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Capítulo 2

Author: Peixe Koi
Isaac tinha voltado a beber. Ele tinha quebrado a própria regra. Pelo tom da voz, Lorena percebeu que ele estava até um pouco bêbado. Mas será que Isaac realmente seria capaz de gritar daquele jeito em público?

Na lembrança de Lorena, Isaac, no ensino médio, tinha sido o típico gênio frio: o melhor aluno da escola inteira, sério enquanto estudava e, até na quadra, quando alguma menina apaixonada por ele oferecia uma garrafinha de água, ele simplesmente ignorava.

Depois, quando ele se tornou marido dela, Isaac ficou ainda mais polido. Ele tinha um autocontrole tão grande que parecia não ter emoções. Ele nunca sorria, nunca se irritava, estava sempre calmo. Tão calmo que, às vezes, quando Lorena encostava de leve na mão dele, ela sentia que a pele dele era fria.

No vídeo, a câmera passou de rosto em rosto, e Lorena viu Isaac, levemente embriagado, com um brilho nos olhos. Ele ergueu a taça para a câmera e deu uma gargalhada:

— Bem-vinda de volta pra casa, Aurora.

Então Isaac sabia rir. Ele também tinha momentos de intensidade. Ele também sabia ser caloroso com uma mulher. Só que ele nunca tinha sorrido assim para Lorena, nunca tinha sido intenso com ela, e muito menos tinha chamado ela, com carinho, de "amor".

— Senhora, a senhora vai se levantar agora? — A voz de Isabela soou do lado de fora da porta.

A rotina de Lorena era muito certinha, dia após dia. Como Isabela não tinha ouvido nenhum barulho no quarto, ela ficou com medo de que Lorena precisasse de ajuda. No fim das contas, o problema na perna dela era um fato.

Lorena largou o celular ao lado do travesseiro.

— Vou, já estou saindo. — A voz dela saiu rouca e embargada.

No café da manhã, Isabela tinha preparado um café da manhã no estilo inglês. Lorena comeu só um pouco e não conseguiu continuar.

— Senhora, a senhora sabe o que vai querer no almoço e no jantar? — Isabela colocou um copo de leite na mão dela.

— Faz qualquer coisa… — Lorena quase completou a frase como sempre fazia, dizendo que podia preparar o que Isaac gostasse de comer. Mas, na hora em que a frase chegou na boca, ela engoliu o resto.

Isabela entendeu assim mesmo. Afinal, elas repetiam o mesmo diálogo todo santo dia. Então Isabela se apressou em avisar.

— Sr. Isaac falou que hoje não vem almoçar nem jantar. Ele tem um compromisso.

Lorena assentiu com a cabeça.

Claro que ele não ia voltar para comer. Ela tinha acabado de ver, há pouco, no Instagram: Aurora tinha postado uma tabela com os convites para a próxima semana inteira, anotando quem ia pagar cada refeição e o que ela queria comer em cada encontro, e ainda escreveu na legenda:

[Os sentimentos da época de estudante são sempre os mais sinceros. Eu sou mesmo essa musa mimada pelos meus colegas!]

Durante o dia, Lorena costumava estudar inglês por duas horas e depois passava mais algumas horas em cima de teoria da arte. Se ela não se obrigasse a encontrar tarefas para preencher o tempo, como era que ela ia atravessar aqueles dias tão longos? Gastar a vida inteira esperando um homem voltar para casa?

Ela já tinha esperado Isaac por noites demais… e ela sabia bem como aquilo doía.

Mas, naquele dia, a programação de Lorena foi diferente. Aquela carta de admissão provavelmente fazia parte da última leva de resultados da universidade. Ela precisava correr para confirmar.

Por isso, a primeira coisa que Lorena fez naquele dia foi pagar a taxa de confirmação da matrícula. Quando o celular exibiu a notificação de débito do cartão, ela soltou o ar lentamente. Ela tinha ficado um dia mais perto de ir embora da vida de Isaac.

