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Uma amiga

Penulis: Sah Flor
last update Tanggal publikasi: 2026-07-13 21:55:52

Meu segundo dia de estágio no Hospital começou ainda mais intenso do que eu imaginava. Os corredores pareciam um formigueiro humano. Macas sendo empurradas às pressas, familiares com olhares ansiosos, enfermeiras gritando ordens e o som constante de bip-bips das máquinas que nunca paravam. Meu coração batia forte no peito, uma mistura de ansiedade e empolgação. Eu mal havia dormido na noite anterior, ainda digerindo tudo que havia descoberto sobre minha mãe e o segredo que meu pai carregava, era muita informação em tão pouco tempo.

Eu estava na sala de arquivo, organizando uma pilha de prontuários que parecia não ter fim, quando ouvi uma risada alta e cristalina ecoando pelo corredor. Era um som tão vivo, tão fora de lugar naquele ambiente de tensão, que levantei a cabeça imediatamente.

— Ai, doutor, o senhor não pode me matar de susto assim! - disse a voz, seguida de outra gargalhada.

Curiosa, espiei pelo vão da porta e lá estava ela... Uma moça uns dez anos mais nova que eu, pele clara, olhos azuis brilhantes, cabelos castanhos e negros preso em um rabo de cavalo alto e bagunçado, com várias mechas soltas. O jaleco branco estava um pouco grande para o corpo miúdo dela, dando-lhe um ar ainda mais jovem. Seu sorriso era largo, quase luminoso.

Ela percebeu que eu a observava e, sem qualquer cerimônia, veio caminhando em minha direção.

— Ei! Você é a novata, né? A Cecília que chegou ontem?

— Sim… - respondi, sem jeito.— Sou eu.

— Cecília! Nome de protagonista de novela! Eu amei - disse ela, abrindo ainda mais o sorriso. — Eu sou Evie. Evelyn, mas todo mundo me chama de Evie. Bem-vinda ao manicômio disfarçado de hospital! - disse ela sorrindo.

Antes que eu pudesse responder, ela já havia entrado na sala e começado a mexer nos prontuários com uma familiaridade impressionante.

— Olha, eu sei que parece caos total, mas você vai se acostumar. No começo eu também ficava perdida, eu até chorava no banheiro no meu terceiro dia aqui. Depois aprendi que rir é o melhor remédio… e café, muito café.

Eu ri baixinho, surpresa com a naturalidade dela.

— Eu soube que você é de Mato Grosso, né? - continuou Evie, sem esperar resposta. — Deve estar achando São Paulo uma loucura né?!

— É… ainda estou me adaptando ou tentando me adaptar - admiti, sentindo o rosto esquentar. — Tudo é muito grande, muito barulhento...

— Pois é. Mas relaxa, vou te adotar hoje. Considera-me sua guia turística oficial do setor de enfermagem. Vamos, me segue que eu te mostro os pontos estratégicos... onde fica o café mais forte, qual banheiro tem a descarga que não vaza e quem são os médicos que valem a pena. - disse ela cochichando.

O resto da manhã passou num turbilhão. Evie me arrastou pelos corredores, apresentando-me a todos com uma animação contagiante

— Gente, essa é a Cecília! Ela é nova por aqui , veio do interior e é mais calada que eu, o que já é um milagre. Sejam legais com ela ou eu conto aquele lance do mês passado pro Dr. Almeida!

Os colegas riam e me receberam com simpatia. Em determinado momento, fomos chamadas para ajudar uma paciente idosa que estava agitada. Enquanto eu tentava acalmá-la, Evie começou a cantar baixinho uma música antiga que a senhora reconheceu. Em menos de dois minutos, a paciente estava sorrindo e segurando a mão dela.

— Você tem um dom — comentei quando saímos do quarto.

— Eu? Ah, só faço o que minha avó fazia comigo quando eu tinha pesadelo, distraio a dor até ela esquecer que existe - respondeu Evie, dando de ombros.

Na hora do almoço, sentamos juntas na pequena copa da enfermagem. O lugar era apertado, com cheiro de café requentado e comida de hospital, mas era acolhedor. Evie tirou da bolsa uma caixinha de biscoitos de maisena caseiros.

— Toma. Energia pura. Se não comer isso, você desmaia antes das quatro da tarde - disse ela, empurrando a caixinha para mim. Peguei um biscoito e agradeci. Ficamos em silêncio por alguns segundos, algo raro para ela.

— Sabe… - começou Evie, mais séria agora. — Eu vi nos seus olhos hoje. Tem alguma coisa te incomodando, né? Não precisa me contar agora. Mas aqui dentro a gente aprende rápido que carregar tudo sozinho é caminho pro esgotamento. Eu posso ser chata, faladeira e atrapalhada… mas sou uma boa ouvinte também.

Olhei para ela, sentindo um aperto inesperado na garganta. Fazia tempo que ninguém me oferecia amizade de forma tão direta e sincera.

— Obrigada, Evie... Eu realmente… não conheço ninguém aqui ainda. Vim pra São Paulo com um objetivo, mas está sendo mais difícil do que eu imaginava.

— Qualquer coisa que precisar, me fala tá. Dinheiro emprestado, carona, lugar pra ficar ou até um plano maluco pra descobrir segredos de família — brincou ela, mas havia algo curioso em seu tom. — Eu tenho meus contatos. Tenho um amigo...hun... na verdade um ex ficante, - disse envergonhada, o que foi engraçado ver ela corar — Ele trabalha com investigação particular, essas coisas...

Eu quase engasguei com o biscoito.

—Ele é meio doido, mas é bom profissional. Enfim… o que eu quero dizer é que você não está sozinha aqui, tá bom?

Sorri, sentindo um calor bom no peito pela primeira vez em semanas.

— Obrigada. De verdade.

Evie esticou o braço por cima da mesa e apertou minha mão rapidamente.

— De nada, Cecília. Agora come mais um biscoito que a tarde vai ser pesada. Tem uma cirurgia ortopédica às três e o cirurgião é lindo, mas tem pavio curto.

O resto do dia passou entre risadas, correria e confidências rápidas. Quando o plantão acabou, Evie me acompanhou até a saída do hospital.

— Amanhã tem mais, hein? - disse ela, acenando. — E se quiser, no fim de semana a gente pode sair pra tomar umas por aí, ou uma baladinha. São Paulo tem uns lugares ótimos.

— Eu adoraria, obrigada amiga.

Enquanto caminhava de volta para o pequeno apartamento alugado, não conseguia parar de pensar na minha nova amiga doidinha. Evie havia chegado como um raio de luz no meio da minha tempestade interna.

Mal sabia eu que essa amizade espontânea e cheia de energia seria o elo que me conectaria diretamente ao passado da minha mãe e ao homem que, sem saber, era parte da minha verdadeira história.

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