Home / Romance / Casei com meu irmão (ou quase!) / CAPÍTULO 4 — IRMÃ CAÇULA

Share

CAPÍTULO 4 — IRMÃ CAÇULA

last update publish date: 2026-10-02 09:39:24

Lúcia, que até então observava tudo com um misto de diversão e nostalgia — porque, afinal, ela também tinha crescido em Alella, também conhecia minha irmã de longe, mesmo sem nunca terem sido próximas — se inclinou para frente, o véu ainda pendurado frouxamente sobre um ombro.

— Eu lembro da sua irmã de quando éramos crianças. Ela sempre foi aquela menininha que fazia um escândalo desproporcional para qualquer coisinha. Lembro de uma festa lá na vinícola de vocês em que ela chorou feito o mundo tivesse acabado porque perdeu numa brincadeira de argolas.

— Continua sendo — respondi, rindo. — Só que agora numa versão adulta, com salto alto e discurso mais elaborado. As lágrimas de argola viraram lágrimas de reunião de negócios, mas a intensidade é exatamente a mesma.

Risadas gerais. Javier balançou a cabeça, também sorrindo, o copo já quase vazio na mão.

— É verdade, a gente nunca foi assim tão próximo dela, mas lembro bem dela sempre armando um drama na festa da colheita quando criança. Teve um ano que ela fez um discurso inteiro sobre injustiça porque não deixaram ela pisar as uvas com os adultos.

— Pois é. E foi justamente essa versão dramática, questionadora, cheia de vida da minha irmã que colidiu, literalmente, com o Juan Fran mais sério e recatado do universo, naquela tarde em Barcelona.

Alguém trouxe uma garrafa de vinho, e outra pessoa, sem que eu pedisse, empurrou um prato de queijos para o centro da mesa, como se aquilo tivesse virado, de fato, uma sessão oficial de histórias que precisava de petiscos.

Olhei ao redor da mesa e ri.

— Olha, eu amo a minha família — disse, com uma sinceridade que surpreendeu até a mim mesmo. — Amo mesmo. Mas amor não me impede de reconhecer que, coletivamente, somos um caso digno de estudo psiquiátrico. E acredite: eu escolhi Clínica Geral, não Psiquiatria, justamente para não ter que analisar profissionalmente as pessoas com quem passo o Natal.

Todos acharam graça dessa constatação familiar.

— Como muitos de vocês aqui sabem, Alella é assim — continuei, gesticulando em direção às colinas que se viam ao longe, já quase invisíveis na luz baixa do fim de tarde. — Um vilarejo pequeno, cercado de montanhas cobertas de vinhas, com vista para o Mediterrâneo. Lindo de morrer. E, ao mesmo tempo, do tipo de lugar onde todo mundo se conhece, então qualquer segredo tem prazo de validade curtíssimo. Minha família é dona de uma das vinícolas mais antigas da região — e isso significa duas coisas: dinheiro, e uma vida inteira sendo observados como se estivéssemos dentro de um aquário. Todo mundo do lado de fora olhando, comentando, especulando sobre a nossa vidinha supostamente perfeita.

— E sua irmã cresceu nesse aquário também — constatou Lúcia,  se ajeitando na cadeira ao lado do marido recém-adquirido.

— Cresceu. E, olha, acho que ela é ótima em lidar com isso, muito melhor do que eu, na verdade. Esse jeito dela de ser... — procurei a palavra certa — dramático, novelesco sem nem perceber que é. Fala com as mãos, suspira fundo quando está indignada, é capaz de fazer uma cena digna de teatro por causa de um garçom que errou o pedido. E, no entanto, apesar de todo esse exagero teatral, é a mais questionadora de todos nós. Sempre foi a primeira a desconfiar quando alguma coisa não fazia sentido em casa.

Ela também nunca foi previsível. Minha irmã tinha vinte e três ou vinte e quatro anos naquela época. Acabara de voltar de um intercâmbio de moda em Milão e estava numa daquelas fases em que mudava de ideia sobre o futuro aproximadamente uma vez a cada três meses.

