperava na porta. — Peguei o carro com motorista e fui para o hospital. Rafa estava sentado na cama, com um sorriso no rosto. Beto ao lado, como sempre. — Ari! — Rafa gritou quando me viu. — Disseram que o tratamento novo é muito bom. Que vai impedir o fígado de produzir aquela proteína ruim. Sorri e sentei na ponta da cama. — Isso é ótimo. — E o hospital é muito melhor — ele continuou. — A comida é boa, a cama é confortável... — E a televisão é grande — completei. Ele riu. Fiquei ali conversando com eles até a hora do almoço. Beto falou pouco, mas seus olhos estavam mais calmos. — A senhorita precisa voltar? — a enfermeira perguntou, entrando no quarto. Olhei no relógio. Quase duas da tarde. — Já vou indo. Rafa fez bico. — Volta amanhã? — Volto. Prometo. Beto me acompanhou até a porta. — Tá tudo bem lá? — perguntou baixinho. — Tá. — Ele te trata bem? — Ele mal fala comigo, Beto. Não tem o que tratar. Ele assentiu. — Toma cuidado. — Sempre. — Voltei para a mansão no fim da tarde. A casa estava silenciosa. Subi para o quarto e fiquei um tempo na janela, olhando o jardim. Bateram na porta. — Entre. Era Alessandro. — Rossetti disse que você passou o dia no hospital. — Passei. — Os meninos estão bem? — Melhorando. O tratamento novo vai ajudar o fígado deles. Ele me olhou por um momento. — Preciso que você jante comigo hoje. Em casa mesmo. Temos que conversar sobre a audiência. — Que horas? — Oito. — Estarei lá. Ele saiu sem dizer mais nada. — Oito horas em ponto, desci para a sala de jantar. A mesa estava posta para dois. Alessandro já estava lá, de terno, bebendo algo. — Pontual — disse. — Detesto atraso. Ele quase sorriu. Quase. Sentei. Rossetti serviu o jantar em silêncio e saiu. — A audiência é depois de amanhã — ele começou. — O advogado acha que temos boas chances. — E você? — Acho que nunca se sabe com juiz. Cortei a carne. — O que precisa de mim? — Testemunhar, se necessário. Falar bem de mim. Dizer que somos uma família. Olhei para ele. — Mentir. — Representar. — Mesma coisa. Ele largou o garfo. — Você quer que eu seja sincero? Não estou pedindo para se apaixonar por mim. Só para agir como se fôssemos um casal normal na frente do juiz. Isso é muito difícil? Sustentei o olhar dele. — Não. Não é difícil. — Então por que o tom? — Porque eu não gosto de fingir. Mas vou fazer. Pelos meus irmãos. Pelo contrato. Ele me estudou por um longo momento. — Justo. — Terminamos o jantar em silêncio. Quando me levantei para subir, ele falou: — Sofia perguntou por você hoje. Parei. — Perguntou? — A babá disse que ela quis saber onde você estava. Olhei para ele. — E o que disse? — Que você estava no hospital. Ela não comentou mais nada. Fiquei sem resposta. — Boa noite — falei. — Boa noite. — No dia seguinte, acordei cedo e fui para o hospital de novo. Rafa já estava de pé, andando devagar pelo quarto com ajuda de um andador. — Olha, Ari! — ele gritou, radiante. — Tô andando! Sorri. — Tô vendo! Ele deu mais alguns passos e sentou, cansado. — Dói um pouco — admitiu. — Mas a mulher disse que é normal. Beto estava no canto, lendo, mas eu via que ele observava o irmão com atenção. Fiquei com eles até o fim da tarde. Quando voltei para a mansão, Sofia estava na sala, desenhando sozinha. A babá não estava por perto. — Oi — falei, sentando no tapete perto dela. Ela me olhou de lado. — Tava no hospital? — Tava. — Seus irmãos estão melhor? — Estão. O Rafa está andando de novo. Ela pensou. — Que bom. Ficamos em silêncio. Ela continuou desenhando. Depois de um tempo, empurrou o papel na minha direção. Era um desenho. Duas pessoas: uma grande, uma pequena. De mãos dadas. — Quem são? Ela apontou. — Eu e Lina. — E eu? Ela pensou. — Não sei desenhar você ainda. Quase ri. — Tudo bem. Quando aprender, me coloca. Ela assentiu. — Naquela noite, não consegui dormir. Desci para pegar água e encontrei a luz do escritório acesa. Alessandro estava lá, com papéis espalhados pela mesa. Bati na porta entreaberta. — Ainda acordado? Ele levantou os olhos. Parecia cansado. — Amanhã é a audiência. Entrei. — Nervoso? — Preocupado. Sentei na cadeira na frente da mesa. — O que pode dar errado? Ele soltou um longo suspiro. — Os