MasukDORIANO resultado do exame de paternidade ficou pronto.Depois de dizer aquilo em voz alta, permaneci com o telefone na mão e a tela bloqueada. O carvão estalava dentro da churrasqueira, Caio tinha deixado a faca sobre a tábua e Henrique continuava perto da caixa térmica, mas nenhuma das tarefas que ocupavam o deck alguns segundos antes parecia ter urgência suficiente para alguém voltar a executá-la.Henrique foi o primeiro a falar.— Você quer abrir sozinho?A pergunta me ofereceu uma saída conhecida. Eu poderia subir, fechar a porta do quarto e ler o laudo longe de qualquer pessoa. Se o resultado fosse positivo, teria alguns minutos para organizar a cabeça antes de voltar. Se fosse negativo, poderia administrar a reação sem precisar descobrir que expressão meu rosto assumia enquanto os outros assistiam.Era exatamente o tipo de decisão que eu costumava tomar sem consultar ninguém.Olhei através da porta de vidro. Mariana estava na cozinha com Cecília, tirando coisas das sacolas do m
CAIOMariana entrou no banco da frente do Volvo sem perguntar onde eu pretendia sentar, e eu me odiei um pouco pela atenção que dei àquilo.Não era racional. Dorian ia dirigir, ela tinha sentado ao lado dele e eu tinha um banco traseiro inteiro para mim. Mesmo assim, quando fechei a porta e vi os dois de perfil, a proximidade deles pareceu antiga de um jeito que eu não podia disputar. Mariana conhecia aquele carro. Sabia onde Dorian guardava os óculos, mexeu na saída do ar sem pedir e encontrou o cabo do carregador dentro do console como quem já tinha feito aquilo muitas vezes.Eu tinha dormido com ela na noite anterior.Ainda conseguia lembrar do peso do corpo dela sobre o meu, da boca descendo pelo meu pescoço e da surpresa quase absurda de descobrir que Mariana era ainda mais bonita quando parava de buscar travas para o que a gente estava fazendo. Não deveria estar me sentindo deslocado vinte horas depois de tê-la nua na minha cama, mas o cérebro não obedecia a uma distribuição just
MARIANAA primeira coisa que percebi quando acordei foi que Dorian estava colado nas minhas costas. A segunda foi que eu precisava fazer xixi com uma urgência incompatível com qualquer tentativa de permanecer naquele abraço por mais cinco minutos.Ele dormia de lado, o braço pesado sobre a minha cintura, uma das pernas encaixada atrás das minhas. Em algum momento da madrugada eu tinha virado de costas para ele e, aparentemente, Dorian tinha decidido que isso significava autorização para ocupar todo o espaço restante da cama. O quarto ainda estava escuro o suficiente para eu distinguir apenas a faixa clara da cortina e alguns objetos sobre a cômoda.Tentei levantar o braço dele sem acordá-lo.— Se você está tentando fugir, está fazendo muito barulho.A voz veio rouca, amassada pelo sono. Parei com as duas mãos em torno do antebraço dele.— Estou tentando não fazer xixi na tua cama. Tem diferença.Ele afrouxou o braço imediatamente, mas não sem antes encostar o rosto entre meu cabelo e
DORIANAcordei às seis e onze.Não por alarme. Meu corpo tinha adquirido horários irritantemente consistentes durante os meses em que praticamente tudo que eu fazia acontecia dentro de uma rotina determinada por outras pessoas. Sono, medicação, café, caminhada, consulta. Eu tinha reclamado daquilo durante semanas e agora acordava sozinho antes das seis e meia como um aposentado disciplinado.Fiquei deitado por alguns minutos olhando para o teto.A casa permanecia silenciosa. O mar chegava abafado através das árvores, num ruído contínuo que eu ainda não tinha decidido se achava agradável ou apenas insistente. Peguei o telefone, conferi a hora novamente e vi duas mensagens de Rafael reclamando de alguma fotografia que eu tinha colocado no grupo no dia anterior. Não respondi.Levantei, tomei os comprimidos com a água que tinha deixado ao lado da cama e vesti uma bermuda e uma camiseta. Minha intenção era encontrar café antes que Gustavo acordasse e começasse a consumir tudo que pudesse s
MARIANAAcordei com o braço de Júlia atravessado sobre a minha barriga e Valentina discutindo com alguém por mensagem às oito e pouco da manhã.Não precisei abrir os olhos para saber qual das duas estava acordada. Júlia dormia como se pagasse aluguel por metro quadrado e precisasse ocupar todos eles, Valentina digitava com a força de uma pessoa que aparentemente acreditava que o celular responderia melhor sob ameaça física.— Se você quebrar a tela, eu não vou emprestar o meu — murmurei.— Bom dia pra você também.Abri um olho. Valentina estava sentada na própria cama, cabelo preso no alto da cabeça e uma marca de travesseiro atravessando a bochecha. Júlia continuava apagada ao meu lado, metade do cobertor no chão e um pé encostado na parede.Demorei alguns segundos para lembrar onde estava.A janela do quarto mostrava árvores demais para Santa Maria. O som do mar chegava abafado pela casa, misturado a vozes do lado de fora e ao barulho metálico de alguém mexendo em panela. Minha bols
CAIOA mensagem de Dorian apareceu no meu celular quando estávamos pouco mais de uma hora longe de Santa Maria.Dorian: Construa algo mais sólido primeiro, engenheiro.Li duas vezes antes de soltar uma risada.Gustavo, no banco do passageiro, virou o rosto.— O que foi?— Nada.— Você riu olhando pro celular. Isso nunca é nada.Bloqueei a tela e deixei o aparelho no console. Júlia e Valentina discutiam no banco de trás porque uma tinha levado caixa de som e esquecido o carregador, o que para elas aparentemente constituía uma falha logística maior do que qualquer coisa que pudesse acontecer na estrada.— É o doutor? — Júlia perguntou.Olhei pelo retrovisor.— Por que seria o Dorian?Ela sorriu daquele jeito inconveniente de quem tinha acabado de confirmar alguma coisa.— Não falei que era.— Vocês precisam urgentemente de um hobby.— A gente tem — Valentina respondeu. — A vida da Mariana.Gustavo riu.Eu não.A noite anterior ainda estava fresca demais para servir de entretenimento.Ma







