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Desculpa esfarrapada

Author: Nora Heart
last update publish date: 2026-07-23 00:02:36

Milena

A minha respiração estava descontrolada dentro do carro parado no acostamento da avenida. O meu peito subia e descia rápido, os meus olhos cravados no rosto do Ulisses, esperando uma resposta que fizesse algum sentido, uma explicação real para aquele beijo que tinha virado a minha cabeça do avesso o dia inteiro.

Ulisses soltou um suspiro pesado, descansando as duas mãos no topo do volante. Ele não me encarou de imediato. Olhou para o trânsito da cidade lá fora por alguns segundos eterno
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    Milena Eu acordei em lugar branco, a luz era tão forte que mal conseguia manter os olhos abertos. A sensação de sufocamento e de calor insuportável do incêndio tinha passado. Um cheiro suave de álcool inundou minhas narinas. Senti o meu corpo pesado, como se cada osso estivesse colado no colchão, mas a dor no peito já não era aquela facada ardente de antes.Tentei piscar as pálpebras, lutando contra a claridade e o cansaço extremo que pesava nos meus olhos, até que consegui abrir os olhos de vez.Era um quarto privativo do Hospital. Não havia fumaça, não havia chamas, eu estava segura de novo. A calmaria daquele ambiente parecia até um sonho impossível depois de tudo o que eu tinha enfrentado naquela noite de terror.Senti um calor aconchegante e firme envolvendo a minha mão direita. Virei a cabeça devagar no travesseiro para o lado e o meu coração deu um salto gigantesco de pura emoção.Ulisses estava sentado numa poltrona estofada bem do lado da minha cama, segurando a minha mão co

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    Milena Aos poucos, a escuridão pesada que me sufocava começou a se desfazer numa luz vermelha e azul que piscava sem parar contra as minhas pálpebras fechadas. Senti o meu peito doer a cada tentativa de puxar o ar, como se os meus pulmões estivessem cheios de cacos de vidro e poeira quente. A minha cabeça latejava num ritmo alucinante, e o meu corpo inteiro parecia ter levado uma surra daquelas bem dolorosas.Abri os olhos devagarzinho, piscando contra o clarão das luzes de emergência.A primeira coisa que vi não foi o teto em chamas da sala, nem o chão de mármore coberto de sangue. Eu estava deitada numa maca dura e fria, bem na calçada do jardim da frente da mansão. O ar frio da madrugada batia na minha pele, mas a minha boca e o meu nariz estavam cobertos por uma máscara de oxigênio de plástico transparente que chiava sem parar, mandando um ar fresco e limpo direto para a minha garganta arranhada.Ao meu redor, o cenário era de pura guerra e caos absoluto.Tinha viaturas da políci

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    Milena O ferro frio e pesado da ponta do revólver afundava na pele da minha testa, queimando mais do que o próprio calor das chamas que devoravam a sala da mansão. O olhar do Pedro Henrique era o olhar de um demônio sem alma, pronto para apertar aquele gatilho e estourar a minha cabeça sem o menor pingo de remorso no peito. Fechei os meus olhos com toda a força do mundo, sentido as lágrimas quentes lavarem a minha cara imunda de fuligem. Eu estava pronta para dar o meu último suspiro nesta terra, pronta para aceitar o meu fim triste e doloroso.Mas, de repente, antes que o dedo tonto daquele psicopata pudesse pressionar o gatilho até o fim, um som estridente, alto e abençoado cortou o ar do jardim do lado de fora.UUUU-AAAA-UUUU-AAAA!Era o som agudo e distante de dezenas de sirenes de viaturas da polícia cortando a noite e se aproximando da mansão numa velocidade absurda! O barulho dos pneus cantando no asfalto da rua ressoou tão forte que fez as janelas em chamas tremerem por intei

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    Milena A fumaça preta já cobria o teto da sala, descendo em nuvens pesadas que faziam o meu peito queimar como se eu estivesse engolindo brasas acesas. A dor nos meus pulsos era insuportável. Esfreguei as cordas de nylon com toda a força do meu desespero contra a quina afiada do banco de madeira. Sentia a madeira cortar a minha pele, o sangue quente escorria pelos meus dedos, mas eu não parei por um único segundo. Era a minha vida ou a morte naquele inferno!Com um estalo seco, a corda finalmente cedeu e arrebentou!— Consegui!... Meu Deus, eu consegui! — murmurei num sopro rouco e sem forças, limpando a fuligem dos meus olhos com as mãos sangrando.Não perdi nem um segundo. Me arrastei de barriga no chão de mármore quente, esticando o meu braço com todas as forças até que os meus dedos tocaram a tela fria do meu celular, que continuava jogado perto do sofazão em chamas. Puxei o aparelho para junto do meu peito com o coração disparado no peito.A minha primeira reação foi abrir a tel

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