avós dela têm bons advogados, dinheiro e seis anos de convivência. — Mas você é o pai. — Isso não significa nada para a justiça. Eles podem argumentar que Sofia tem vínculo com os avós. Que arrancá-la de lá seria cruel. Fiquei em silêncio. — E você acha isso? — perguntei Ele me olhou. — Acho que ela merece saber a verdade. Merece saber que eu não a abandonei. Que fui enganado. — E o que ela quer? Ele franziu a testa. — Como assim? — O que a Sofia quer? Perguntaram pra ela? Ele ficou em silêncio. — Não — admitiu. — Ela é muito pequena. O juiz decide. — Mesmo assim. Já pensou em perguntar? Ele me olhou por um longo momento. — Amanhã, depois da audiência, vou perguntar. Levantei. — Boa sorte amanhã. — Obrigado. Na porta, me virei. — Alessandro? — Sim? — Ela gosta de você. Não sabe ainda, mas gosta. Só precisa de tempo. Ele não respondeu. Subi para o quarto, deitei na cama e fechei os olhos. — No dia seguinte, fiquei em casa com Sofia enquanto Alessandro foi para o tribunal. A menina desenhava na mesa da cozinha. Eu lia um livro, mas não conseguia me concentrar. — Seu pai vai voltar logo — falei. Ela me olhou. — E aí? — Aí vamos saber se você vai morar com ele pra sempre. Ela pensou. — E você? — Eu também. — Pra sempre? — Por um tempo. Ela processou a informação. — Tá bom. — Quando Alessandro voltou, vi pelo rosto que tinha dado certo. Ele entrou na cozinha, olhou para Sofia e, sem dizer nada, ajoelhou na frente dela e a abraçou. Sofia ficou rígida por um segundo. Depois, devagar, envolveu os braços em volta do pescoço dele. Fiquei ali, parada. — Deu certo? — perguntei baixinho. Ele levantou os olhos para mim. — Deu. Sofia se afastou um pouco. — Vou morar aqui? — Vai — ele respondeu. — Comigo. Com a Ariella. Ela olhou para mim. — Com você também? — Também. Ela quase sorriu. Naquela noite, jantamos os três juntos. Pela primeira vez, Sofia comeu sem precisar ser lembrada. Depois do jantar, quando subia para o quarto, Alessandro me chamou. — Ariella. Me virei. — Obrigado. — Pelo quê? — Por ontem. Por perguntar sobre ela. Por... tudo. Olhei para ele. — Não precisa agradecer. Ela merece. Subi as escadas sentindo o peso daquele olhar nas costas. No quarto, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Meus irmãos estavam melhorando. Sofia estava mais calma. O contrato estava sendo cumprido. Então por que meu coração parecia tão apertado?Capítulo 37 Narrado por Ariella O dia passou tranquilo demais até a mensagem dele... Não foi uma manhã diferente. Acordei sem pressa, tomei banho, escolhi uma roupa confortável. Desci já perto do meio-dia. Os meninos estavam no jardim com Sofia. Rafa corria atrás de uma bola, Sofia gritava alguma regra inventada, e Beto lia como sempre, mas atento ao redor. Rossetti organizava a cozinha. A casa tinha aquele silêncio vivo que eu já reconhecia. Não era vazio. Era rotina. Ele não estava. Tinha saído cedo, disseram. Eu não perguntei para onde. Não era novidade. --- O almoço foi servido pouco depois. A mesa estava posta como sempre — pratos quentes, frutas já cortadas, sucos naturais, tudo organizado com cuidado por Rossetti. Nada excessivo, mas longe de ser simples. As crianças comeram rápido e voltaram para o jardim. Eu fiquei um pouco mais à mesa, sem pressa, mexendo no prato mais do que comendo. Depois, subi. Troquei de roupa por algo ainda mais confortável e deitei por al
Capítulo 36Narrado por Ariella O dia começou sem pressa. Acordei com o sol entrando pelas frestas da cortina, mas não levantei imediatamente. Fiquei ali, sentindo o tecido da camisola de cetim contra a pele, os cachos ainda protegidos pela touca. A Rossetti tinha razão sobre o cetim. Antes, eu acordava com um ninho na cabeça. Agora, os fios continuavam definidos, quase como na noite anterior. Peguei o celular na mesa de cabeceira. Nove e meia. Nenhuma mensagem de urgência. Bom. Levantei, fui até o banheiro e só então tirei a touca. Os cachos caíram soltos, ainda alinhados. Passei os dedos para separar algumas mechas e gostei do que vi. O banho, dessa vez, foi demorado. Abri o chuveiro e deixei a água esquentar enquanto escolhia os produtos. A bancada de mármore estava cheia — frascos de vidro fosco, rótulos em italiano, cheiros que eu ainda não sabia nomear. Entrei no box. A água quente caiu nas costas. Massageei o shampoo no couro cabeludo com calma, sentindo a espuma se for