Primeiro ela quis estudar Relações Internacionais. Durou uns seis meses. Depois ela quis trabalhar com moda, por isso foi pra Milão. Voltou e resolveu que talvez não quisesse estudar coisa nenhuma. Meu pai dizia que ela tinha dinheiro demais e tempo demais. Minha mãe dizia que ela só precisava encontrar alguma coisa que realmente a apaixonasse. Eu dizia que ela precisava parar de matricular-se em cursos que abandonaria antes da primeira prova. Ela dizia que eu precisava cuidar da minha própria vida. Uma família perfeitamente equilibrada.

Em Barcelona, ela morava sozinha num apartamento pequeno perto do centro, financiado pelo meu pai, claro, mas decorado inteiramente ao gosto dela — paredes cheias de quadros excêntricos e um sofá vermelho que jurava ser uma statement piece e que, na minha opinião nada humilde, era simplesmente feio. Era ali que vivia essa fase de tentar se descobrir longe do peso do sobrenome Menendez.

Minha irmã é assim: intensa em tudo o que faz, mas incapaz de manter o mesmo interesse por muito tempo. Menos, é claro, quando o assunto envolve alguém que a irrita o suficiente para prender a atenção dela por completo. Anamaria também tem uma característica que sempre considerei perigosa:

Ela detesta ser contrariada. Principalmente por homens. Talvez por isso o primeiro encontro dela com Juan Fran tenha sido tão desastroso. Ou talvez tenha sido exatamente por isso que funcionou.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 13 — UMA PREOCUPAÇÃO QUE NÃO CONTEI A NINGUÉM

    — Depois daquele jantar — continuei, enquanto a mesa ainda se recuperava das risadas —, eu tive que tomar uma decisão. E foi uma decisão bem mais complicada do que qualquer um ali imaginava.— Contar para os seus pais? — arriscou Marta, sempre rápida em adivinhar o próximo movimento óbvio da trama.— Exatamente o oposto — respondi, com o dedo em riste. — Decidi não contar nada. Nem uma palavra. E olha que essa decisão me acompanhou por meses, gente, meses inteiros guardando um segredo desse tamanho, o que para mim, que sou notoriamente incapaz de guardar segredo de qualquer natureza, foi um exercício de autocontrole digno de reconhecimento oficial.— Por que não contou? — perguntou Ramon, aquele tom grave e pausado sempre carregando mais significado do que uma pergunta qualquer.Fiz uma pausa, notando o peso genuíno daquela pergunta, porque ela tocava numa parte da história que eu geralmente prefiro não aprofundar demais, mesmo contando aquilo tudo com tanto humor.— Porque, para ser

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 12 — A FICHA QUE FINALMENTE CAIU

    — Foi um jantar comum — comecei, diante de uma plateia que já nem disfarçava a ansiedade —, desses que a gente organiza sem muito planejamento, só para reunir a turma da faculdade que ainda morava perto. Eu, Juan Fran, mais três ou quatro colegas de curso, numa mesa de restaurante barato perto do hospital, celebrando sei lá o quê — acho que tinha sido aniversário de alguém, mas juro que não lembro mais quem.— E o que aconteceu? — perguntou Marta, praticamente sem fôlego.— Juan Fran estava particularmente distraído naquela noite, sorrindo sozinho para o celular entre um assunto e outro, coisa que, àquela altura, já tinha se tornado normal demais para eu questionar. Em algum momento da noite, um dos colegas perguntou, curioso, como estava indo o namoro misterioso dele. E Juan Fran, com aquele sorriso bobo que só "Ana" conseguia arrancar dele, respondeu: "Vai muito bem. A gente até já está pensando em ela conhecer minha mãe."Fiz uma pausa dramática, deixando o silêncio pairar por um s