No fim da tarde, ela trocou de roupa para sair.

Isabela estranhou:

— Senhora, a senhora vai aonde?

Sem Isaac por perto, Lorena quase nunca saía de casa.

— Ah, uma colega da época da faculdade veio se apresentar aqui na cidade e me chamou para encontrar com ela. — Lorena explicou.

Na verdade, o plano de Lorena era ir para um hotel perto do local da prova. No dia seguinte, ela tinha prova de IELTS, e a prova seria de manhã. Se ela saísse de casa para a prova, ela tinha medo de pegar trânsito e chegar atrasada.

A última vez que ela tinha feito o IELTS foi há alguns meses, e ela não tinha conseguido a nota que queria. Mas o prazo para mandar a candidatura de intercâmbio tinha chegado, então ela enviou assim mesmo. Acabou sendo aceita e, por isso, tinha marcado essa nova prova para o dia seguinte.

Por sorte, a universidade aceitava que ela complementasse depois a nota de inglês.

— Mas… — Isabela olhou para a perna de Lorena. — Eu posso ir com a senhora?

— Não precisa. Eu vou encontrar uma amiga de confiança, é um encontro entre mulheres. Com mais uma pessoa fica chato. — Lorena falou com a expressão neutra.

— Então eu vou avisar o Sr. Isaac. — Isabela realmente tinha medo que algo acontecesse com Lorena e não queria assumir essa responsabilidade.

— Não precisa. Deixa-o tranquilo no compromisso dele, não atrapalha. Quando eu terminar o encontro com a minha colega, eu ligo para ele ir me buscar. — Lorena pegou a bolsa e saiu.

Por causa da dificuldade de locomoção de Lorena, Isaac tinha comprado para eles um apartamento de andar inteiro, todo plano, sem escadas. Lorena pegou o elevador direto até o térreo. Assim que ela pisou na calçada, sob o sol, ela imediatamente abaixou a cabeça, encolheu os ombros, colocou um chapéu e levantou a gola do casaco. Ela tentou se esconder dentro da própria roupa.

Quando Lorena ficou manca, aquela versão dela que brilhava no palco, confiante e cheia de vida, simplesmente desapareceu. A Lorena mancando tinha perdido de vez a coragem de aparecer em público.

Isabela sempre dizia que, se ela quisesse sair, o melhor era que ela saísse com o Isaac.

Isaac também sempre dizia que, sem ele acompanhando, era melhor que ela ficasse em casa.

Mas nenhum dos dois sabia a verdade: o que Lorena mais temia era justamente sair com Isaac. Ela tinha mais medo disso do que de sair sozinha.

Porque, em cada olhar que caía sobre os dois, ela lia a mesma frase:

"Um homem desse nível… por que a esposa dele é manca?"

Lorena chamou um carro e pediu para ir até o hotel.

Dentro do carro, Lorena ficou em silêncio, olhando a cidade passar pela janela, até que ela de repente viu o carro de Isaac parado em uma vaga na rua.

— Espera, por favor, para aqui um instante. — Lorena se apressou em pedir ao motorista.

O carro de Isaac estava parado em frente a um restaurante. Na noite anterior, um amigo de Isaac tinha oferecido um jantar para Aurora. Naquela noite, seria a vez de Isaac pagar a conta. Aurora tinha escrito isso bem claro no Instagram dela.

Como se estivesse sendo puxada por algum impulso estranho, Lorena desceu do carro. Quando ela entrou no restaurante, ela foi direta:

— Já tem uma reserva no nome de Isaac.

Ao mesmo tempo, Lorena informou o número de celular de Isaac.

O garçom levou Lorena até a porta do salão reservado por Isaac:

— É aqui.

— Obrigada. — Lorena agradeceu.

Na verdade, nem ela sabia direito o que tinha ido fazer ali. Em casa, ela tinha sentido ondas e mais ondas de impulso a empurrando para fora. Mas, agora que ela estava ali, diante da porta, ela não tinha coragem nem de empurrar a maçaneta.

