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Capítulo 8 – Condições de Guerra

ผู้เขียน: Rosana Lyra
last update วันที่เผยแพร่: 2026-06-09 00:11:06

Liel

Eu sempre soube que, um dia, o meu passado desconhecido cobraria um preço. Só não imaginei que a fatura viria em forma de vestido branco e aliança no dedo do homem que eu menos suporto neste mundo.

Estou no escritório do Don, em pé diante da mesa que já viu mais decisões de vida ou morte do que qualquer tribunal. Ele está sentado, caneta na mão, papéis espalhados. Entre eles, o esboço do que, em breve, será o meu contrato de casamento.

Meu contrato. Não a minha escolha.

— Eu vou me casar com o Vinnie — digo, repetindo em voz alta algo que ainda soa absurdo até para mim. — Mas eu tenho condições. E quero todas elas colocadas no contrato.

Os olhos do Don Marcus sobem até os meus. Ele não parece surpreso. Na verdade, ele tem o olhar de quem já esperava que eu viesse armada de cláusulas e exigências.

— Estou ouvindo, princesinha — ele diz, apoiando a caneta no papel, atento.

Respiro fundo.

— Primeira condição, eu não vou ter nenhum tipo de intimidade com o seu filho — falo, clara. — Não vou dividir a mesma cama, não vou dividir o mesmo travesseiro, não vou dividir o meu corpo com ele. Este é um casamento por contrato. Vai ser tratado como tal.

A frase sai fria, limpa, objetiva. Eu a repeti mentalmente tantas vezes que as palavras já estavam afiadas.

— Liel… — ele começa, com um tom de aviso.

— Eu não estou pedindo muito — corto. — O senhor quer que eu case com um homem que eu odeio, que eu limpe a imagem dele, que eu o transforme em Don, que eu rasgue meu futuro para remendar o dele. Tudo bem. Eu aceito. Mas meu corpo continua sendo meu. Minha cama, também.

Por um instante, o Don parece mais velho. Ele se recosta na cadeira, pensa, mede, calcula. Eu sei que, por trás dos olhos cansados, ele está pesando muito mais do que as minhas palavras. Ele está pesando tradições, códigos, a forma como o submundo enxerga o que é certo e o que é fraqueza.

— Você sabe que a máfia tem regras rígidas — ele diz, enfim. — Valorizamos a família, o casamento. Dois pilares. Sem eles, as alianças desmoronam. Você sabe disso tão bem quanto eu.

— Eu sei — respondo. — É justamente por isso que quero as condições claras. Se eu tiver que fingir, eu finjo. Mas eu quero saber, desde agora, até onde a encenação vai.

Ele passa a mão pelo queixo, pensativo.

— Você não precisa ter intimidade com o Vinnie se não quiser — diz, por fim. — Não vou amarrar você à cama do meu filho. Não é isso que eu quero de você.

Um alívio mínimo toca a borda da minha consciência, mas eu não deixo que cresça.

— Porém… — ele continua, e eu sabia que haveria um porém — você precisa dormir no mesmo quarto que ele.

Meu corpo inteiro rejeita a ideia no mesmo segundo.

— No mesmo… quarto? — repito, devagar, como se não tivesse entendido.

— No mesmo quarto — o Don confirma. — Eles podem gostar de fofoca, podem especular sobre tudo, mas ninguém no submundo aceita um casamento em que marido e mulher não dividem, pelo menos, o mesmo espaço. Se descobrirem que esse casamento não é real, pode trazer complicações sérias para a família Azzaro. Vai parecer fraqueza. Vai parecer mentira. E mentira, nesse meio, é um convite para o ataque.

Eu fecho os olhos por um segundo, lutando contra a imagem mental de dividir qualquer coisa com o Vinnie além de um campo de batalha.

— Então eu durmo no mesmo quarto — respondo, abrindo os olhos. — Mas as regras vão estar claras. Um sofá, uma poltrona, o chão… eu dou um jeito. O que importa é que ele entenda que, se ousar me tocar sem a minha permissão, eu quebro o braço dele. Ou algo mais.

Um sorriso rápido escapa pelo canto dos lábios do Don.

— Pode deixar que eu mesmo vou deixar isso bem claro para ele — diz. — E, se ainda assim ele insistir, você tem minha permissão para derrubar o meu filho quantas vezes forem necessárias.

— Não precisava nem dizer — respondo, seca.

Ele volta a olhar para os papéis.

— Todas as suas condições serão incluídas no contrato — garante. — Divisão de bens, prazo, sua liberdade após a minha morte, confiança total na sua palavra como conselheira. E as regras de convivência com o Vinnie, na medida do possível. Mas o quarto é inegociável.

Eu concordo. É isso. Esse é o preço.

— Muito bem — digo, ajeitando a postura. — Então coloque lá também que se ele desrespeitar qualquer cláusula do acordo, eu tenho o direito de exigir a rescisão. E vou exigir.

— Feito — ele responde.

O assunto está encerrado. Pelo menos no papel. Dois dias se arrastam como se o relógio tivesse sido sabotado.

Durante esses dois dias, Vinnie permanece no hospital, entre remédios, soro, enfermeiras que provavelmente suspiram quando saem do quarto achando que ninguém percebe. Eu não vou vê-lo. Não ainda. Não estou pronta para encarar aquele corpo imenso preso por fios.

Na manhã do segundo dia, recebo uma mensagem curta do meu padrinho:

— “Ele despertou.”

Quando me encontra o Don me conta de novo, pessoalmente, com um brilho visível de alívio. Ele poderia ter jogado a decisão do casamento na cara do filho ali mesmo, em meio aos lençóis brancos e ao cheiro de álcool hospitalar. Mas não faz isso. Marcus Azzaro não transforma assuntos de família em espetáculo de hospital.

— Vai me dar sermão aqui, sem esperar eu me recuperar? — Vinnie pergunta, com a voz denunciando o esforço pra falar.

— Em casa — ele diz. — Essas coisas se resolvem em casa.

Concordo com um aceno. Oito dias depois, Vinnie está de volta à mansão. Não totalmente recuperado, mas teimoso o bastante para pedir alta antes do tempo ideal. Ele nunca soube aceitar a própria fraqueza. Nem física, nem emocional.

Eu caminho ao lado do Don pelo corredor principal, o som dos nossos passos ecoando pelo mármore. Sei exatamente para onde estamos indo. Sei o que será dito. Sei a parte que me cabe nesse teatro grotesco.

Eu só não estou preparada para a sensação que sobe pelo meu estômago quando a porta do quarto dele se aproxima.

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