Mag-log inDORIANNa sexta-feira, às seis e vinte da tarde, uma mãe me perguntou pela terceira vez se eu tinha certeza de que o filho podia ir para casa.Eu tinha.Ela não.E eram coisas diferentes.— A febre cedeu, ele está hidratando, os exames melhoraram e vocês têm orientação de retorno — expliquei. — Se alguma coisa mudar, volta.Ela olhou para o menino careca dormindo de lado, abraçado a um dinossauro verde.— Eu vou ficar olhando ele respirar a noite inteira.— Faz parte, mas tenha confiança que tudo ficará bem.A mulher me encarou. Haviam vários estágios de resiliência de familiares. A gente conhecia bem todos eles aqui.Quando saí do quarto, encontrei uma placa nova presa provisoriamente à parede do corredor.Fundo claro.Seta grande.Duas palavras.COLETA DE EXAMES.Sem parágrafo.Sem três logotipos.Sem a necessidade de diploma para entender.Parei.Bruna, da Comunicação, apareceu carregando fita e um bloco.— Teste — explicou.— Mariana?— A ideia da hierarquia visual foi dela. A equ
MARIANAMarço chegou com uma crueldade muito específica.Segunda-feira.Primeiro dia de aula.Sete da manhã.Eu tinha passado fevereiro inteiro dizendo que estava com saudade da universidade a plenos pulmões.Às sete e cinco, diante do espelho do quarto, concluí que a Mariana de fevereiro era uma mentirosa sem qualquer compromisso com a Mariana de março.— Não quero ir.Valentina, ainda enrolada no lençol:— Mentira Mari, era tu que tava animada pras aulas voltarem…— Hoje não é mais uma verdade.— Você ama a faculdade.— Amo depois das nove.— São sete e seis.— Exatamente esse o meu argumento.Minha mochila parecia conter tijolos.Notebook.Caderno.Carregador.Garrafa de água.Estojo.Um texto impresso que eu tinha jurado ler no domingo para me auxiliary no projeto do hospital e convenientemente esquecido em cima da mesa até onze da noite.Ajustei o relógio.O bracelete de Dorian brilhou ao lado.Parei. Dei uma boa olhada.Ainda não estava acostumada.Mas ganhar um presente era tão
Eu já tinha assistido Mariana apresentar o projeto.Tinha visto Helena fazer perguntas, a coordenadora da recepção anotar ideias e Mariana defender cada proposta sem olhar para mim uma única vez em busca de aprovação.Naquele dia, minha presença tinha sido necessária.Naquela quinta-feira, não.Às duas da tarde, ela assinaria a contratação e faria o primeiro alinhamento oficial com a equipe de Comunicação e Marketing do hospital. Cronograma, acesso aos setores, responsabilidades, primeiras demandas.Nada daquilo exigia o chefe da Pediatria sentado à mesa.Muito menos o homem que a tinha beijado na entrada do hospital e aparecido em uma fotografia local menos de dez minutos depois.Às treze e cinquenta e oito, passei pelo corredor onde ficava a sala de reuniões.Mesmo trabalhando em horarios flexíveis desde a manhã cedo, até início da tarde, sempre haviam demandas que me faziam permanecer mais tempo no hospital.Não desviei meu caminho para chegar ali.Tecnicamente.A porta estava fech
MARIANAAmália tinha uma teoria sobre plantas.— Gente que diz que mata qualquer coisa verde só nunca aprendeu a olhar.— Eu já matei um cacto.Ela parou no meio do corredor do viveiro.— Nossa Mari isso que é talento.— Obrigada.— Não foi elogio.O viveiro ficava afastado do centro, numa área onde o trânsito diminuía e o cheiro de asfalto começava a perder espaço para terra molhada. Era sábado de manhã, mas o sol já aquecia as telhas transparentes e fazia a umidade grudar na pele.Havia plantas por todos os lados.Folhas enormes.Vasos pequenos.Samambaias pendendo do teto.Ervas em bandejas.Flores que eu não saberia nomear nem sob ameaça.O cheiro me trouxe minha mãe antes que eu tivesse tempo de me preparar.Lia.As mãos sujas de terra.Latas de tinta transformadas em vaso.Alecrim na janela da cozinha.O hábito de salvar mudas que qualquer pessoa sensata teria jogado fora.Parei diante de uma bancada de temperos.Amália continuou dois passos antes de perceber.Voltou.— Lembrou
DORIANNa segunda-feira seguinte, um menino de nove anos decidiu que eu precisava saber o nome de todos os jogadores do Grêmio antes de permitir que eu escutasse seus pulmões.Eu sabia menos do que ele considerava aceitável.— Esse não conta — Miguel disse, cruzando os braços. — Você só sabe porque ele é famoso.— Isso parece injusto.— É regra.— Regra de quem?— Minha.A mãe dele riu pela primeira vez desde que eu entrara no quarto.Bom.Enquanto Miguel continuava o interrogatório esportivo, consegui examiná-lo sem que ele percebesse exatamente quando tínhamos mudado de assunto.Respiração melhor.Febre cedendo.Bom apetite.A internação começava a chegar ao fim.— Amanhã? — a mãe perguntou.— Se continuar assim, provavelmente.— Provavelmente de médico ou provavelmente de gente normal?Miguel perguntou com seriedade.— De médico.— Então quer dizer talvez.— Exatamente.Ele assentiu, satisfeito por finalmente termos chegado a uma linguagem comum.Quando saí do quarto, Helena, da Co
MARIANANa sexta-feira, eu descobri que confiança podia caber inteira numa tela acesa por três segundos.Também descobri que três segundos eram tempo suficiente para minha imaginação organizar um homicídio, um término de relacionamento que ainda nem existia e um discurso de dignidade que eu jamais conseguiria fazer sem chorar.Dorian estava no banho.Eu estava na cozinha da casa dele cortando limão para colocar na água porque, aparentemente, conviver com um médico fazia as pessoas começarem a hidratar melhor só para evitar sermão.Meu celular tocava uma playlist antiga sobre a bancada.O dele estava ao lado.A tela acendeu.Não mexi.Não precisava.A prévia apareceu inteira.Número não salvo.Foto de uma mulher loira.Sumido. Ainda lembra de mim?Meu estômago desceu alguns andares.A tela apagou.Fiquei encarando meu próprio reflexo escuro no vidro da janela.Racionalmente, eu sabia.Uma mensagem recebida não era conversa.Qualquer pessoa podia mandar qualquer coisa para qualquer outr







