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CAPÍTULO 14 — O APARTAMENTO SIMPLES

last update publish date: 2026-10-12 20:00:19

— Enquanto eu vivia essa fase de observação silenciosa e ligeiramente ansiosa — continuei, retomando o ritmo depois daquela pausa mais introspectiva —, minha irmã começou a fazer algo que, olhando para trás, foi um dos primeiros sinais visíveis de que aquilo tudo era sério: passou a frequentar uma Barcelona que ela mal conhecia.

— Como assim? Ela não morava lá? — perguntou o primo mais novo de

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  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 79 — A MESA DA COZINHA

    Vocês já sabem que tanto Anamaria quanto Juan Fran sofriam profundamente naquele período difícil, cada um a seu modo bem particular — ela trancada no próprio quarto, carregando um segredo que não podia dividir com ninguém; ele afundado em plantões intermináveis, tentando anestesiar uma dor cuja origem nem sequer suspeitava. Dois jovens apaixonados, separados por uma verdade que nenhum dos dois conhecia e da qual nenhum tinha culpa, sofrendo em paralelo sem que suas dores nunca se encontrassem. E foi justamente esse sofrimento do filho, cada vez mais visível, mais físico, mais impossível de ignorar, que finalmente empurrou Carmensita para o momento que vou contar agora.— Foi um sábado de manhã — comecei, com todos na sala com atenção redobrada, como se aquele movimento coletivo pudesse acelerar a própria narrativa. — Juan Fran tinha uma folga completa, a primeira em semanas, folga essa que o nosso médico supervisor obrigou ele a tirar depois de ver o estado dele. Carmensita aproveitou

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    — Gente, com licença um momento — falei, me levantando de repente, as pernas formigando de tanto tempo sentado no mesmo lugar sem me mover. — Preciso esticar as pernas e, com licença da plateia, usar o banheiro rapidinho. Minha bexiga não aguenta mais suspense do que vocês aguentam.Um coro de risadas cansadas, mas genuínas, tomou conta da sala.— Que horas são, afinal? — perguntou Núria, esfregando os olhos, olhando ao redor como se só naquele momento se desse conta de que a noite tinha avançado demais.Ramon consultou o relógio de pulso, e o rosto dele se transformou numa expressão de pura descrença.— Três e meia da madrugada! Gente, como isso é possível? Parece que a gente sentou aqui há uma hora, no máximo.— É o poder de uma boa história — comentou Amparo, se espreguiçando no sofá, um sorriso satisfeito no rosto apesar do cansaço evidente. — Perdi completamente a noção do tempo desde que o Miguel começou a contar sobre aquele jantar em Alella.Levantei-me, finalmente, sentindo c

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    — E foi aí que ela finalmente decidiu contar a verdade para o Juan Fran? — perguntou Lúcia, ansiosa, já se inclinando para frente no próprio assento.— Quase — respondi, sorrindo diante daquela ansiedade. — Ela decidiu que ia contar. Só ainda não tinha reunido coragem suficiente para cumprir a própria decisão, o que, convenhamos, é bem diferente. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas, como logo vamos ver ao longo desse capítulo.A certeza de Carmensita se consolidou de vez numa noite específica, algumas semanas depois daquela separação repentina, quando encontrou o filho desabado no sofá da sala, ainda de jaleco branco, tarde demais para ser considerado um horário razoável de chegar em casa, cedo demais para o próximo plantão exaustivo que já o esperava em poucas horas.— Filho, isso não pode continuar assim — disse ela, sentando-se ao lado dele, afastando com cuidado uma mecha de cabelo da testa suada. — Você vai adoecer de exaustão antes mesmo de completar a residênc

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    — E o Juan Fran cumpriu o que disse naquele bar, mesmo depois de tudo? — perguntou Marta, ainda impressionada com a revelação do capítulo anterior. — Aquilo de trabalhar até não sobrar espaço na cabeça para pensar em mais nada além do hospital?— Cumpriu à risca — respondi, com admiração e tristeza pela dedicação quase autodestrutiva do meu amigo. — Nas semanas seguintes àquele encontro no bar, Juan Fran praticamente se mudou para o hospital. Pegava plantões extras que ninguém mais queria, se voluntariava para cobrir colegas doentes, chegava a dormir na sala de descanso dos residentes em vez de voltar para a sua casa só para não ter tempo de pensar nos planos de uma vida ao lado de Anamaria. Emagreceu visivelmente naquelas semanas, as olheiras se tornando parte permanente do próprio rosto, mas nunca reduziu o ritmo, como se parar significasse dar espaço para os pensamentos que ele tanto tentava evitar.Encontrei-o algumas vezes naqueles corredores, sempre de passagem, sempre com press

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    — E o Danilo, ficou aliviado depois que a Anamaria terminou o namoro por conta própria? — perguntou Salvador, meio confuso, coçando o queixo. — Quer dizer, ele conseguiu o que queria no final das contas, não conseguiu?— Conseguiu, sim — respondi. — E, por um breve período, muito breve mesmo, ele realmente sentiu alívio. Um alívio genuíno, físico até, como se um peso enorme e antigo tivesse finalmente saído das costas dele, depois de meses inteiros carregando aquele fardo sozinho.Nos primeiros dias depois daquela conversa terrível no escritório, Danilo voltou a dormir melhor. Voltou a comer com apetite. Voltou, inclusive, a se envolver mais ativamente nos assuntos da vinícola, revisando contratos com o antigo entusiasmo, conversando com os funcionários sobre a próxima colheita como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Chegou até a assobiar, uma vez, enquanto caminhava entre as fileiras de videiras — um hábito antigo que tinha abandonado havia meses, e que minha mãe notou com

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    — Enquanto ela ia desconfiando pouco a pouco das atitudes do meu pai — falei, ajeitando-me no sofá —, ela também vivia, dia após dia, a angústia de ver Anamaria daquele jeito trancada. Porque, por mais que o mistério do meu pai fosse consumindo a casa aos poucos, era a dor da filha que mais rasgava o coração dela.Minha mãe tentou de tudo, absolutamente tudo. De tudo que uma mãe desesperada consegue imaginar quando vê a própria filha desmoronando sem entender o motivo real por trás daquilo.Começou preparando os pratos favoritos de Anamaria, aquela receita de torta de amêndoas que ela adorava quando criança, na esperança de que o cheiro subindo pela escada pudesse, de alguma forma, atrair a filha para fora do quarto. Chegou a preparar, também, uma sopa de legumes que Anamaria adorava desde pequena, sempre que estava gripada ou triste, como se a comida pudesse curar aquilo que nenhuma palavra parecia alcançar.— Deixava a bandeja do lado de fora da porta — minha mãe me contou, os olhos

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