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CAPÍTULO 2 — BARCELONA, BISTURIS E UMA AMIZADE IMPROVÁVEL

last update publish date: 2026-10-02 09:36:16

— Bem — comecei. — Para entender o que aconteceu no quase não casamento da minha irmã, a gente precisa voltar para Barcelona. E voltaremos para uma tarde de sábado em que Anamaria Menendez saiu de uma loja carregando sacolas demais, prestando atenção de menos no caminho e bateu de frente com o homem que, um ano depois, seria o maior problema da vida dela.

Marta, prima de Lúcia, abriu um sorriso.

— Foi assim que eles se conheceram?

— Literalmente.

Algumas pessoas riram. Lúcia apoiou o cotovelo sobre a mesa.

— Isso não parece exatamente o começo de uma grande história de amor.

— Não parece, mas foi assim que começou.

Tomei mais um gole.

— Porque naquela tarde nenhum dos dois fazia ideia de que aquela colisão ia mudar a vida dos dois. E muito menos de que meu pai faria de tudo para separar os dois.

Dessa vez, ninguém riu.

— Mas antes de vocês conhecerem a história de Anamaria com Juan Fran — comecei —, precisam conhecer Juan Fran.

Javier ergueu uma sobrancelha.

— Você está me dizendo que vai falar primeiro do homem?

— Vou.

— Por quê?

— Porque eu conhecia Juan Fran antes de qualquer coisa acontecer entre ele e minha irmã. — Fiz uma pausa. — E porque ele era meu amigo.

A expressão de Lúcia mudou imediatamente.

— Espera. Seu amigo?

— Um dos poucos de verdade.

Marta olhou para mim, surpresa.

— Você conhecia o Juan Fran antes de ele conhecer a Anamaria? Então por que você não apresentou os dois?

— Simplesmente porque o universo, o destino e a vida resolveram fazer o trabalho que, por Deus, eu não precisei fazer. E, naquela parte, o universo foi bastante eficiente.

— Então conta como você o conheceu — pediu Marta, ajeitando-se na cadeira para ouvir.

— Faculdade. Barcelona. Medicina — respondi, contando nos dedos como se cada palavra merecesse sua própria pausa dramática. — A gente se conheceu no primeiro ano, numa fila do restaurante universitário, dessas filas que parecem não ter fim e que obrigam duas pessoas entediadas a puxar conversa só para não morrer de tédio e de fome esperando.

Contei a eles como tinha sido: eu, recém-chegado de Alella, ainda me sentindo um peixe fora d’água numa cidade grande demais para o meu gosto provinciano, carregava aquele sotaque interiorano que os colegas de turma adoravam imitar nos primeiros meses. Juan Fran, nascido e criado em Barcelona, conhecia a cidade, os hospitais e alguns professores. Sabia quais eram os melhores lugares para estudar, os piores para comer e, principalmente, quanto podia gastar num almoço antes de precisar escolher entre jantar e transporte para casa.

— Ele era sério demais para o meu gosto no começo — continuei, sorrindo com a lembrança. — Estudioso, focado, do tipo que chegava cedo para todas as aulas e anotava tudo com uma caligrafia impecável, enquanto eu ainda estava tentando decidir se valia a pena acordar antes das dez. Mas tinha algo nele... uma seriedade que não era arrogância, sabe? Era mais como se ele tivesse aprendido cedo demais que a vida não dava desconto para ninguém, e por isso levava tudo a sério — os estudos, as amizades, os compromissos. Uma postura quase rígida demais para um cara de vinte e poucos anos, sempre com as costas eretas mesmo depois de doze horas de aula.

— E vocês ficaram amigos assim, do nada? — perguntou Tomás.

— Não foi do nada. Foi ao longo de anos. Estudando juntos até tarde, dividindo aquele terror mútuo de provas de anatomia, comemorando aprovações em bares baratos porque nenhum dos dois tinha dinheiro sobrando na época — bom, eu até tinha, mas fingia que não, porque ninguém gosta do rico que quer se aparecer bancando tudo.

— Aos poucos ele foi se abrindo mais comigo — continuei. — Contava sobre a mãe, a Dona Carmensita, sobre como cresceu só com ela, sem pai, criado num apartamento simples de um bairro que não tinha nada a ver com o mundo em que eu cresci. Ele falava dela com um respeito enorme, quase reverência — dizia que ela tinha trabalhado dobrado como enfermeira a vida inteira para ele poder estudar Medicina, e que nunca reclamava de nada, mesmo quando claramente devia estar exausta. E eu, sinceramente, nunca dei muita bola para essa diferença de mundos. Amizade de verdade não olha extrato bancário.

Eu sabia que ele ainda morava com a mãe. Ele sabia que eu sempre inventava alguma desculpa para não voltar para Alella quando estava brigado com meu pai.

Para mim, naquele momento, Juan Fran era apenas o meu melhor amigo. Até Anamaria aparecer e ele ser transformado no homem que meu pai passou a rejeitar sem que ninguém entendesse o motivo.

Juan Fran era um sujeito bastante fácil de gostar. Sério, sim. Reservado, também. Mas não frio. Ele tinha uma maneira muito particular de prestar atenção nas pessoas. Quando alguém falava, ele realmente ouvia. Quando alguém precisava de ajuda, ele aparecia. E talvez tenha sido justamente por isso que minha irmã tenha se apaixonado por ele.

— E ele sabia da sua família? Da vinícola, de tudo isso? — perguntou Marta, gesticulando na direção das colinas que se viam ao longe, refletindo os últimos raios de sol se pondo.

— Sabia, mas nunca fez disso um assunto. Isso é uma coisa que sempre admirei nele. Juan Fran nunca me tratou diferente por causa de dinheiro, nunca puxou o assunto, nunca pediu nada. Se alguma coisa, ele até evitava falar sobre isso, como se tivesse um certo... — procurei a palavra certa — desconforto com a ideia de riqueza em geral. Coisa de quem cresceu tendo que se virar sozinho, imagino. Uma vez paguei a conta dele na cantina do hospital, discretamente, quando soube que ele estava apertado, e ele ficou tão sério, tão fechado, que nunca mais toquei no assunto de novo.

Fiz uma pausa, peguei mais um gole de vinho, e olhei ao redor da mesa, sentindo aquele prazer de estar prendendo a atenção da plateia.

— E foi justamente esse rapaz sério, estudioso, sem muitas posses que um belo dia se apaixonou justamente pela pessoa mais rica, mais dramática e mais impulsiva que eu conheço na vida inteira: a minha irmã.

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