De dentro, porém, vinham vozes animadas.

— Hoje eu não posso voltar muito tarde e também não posso beber. Ontem eu cheguei em casa bêbado e a minha esposa fez o maior barraco comigo.

Era a voz de um dos amigos de Isaac.

— E você ainda se diz o meu melhor amigo e colega? Você mesmo tinha dito que, não importa o que acontecesse, você sempre ia me colocar em primeiro lugar no seu coração. E agora você vem dizer que tem medo da sua mulher? Isaac é o único que ainda me trata direito.

Era Aurora. A voz dela era manhosa, doce, cheia de charme. Então era assim que Aurora era. E era esse tipo de mulher que Isaac gostava.

Pena que Lorena realmente não era nada daquilo. Ela nem conseguia imitar aquele tom de fala.

Lá dentro, o amigo de Isaac continuou:

— Como é que o Isaac vai ser igual a gente? A Lorena mal deve ter coragem de levantar a voz para ele.

— Ah, é mesmo. — A voz de Aurora soou de novo. — Isaac, eu ouvi dizer que a sua esposa é manca. Por quê?

Ninguém respondeu à pergunta de Aurora. Mas o coração de Lorena se apertou na mesma hora.

Os amigos de Isaac começaram a falar, um por cima do outro.

— Olha, Isaac, a gente realmente acha uma injustiça com você. Você tem dinheiro, você tem aparência, você é o melhor de todos nós. Que tipo de mulher você não poderia ter? Por que justo uma manca?

— Falando sério, Isaac, você é o mais brilhante daqui. Com a Lorena como sua esposa, em reunião de negócios, em evento, em coletiva de imprensa, qualquer situação em que você precise de uma senhora Cunha do seu lado, você não pode levar ela. Me diz se isso não é prejuízo?

Então era isso… Isaac sempre dizia que Lorena não precisava se envolver nos assuntos dele, que bastava ela ficar quietinha em casa esperando ele ganhar dinheiro para ela.

Os pais de Lorena sempre elogiavam Isaac aos quatro ventos, todo mundo dizia que o casamento dela era perfeito. No fim, era só porque Isaac achava que sair com ela seria passar vergonha.

Do salão, veio a voz de Isaac, com um riso amargo:

— No fim das contas, ela me fez um favor. Eu devo a ela.

— Você deve, mas você já deu dinheiro suficiente para ela. Isso já pagou a dívida, não?

— É isso aí. Naquela época, você devia ter resolvido com dinheiro, pago pelo que ela fez e pronto. Não tinha que sacrificar a sua felicidade pelo resto da vida.

— Eu falo é sério. Se você comprasse um crucifixo e ficasse rezando todo dia, pedindo para Deus, Ele ainda poderia te proteger para o resto da vida. E essa mulher aí, serve para quê?

— É. O que é que ela pode fazer por você? Não pode ir a evento, não pode ir a jantar de negócios, em casa você deve ter medo até de deixá-la passar café com medo dela derrubar, né? Isaac, a sua esposa anda assim? Ou assim? É assim que ela anda?

Uma gargalhada geral explodiu lá dentro, entrecortada pelas risadas escandalosas de Aurora.

— Isaac, a sua esposa anda mesmo desse jeito?

Encostada na porta, Lorena sentiu todo o sangue do corpo subir para a cabeça. A raiva e a humilhação tiraram o chão dos pés dela.

Ela empurrou a porta com o ombro, fazendo o salão inteiro congelar por um segundo no meio da risada.

Um dos amigos de Isaac, Breno Queiroz, estava no meio do salão com um copo de água na mão, andando de forma exageradamente manca, imitando uma mulher e fazendo voz fina:

— Isaac, Isaac, Isaac, água, Isaac, ai… eu caí, Isaac, me pega no colo…

Lorena olhou direto para Isaac, esperando que o marido dela, o homem que ela mais amava no mundo, naquele momento pelo menos mostrasse indignação, que ele se levantasse e colocasse um fim naquilo.
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