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 11 — CONTANDO AOS POUCOS

    — Depois daquela primeira crise superada — continuei, enquanto a mesa ainda suspirava com a reconciliação —, o namoro deles ganhou um ritmo diferente. Mais firme. Mais real. E, com isso, veio também a decisão inevitável: contar para as pessoas ao redor.— E para quem eles contaram primeiro? — perguntou o primo mais novo de Lúcia, que continuava fielmente grudado na história desde que se juntara ao grupo.— Os amigos mais próximos, é claro, sempre os primeiros a saber de tudo antes da família. Cris, a amiga de Milão, já sabia desde o início, então essa nem conta. Mas Juan Fran contou para os colegas de residência, aos poucos, sem alarde, deixando escapar comentários sobre "minha namorada" em conversas de corredor até que virou fato consumado sem ninguém precisar de anúncio formal.— E você? — perguntou Marta, ainda achando graça no fato de eu ser o último a saber de tudo.— Eu, meus amigos, continuava vivendo feliz na minha ignorância — respondi, com a mão no peito, fingindo um pesar t

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 10 — UMA TAL ELENA E O CIÚME

    — Enquanto isso — continuei —, Juan Fran vivia sua própria versão de estar perdido, só que com bem menos vocabulário disponível para admitir isso, mesmo para si mesmo. Homens sérios como ele, descobri ao longo dos anos, têm um talento particular para transformar sentimento em silêncio constrangido.— Homens são péssimos nisso — comentou Núria, balançando a cabeça com a sensatez de décadas de casamento.— São mesmo — concordei, rindo. — E foi essa incapacidade masculina de lidar com sentimentos que quase causou a primeira grande crise do relacionamento. Porque, gente, existia uma colega de trabalho chamada Elena.— Aqui vamos nós — murmurou Javier, antecipando o drama.— Elena era colega de residência dele — expliquei. — Uma médica competente, simpátic

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 9 — UMA AMIGA, UM SEGREDO MAL GUARDADO

    — Voltemos então — continuei, ajeitando-me na cadeira, satisfeito com a plateia renovada ao redor.— Enquanto Juan Fran mal disfarçava o entusiasmo comigo, minha irmã fazia a mesma coisa do outro lado da cidade, só que com uma plateia bem menor e, ao que tudo indica, bem mais cúmplice.— Uma amiga? — adiantou-se Marta, os olhos brilhando de novo com a expectativa que já tinha virado sua marca registrada naquela noite.— Uma amiga chamada Cris, que ela conhece desde os tempos de Milão — respondi, servindo-me de mais um pedaço de queijo do prato que ainda circulava pela mesa. — E, segundo a Cris me contou tempos depois (e ela achou graça em relembrar), minha irmã chegou para um café entre amigas querendo desabafar e, ao mesmo tempo, fingir que não tinha nada para desabafar. Coisa clássica dela.Encenei então a cena, alternando entre a minha própria voz e um tom mais fino e curioso para dar vida à amiga:— "Conheci um cara" — começou minha irmã, tentando soar casual enquanto mexia o café

  • Casei com meu irmão (ou quase!)   CAPÍTULO 8 — UM BREVE INTERVALO

    — Preciso de uma pausa — anunciei, levantando as duas mãos antes que alguém confundisse meu silêncio com mais um recurso dramático. — Uma pausa real. Daquelas que envolvem água, comida e necessidades fisiológicas que não devem ser discutidas diante dos noivos.Marta apontou para minha taça vazia.— Você volta.— Isso foi um pedido ou uma ameaça?— Os dois.Prometi voltar antes que alguém inventasse um final pior que o verdadeiro e me levantei sob protestos exagerados. Dei dois passos e descobri que o chão tinha adquirido uma inclinação que não possuía no início da festa. Nada alarmante. Apenas o tipo de informação que um médico deveria reconhecer antes de aceitar outra taça.Atravessei o jardim procurando água e alguma coisa sólida. A festa começava a se desfazer pelas bordas: cadeiras vazias, guardanapos abandonados, grupos menores falando mais baixo e funcionários recolhendo pratos sem coragem de se aproximar da mesa onde minha história tinha virado uma atração paralela. A música ai

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status