Se connecterMilena O riso diabólico de Pedro Henrique ecoava pelas paredes aveludadas do closet, fazendo o meu estômago revirar de puro enjoo. A mala preta recheada com todas as joias de ouro, os diamantes e os relógios importados do Ulisses estava jogada no chão, bem ao lado dos meus pés, mas aquele monstro nem se dava ao trabalho de olhar para a fortuna que já tinha conquistado. O olhar dele estava cravado no meu rosto de um jeito faminto, cheio de uma ganância doentia e sem limites.Ele deu mais um passo lento na minha direção, me encurralando contra a prateleira de sapatos, e me encarou com os olhos brilhando em chamas.— Você achou mesmo que eu ia me contentar com um punhado joias de ouro, Milena?! Eu valho muito mais que isso! — ele debochou, aproximando a cara imunda da minha a ponto de eu sentir o hálito quente e nojento dele. — Você tá me achando com cara de ladrãozinho de galinha, por acaso?! Eu quero o prêmio grande, garota! Eu quero a bolada de verdade!Eu deveria limpar toda essa cas
MilenaO portão de ferro da mansão se abriu devagarzinho com o controle remoto universal que o Pedro Henrique tinha roubado da minha bolsa. O barulho do motor do carro ecoou pelo jardim escuro, e o meu coração parecia que ia explodir dentro do meu peito de tanto pavor. Olhei pelas janelas do veículo e vi a fachada gigante da casa totalmente apagada. Não tinha um único segurança na guarita, não tinha o Seu Antônio na porta de entrada e nem um único funcionário caminhando pelos corredores. A casa parecia um túmulo gigante, assustador e silencioso no meio da madrugada.Pedro Henrique estacionou o carro de qualquer jeito bem na entrada principal, desligou o motor com um tranco e puxou o meu braço com violência antes que eu pudesse tentar qualquer movimento.— Sai do carro agora, sua cadela! — ele esbravejou no meu ouvido, cravando os dedos no meu pulso e me empurrando para fora da cabine.Eu tropecei no piso de pedra do jardim, quase caindo de joelhos no chão molhado de orvalho. Olhei par
UlissesA luz branca e fria do quarto de hospital queimava as minhas pálpebras antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos por completo. A minha cabeça parecia que ia rachar ao meio a qualquer segundo, dividida por uma dor latejante, profunda e insuportável que vinha lá do fundo do meu cérebro, exatamente no lugar onde eu tinha levado aquela pancada violenta no acidente de carro. Os aparelhos da UTI apitavam num ritmo chato e constante do meu lado — bip... bip... bip... — e aquele som irritante martelava direto nos meus ouvidos como se fossem marteladas de ferro. Eu me sentia completamente impotente, sem força nenhuma nos braços, preso àquela cama fria com tubos plásticos de soro e agulhas espetadas na minha pele.Mas, no meio daquela névoa pesada de remédios fortes e dor insuportável, um clarão violento e brilhante atravessou a minha mente de repente.Foi como se uma represa de memórias trancadas a sete chaves tivesse se rompido dentro da minha cabeça de uma vez só! As imagens do pas
Milena O metal gelado e pesado do revólver continuava cravado com violência nas minhas costelas. Cada passo que eu dava pela garagem escura do subsolo do hospital parecia um caminho direto para a minha própria morte. Pedro Henrique me arrastava pela jaqueta com um aperto tão forte no meu braço que os meus ossos estalavam de dor. Eu mal conseguia respirar. O ar frio daquele estacionamento fedendo a óleo e pneu queimado me dava uma ânsia de estômago terrível.Ele me empurrou brutalmente contra a lateral de um carro preto com as janelas cobertas com um forro escuro, estacionado bem no canto mais isolado da garagem, longe de qualquer câmera de segurança.— Entra logo nessa porcaria de carro, Milena! — ele esbravejou num sussurro raivoso e ríspido, abrindo a porta do passageiro e me jogando para dentro sem nenhum pingo de cuidado.Bati a cabeça na coluna do veículo e soltei um gemido de dor, caindo de mau jeito no estofado rasgado. Antes que eu pudesse tentar me mexer ou abrir a porta do
Milena O relógio digital pendurado na parede da sala de espera do hospital marcava quase três horas da manhã. Aqueles números vermelhos piscando no escuro pareciam debochar da minha desgraça. Duas horas. Fazia exatamente duas horas infinitas e dolorosas que o Ulisses tinha sido empurrado para dentro daquela porta dupla de vidro da UTI, e ninguém vinha me dar uma única notícia. Nenhum médico, nenhuma enfermeira, absolutamente ninguém apareceu para dizer se o homem da minha vida ainda estava respirando.Eu continuava ali, encolhida naquela cadeira de plástico duro, segurando a minha própria cabeça entre as mãos. A minha blusa de botão, vestida às pressas no escuro do quarto, estava amassada e úmida do meu choro compulsivo.A culpa devorava o meu peito por dentro como se fosse um veneno ácido e mortal.— Meu Deus do Céu... a culpa é toda minha! — murmurei baixinho para o silêncio do corredor, sentindo uma lágrima quente e amarga escorrer pelo meu rosto. — Eu fui uma egoísta, uma louca,
Milena O corpo mole do Ulisses pesava contra o meu peito como uma rocha sem vida. Eu o apertava nos meus braços, chacoalhando os ombros dele com o rosto lavado de lágrimas, mas os olhos azuis dele permaneciam fechados, sem piscar, sem dar nenhum sinal de resposta. O coração dele batia num ritmo fraco, desordenado, que fazia a minha própria vida escorrer entre os meus dedos de puro pavor.— Ulisses! Responde para mim, meu amor, pelo amor de Deus! — eu gritava com a voz rouca, sem forças, colando a minha boca na testa dele que escorria um suor gelado. — Não faz isso comigo... Você não pode me deixar agora que a gente estava se reencontrando!Nesse exato momento de desespero cego, o barulho forte de passos apressados ecoou pelo corredor do segundo andar. A porta do quarto foi empurrada com violência contra a parede.Seu Antônio apareceu no limiar da porta, esfarrapado, com o pijama amarrotado e a cara pálida de puro terror. Logo atrás dele vinha um dos seguranças da mansão, um homem alt







