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A Proposta

Author: Ícaro wolf
last update publish date: 2026-03-17 02:13:23

Verônica não dormiu naquela noite.

Ela tentou. De verdade.

Deitou na cama, apagou as luzes, fechou os olhos… mas a mente não parava. Era como se cada pensamento puxasse outro, e outro, e outro.

Quando percebeu, já estava sentada novamente na beirada da cama olhando para o celular.

A manchete ainda estava lá.

“Empresa Verdan é investigada por fraude milionária.”

Ela bloqueou a tela com irritação.

Aquilo parecia um pesadelo que simplesmente se recusava a terminar.

Seu pai continuava no hospital.

A empresa estava praticamente congelada.

E agora… aquela proposta absurda.

Casamento.

Ela soltou um suspiro longo.

— Isso não faz o menor sentido…

Mas quanto mais pensava, mais percebia uma coisa: Leon Alighieri não era o tipo de homem que fazia propostas sem motivo.

Alguma coisa havia por trás disso.

Alguma coisa que ela ainda não entendia.

Na manhã seguinte, o carro parou diante de um prédio enorme de vidro no centro financeiro da cidade.

O nome Alighieri Corporation estava gravado em letras metálicas na entrada.

Verônica desceu do carro sentindo um peso estranho no peito.

Ela não sabia exatamente o que estava esperando encontrar ali.

Talvez um empresário arrogante.

Talvez um manipulador frio.

Talvez alguém que estivesse apenas tentando tirar vantagem da situação da sua família.

De qualquer forma, ela não tinha intenção de facilitar as coisas.

A recepcionista a conduziu até um elevador privado.

— O senhor Alighieri está esperando.

Claro que estava.

O elevador subiu em silêncio.

Décimo andar.

Vigésimo.

Trigésimo.

Cada número que aparecia no painel parecia aumentar um pouco mais a tensão dentro dela.

Quando as portas se abriram, um corredor longo apareceu à frente.

No final dele havia apenas uma porta.

Grande.

Escura.

Verônica caminhou até lá.

Por um momento ela pensou em tudo que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas.

Se alguém tivesse contado aquela história dois dias atrás, ela teria rido.

Agora era sua vida.

Ela bateu.

— Entre.

A voz que veio de dentro era calma.

Grave.

Ela abriu a porta.

O escritório era enorme, mas simples.

Nada exagerado.

Grandes janelas mostravam a cidade inteira lá embaixo.

Perto da janela, um homem estava de pé.

Ele se virou quando ela entrou.

Leon Alighieri.

Ele era mais jovem do que ela imaginava.

Talvez pouco mais de trinta anos.

Alto.

Postura tranquila.

Mas o que realmente chamava atenção eram os olhos.

Escuros.

Observadores.

Como se estivessem sempre analisando tudo ao redor.

— Senhorita Verdan — disse ele.

Não foi exatamente um cumprimento caloroso.

Mas também não foi rude.

Verônica cruzou os braços.

— Então é você.

Leon arqueou levemente a sobrancelha.

— Esperava outra pessoa?

— Não.

Ela caminhou alguns passos pelo escritório.

— Só não imaginei que alguém faria uma proposta dessas com tanta naturalidade.

Ele indicou a cadeira diante da mesa.

— Quer sentar?

— Prefiro ficar em pé.

Leon não insistiu.

Ele apenas observou ela por alguns segundos.

— Imagino que tenha perguntas.

— Muitas.

— Pode perguntar.

Verônica não perdeu tempo.

— Por que eu?

A pergunta ficou no ar.

Leon parecia esperar por ela.

Ele caminhou lentamente até a mesa.

— Porque sua família precisa de ajuda.

— E você é um filantropo agora?

Ele quase sorriu.

Quase.

— Não exatamente.

— Então vamos pular essa parte — disse ela. — O que você realmente quer?

Leon apoiou as mãos na mesa.

— Um acordo.

— Um casamento não é um acordo.

— Na maioria das vezes… é exatamente isso.

Verônica soltou um pequeno riso sem humor.

— Você fala disso como se fosse um contrato de negócios.

— Porque, neste caso, é.

Ele pegou um documento sobre a mesa.

Empurrou na direção dela.

— Leia.

Ela olhou para o papel.

Contrato de casamento.

Era surreal.

Cláusulas.

Condições.

Tempo mínimo.

Confidencialidade.

— Dois anos? — perguntou ela.

— É o suficiente.

— Suficiente para quê?

Leon respondeu sem pressa.

— Para resolver algumas coisas.

Ela levantou o olhar.

— Que tipo de coisas?

Ele não respondeu imediatamente.

— Assuntos de negócios.

— Isso está começando a parecer uma péssima ideia.

— Talvez seja.

O silêncio entre os dois ficou estranho.

Mas não desconfortável.

Mais como se ambos estivessem tentando entender o outro.

Verônica fechou o documento.

— Você quer se casar comigo.

— Sim.

— Em troca você salva minha família.

— Sim.

Ela inclinou a cabeça.

— E você espera que eu acredite que isso é apenas um acordo?

Leon respondeu calmamente:

— Você não precisa acreditar.

— Só precisa decidir.

Por alguns segundos ninguém falou nada.

Verônica pensou no hospital.

No rosto cansado da mãe.

Na empresa que estava afundando.

Ela odiava a ideia daquele casamento.

Mas odiava ainda mais a ideia de ver sua família perder tudo.

— Posso fazer uma pergunta? — disse ela.

— Claro.

— Você tem algo a ver com o que aconteceu com minha família?

Leon a encarou diretamente.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela tentou ler a expressão dele.

Mas Leon era difícil de decifrar.

— Então por que ajudar?

Ele demorou um pouco antes de responder.

— Porque às vezes… certas coisas precisam ser corrigidas.

Aquilo não esclareceu muita coisa.

Mas também não pareceu uma mentira.

Verônica suspirou.

— Você sabe que isso é loucura, certo?

— Sim.

— E mesmo assim quer fazer isso.

— Quero.

Ela ficou olhando para ele.

Tentando entender aquele homem.

Tentando entender aquele acordo.

No fim das contas, tudo se resumia a uma escolha impossível.

Salvar sua família.

Ou manter sua liberdade.

Ela pegou a caneta que estava sobre a mesa.

Girou entre os dedos.

— Se eu aceitar… não espere que isso seja um casamento de verdade.

Leon respondeu imediatamente.

— Não espero.

Ela respirou fundo.

— Então acho que temos um acordo.

Mas naquele mesmo momento…

Em outro lugar da cidade…

Daniel Armand estava parado diante da televisão.

A notícia aparecia no rodapé da tela.

“Fontes indicam que a empresa Alighieri pode assumir as dívidas da família Verdan.”

O copo de vidro na mão dele quebrou.

Os estilhaços caíram no chão.

Ele mal percebeu.

Seus olhos estavam fixos na tela.

— Não…

Ele pegou o celular.

Discou um número.

— Descubra o que está acontecendo entre a família Verdan e os Alighieri.

A pessoa do outro lado falou algo.

Daniel respondeu em voz baixa:

— Porque se Leon Alighieri estiver tentando tirar Verônica de mim…

A mão dele apertou o telefone com força.

— Isso vai ser um erro que ele vai se arrepender.

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