Capítulo 35Narrado por Alessandro Passaram-se algumas semanas. O tratamento experimental dos meninos tinha sido um sucesso. Os exames mostraram o que o médico chamou de "remissão dos sintomas agudos" — a proteína defeituosa estava controlada, os níveis estáveis, os órgãos sem sinais de progressão da doença. Eles voltaram para casa no início do mês, e a mansão, que antes parecia um museu silencioso, agora vivia cheia de barulho. Rafa corria pelos corredores como se estivesse compensando o tempo perdido no hospital. Beto continuava lendo no jardim, mas agora levantava os olhos de vez em quando para ver o irmão correndo atrás de Sofia. Ela não desgrudava dos dois. Era "Rafa" pra lá, "Beto" pra cá, e a Lina sempre no colo, como se fizesse parte do trio. Ariella se dividia entre os três com uma naturalidade que eu não sabia que existia. Ela resolvia as brigas, ajudava com o dever, cortava fruta no meio da tarde, e ainda encontrava tempo para me olhar de um jeito que me desarmava. Eu
Capítulo 34 Narrado por Alessandro O escritório estava silencioso quando entrei. O sol já tinha clareado o suficiente para entrar pelas janelas do fundo, mas ainda era cedo. Antes das oito. O motorista tinha me deixado ali, eu tinha dispensado o café que a recepcionista ofereceu, e agora estava sozinho com os números na tela. A reunião com os representantes da filial de Dubai tinha sido remarcada três vezes na última semana. Dessa vez, não podia adiar. O contrato com os fornecedores dos Emirados estava emperrado havia dois meses, e o intermediário, um libanês com escritório em Londres, já tinha avisado que se não fechássemos até o fim do mês, o negócio esfriava. Eu não podia perder aquela oportunidade. A expansão para o mercado do Golfo era o próximo passo lógico. As filiais na Europa já estavam consolidadas. Cingapura operava com margem confortável. O Oriente Médio era a peça que faltava para fechar o circuito. Olhei para o relógio. 8h47. A ligação estava marcada para as 9h.
Capítulo 33Narrado por AriellaAcordei antes do despertador.Não foi um despertar brusco, nem leve. Só… inevitável. Como se o corpo já soubesse que não adiantava continuar ali.Fiquei deitada por alguns segundos, olhando para o teto ainda escuro. O silêncio do quarto era confortável, mas não o suficiente para me fazer ficar.Respirei fundo e me levantei.---O banho demorou mais do que o normal.A água quente caía constante enquanto eu apoiava a mão na parede, deixando o vapor tomar o espaço. Não estava pensando em nada específico, mas também não estava vazia.Era um meio termo estranho.Lavei o cabelo com calma, massageando mais devagar do que o habitual. Passei condicionador, deixei agir e fechei os olhos por alguns segundos.Quando saí, o ar frio do quarto bateu de leve na pele.Sequei o cabelo parcialmente usando o difusor por alguns minutos, só o suficiente para tirar o excesso de umidade e dar forma.---No closet, demorei mais do que o necessário.Passei os dedos por algumas p
Capítulo 32Narrado por AriellaO carro entrou no portão da mansão quando já estava completamente escuro.Alessandro estacionou e desligou o motor, mas não saiu na hora. Ficou ali alguns segundos, as mãos ainda no volante.Eu também não me mexi.A cabeça não desligava. Era como se tudo do dia ainda estivesse acontecendo ao mesmo tempo. A médica falando, o shopping, ele… as coisas que ele disse.Aquilo ficava voltando, sem parar.A porta do lado dele abriu primeiro.Ele deu a volta no carro e abriu para mim. Esperei um segundo antes de descer.— Vai querer comer? — Alessandro perguntou, encostado na porta.— Não — respondi, passando por ele.Ele fechou a porta atrás de mim.— Você não comeu o dia inteiro — disse ele, vindo logo atrás.Parei no meio do caminho e olhei.— Eu sei exatamente o que eu fiz hoje — falei, firme.Ele me observou por um segundo, como se fosse insistir.Mas não insistiu.---Entramos.O hall estava silencioso demais. Tudo no lugar. Nada fora do normal.Menos eu.







