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CAPÍTULO 3 — SACOLAS AO CHÃO

last update publish date: 2026-10-02 09:38:10

Foi numa tarde de sábado em Barcelona. Anamaria tinha saído de uma loja na Passeig de Gràcia carregando sacolas demais. Segundo ela, eram compras absolutamente necessárias. Segundo meu julgamento profissional como irmão, aproximadamente metade daquilo era completamente inútil. Ela caminhava olhando para baixo, provavelmente pensando em alguma combinação de roupa, sapato ou bolsa. Juan Fran vinha na direção contrária. Ele estava olhando o celular.

— Agora imaginem a cena — falei, gesticulando como se estivesse desenhando o cenário no ar. — Calçada larga, tarde de sol, gente andando para todo lado, aquele movimento típico do fim de tarde quando todo mundo está saindo do trabalho ou voltando de compras.

Minha irmã, decidida, cabeça baixa, provavelmente pensava em qual sapato combinava com o vestido que tinha acabado de comprar — porque, conhecendo-a, era justamente esse tipo de dilema existencial que ocupava sua mente em momentos assim. Juan Fran vinha na direção contrária, olhando o celular, talvez respondendo a alguma mensagem sobre o plantão do hospital, naquele passo apressado de quem está sempre um pouco atrasado para alguma obrigação séria. Pelo menos foi assim que os dois reconstruíram a cena para mim depois.

Bati as mãos uma na outra, um estalo seco que fez até Lúcia dar um pulinho na cadeira.

— Colisão. Sacolas no chão. Uma caixa de sapatos rolando pela calçada até parar debaixo de um carro estacionado, e um saquinho de alguma loja de cosméticos se abrindo no impacto, espalhando batons e potinhos por um raio de quase dois metros.

— Ah, não — riu Marta, cobrindo a boca.

— Ah, sim — confirmei, satisfeito com a reação. — E aqui, amigos, é onde a coisa fica engraçada. Porque, segundo a versão que ouvi da minha irmã — e ela jura de pés juntos que essa é a verdade, embora eu desconfie que tenha embelezado um pouco a narrativa a seu favor —, a primeira coisa que Juan Fran disse não foi um pedido de desculpas.

— Não? — perguntou Tomás, se inclinando mais.

— Não. Foi um “Você está bem?” — Foi uma pergunta simples. Educada. Sensata. Aparentemente, a pior escolha possível. Porque Anamaria respondeu:

— Eu estaria se você olhasse por onde anda.

Segundo Juan Fran, ele respirou fundo antes de responder.

— Você também estava distraída.

— Eu estava carregando sacolas.

— E eu estava olhando o celular.

— Exatamente.

— Então os dois estavam distraídos.

Minha irmã cruzou os braços.

— Não. Você estava distraído.

— E você estava certa, imagino.

—  Exatamente.

Ele ficou alguns segundos olhando para ela. Depois se abaixou para começar a recolher as coisas. Anamaria fez o mesmo. Os dois estenderam a mão para a mesma sacola. Pararam. Olharam um para o outro. E, segundo minha irmã, foi nesse momento que ela percebeu duas coisas. A primeira: ele deixou de ser um idiota distraído. A segunda: passou a ser um idiota distraído e muito bonito.

E deve ter sido precisamente nesse momento, abaixados os dois no chão, catando roupa e sapato espalhados pela calçada, alcançando ao mesmo tempo o mesmo batom rolado até a sarjeta, que a raiva foi, aos poucos, virando outra coisa inteiramente diferente.

— Aquela química clássica de comédia romântica — suspirou Marta, com as mãos entrelaçadas debaixo do queixo.

— Exatamente isso — confirmei. — E eu digo com toda propriedade de quem já viu o mesmo casal brigando de verdade, por besteiras domésticas: aquela implicância inicial nunca sumiu de vez. Só que, depois daquele dia, ela ganhou um verniz totalmente diferente. O que antes era irritação virou, muito rapidamente, um jeito de flertar disfarçado de discussão — coisa que os dois, até hoje, negam veementemente que seja verdade, mas que qualquer pessoa de fora enxerga a quilômetros de distância.

Javier, com um copo na mão e um sorriso torto no rosto, se inclinou com uma teoria precipitada na ponta da língua:

— Deixa eu adivinhar: ele pegou o número dela ali mesmo.

— Errado — respondi, sem nem hesitar, e a mesa toda caiu na risada ao ver a cara de Javier se desmanchando.

— Ah, qual é! — reclamou ele, batendo a mão na mesa, fingindo indignação.

— Juan Fran é orgulhoso demais para pedir número de garota que acabou de brigar com ele na rua — expliquei. — O que ele fez foi bem mais sutil, e bem mais parecido com o jeito reservado dele: convidou minha irmã para um café, como forma de "compensar o transtorno", segundo as palavras exatas dele. Formal, quase profissional demais, o tipo de convite que soa mais a desculpa protocolar do que a paquera de verdade — o que, aliás, é bem a cara dele, esconder qualquer interesse atrás de um gesto de pura educação.

— E ela aceitou? — perguntou Tomás.

Sorri, sacudindo a cabeça devagar.

— Não. Recusou. Por orgulho, claro, porque não ia dar a ele o gostinho de parecer fácil demais. Recusou com o tom seco de quem finge estar com pressa, juntou as últimas sacolas do chão, agradeceu pela “ajuda” com uma ironia visível na voz e, antes de ir embora, ouviu a pergunta:

— Posso pelo menos saber seu nome?

— Para quê?

— Para saber quem acabou de quase me atropelar.

— Você está invertendo a situação.

— Talvez.

Ela pegou a última sacola.

— Ana.

Ele sorriu.

— Juan Fran.

Ela repetiu o nome mentalmente. Eu sei disso porque ela me contou depois. Na época, porém, ela fingiu que não tinha prestado atenção. Juan Fran tirou um cartão da carteira e estendeu para ela.

— Se alguma coisa tiver quebrado...

Anamaria olhou para o cartão. Depois para ele.

— Não quebrou nada.

— Mesmo assim.

Ela pegou o cartão, não agradeceu e o guardou na bolsa antes de ir embora. Juan Fran ficou parado por alguns segundos, observando-a se afastar, e depois voltou a caminhar. Cada um seguiu seu caminho. Pelo menos era isso que os dois imaginavam. E, olha, eu conheço minha irmã: se ela guardou o cartão em vez de jogá-lo dramaticamente no primeiro lixo que encontrasse, é porque, no fundo, já sabia que usaria aquele número mais cedo ou mais tarde.

— E ela ligou? — perguntou Marta.

— Ligou.

— Quando?

Olhei para ela.

— Umas duas semanas depois.

— Duas semanas?!

— Minha irmã é orgulhosa.

Javier riu.

— Ahh...  Isso eu me lembro.

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