Mag-log inLorena olhou para o Isaac jovem, que lhe parecia tão familiar e, ao mesmo tempo, tão distante.Ela reconhecia os traços delicados, o olhar bonito e a expressão fria e indiferente.O que a intrigava era a dúvida que agora transparecia naqueles olhos quase sempre impassíveis. Era como se, naquele mundo, ainda houvesse alguma coisa capaz de despertar o interesse dele.— O que aconteceu comigo? — Perguntou ela.Naquela semana, Lorena realmente não conseguira se concentrar em nada. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Continuava presa naquele sonho, sem conseguir despertar.A princípio, ela pensara que, como da última vez havia dormido por cinco dias seguidos, bastaria esperar até o quinto dia para acordar.Mas isso não aconteceu. Ela continuava dentro do sonho.Como poderia, então, passar aquela semana sem ficar completamente desnorteada?Será que ela estava mesmo vivendo no corpo de sua versão adolescente? E se nunca mais conseguisse voltar?— Eu falo com você, e você me ignora! Mas
Theo deu um tapa na própria testa.— Droga, me empolguei tanto com o jogo que acabei perdendo a hora!Lorena ficou sem palavras, virou-se e desceu do ônibus. Para sua surpresa, Theo também desceu. Ela já havia caminhado um bom trecho quando ouviu passos apressados atrás de si.Theo a alcançou com uma expressão desamparada.— Meu amigo acabou de me ligar. Ele precisou sair e não vai estar em casa. Posso jantar na sua casa?Lorena olhou para ele, desconfiada.— Por que você não volta para casa?— Para ficar sozinho? Meus pais estão fora do país a negócios. — Theo deu de ombros, com a maior cara de pau, como se já tivesse nascido assim.Lorena ficou sem resposta.De repente, porém, ela se lembrou de que Theo havia morrido tão jovem justamente por causa das constantes viagens de negócios dos pais. Depois que ele terminou o ensino médio, eles o levaram para estudar no exterior.Mesmo sabendo que tudo aquilo não passava de um sonho, Lorena não conseguiu deixar de sentir pena dele.— Está bem
Em comparação com os sonhos anteriores, nunca antes Isaac havia aparecido tão nítido diante dos olhos de Lorena.Ela conseguia ver perfeitamente o rapaz que ele havia sido, até mesmo os primeiros fios de barba que começavam a despontar em seu queixo. Também conseguia distinguir as minúsculas gotas de suor presas às sobrancelhas dele, que brilhavam suavemente sob a luz do pôr do sol.Nos sonhos anteriores, Lorena sempre era apenas uma espectadora. Ela via a si mesma vivendo aquelas situações, como se assistisse de fora a uma peça que retratava a própria vida.Mas, daquela vez, tudo era diferente. Ela não estava apenas observando a Lorena que aparecia no sonho. Ela era aquela Lorena. Sentia na própria pele tudo o que acontecia.— Você não vai me dar a água? Por que está me olhando desse jeito? — Isaac perguntou de repente, bem diante dela.Lorena despertou daquele torpor num sobressalto. Só então percebeu que ainda segurava a garrafa com tanta força que os dedos estavam apertados ao redo
Lorena permaneceu imóvel no mesmo lugar. As pessoas passavam apressadas ao seu redor, mas ela continuava encarando a vitrine em formato de barra de chocolate, com a mente completamente em branco.Só mais tarde o segurança veio chamá-la para ir embora.Mesmo depois de sair dali, Lorena continuava se sentindo vazia por dentro, como se tivesse perdido até as forças para sustentar o próprio corpo.Sentada no carro, ela só ouvia o ronco baixo do motor. Aquele som constante parecia um ruído distante, que a envolvia num torpor cada vez mais profundo. Ela fechou os olhos devagar. Se o celular não tivesse tocado de repente, talvez tivesse adormecido.Ao olhar para a tela, Lorena viu que era Estella.Estella agora ocupava o segundo posto mais importante na companhia de dança e era a assistente mais competente de Lorena.— Lorena, você está mesmo prestes a voltar para o país? Eu ainda queria revisar com você os convites para as apresentações de outono da companhia. — Perguntou Estella pelo telefo
Naquele momento, Anna estava parada diante da Casa de Biscoitos, com os olhos fixos na vitrine fechada, aparentemente absorta em pensamentos.A Casa de Biscoitos estava ainda mais suja do que da última vez em que Lorena a vira. A chuva havia transformado a poeira acumulada em uma camada de lama seca, grudada por toda parte.Anna ficou olhando por alguns instantes e, em seguida, começou a limpar a vitrine com lenços de papel.Mas como alguns lenços poderiam dar conta de toda a sujeira acumulada ao longo dos anos?— Anna. — Chamou Lorena, baixinho, atrás dela.Anna estremeceu de leve. Ao se virar e dar de cara com Lorena, esboçou um sorriso forçado.— Lorena, é você?— Anna, vocês voltaram? — Perguntou Lorena, tentando conter a ansiedade que fazia seu coração disparar. Ela escolheu as palavras com cuidado, receosa de dizer algo inconveniente.— Eu voltei. — Disse Anna. — Já faz tempo.— Tempo? — Lorena repetiu, confusa. — Faz quanto tempo?Será que Anna não estava mais com Isaac? Ou os d
Entre aqueles gritos que ecoavam dentro de si, Lorena lutou para despertar. Assim que conseguiu, calçou os sapatos e saiu às pressas.Ela correu sem parar até chegar à Casa de Biscoitos, agora coberta de poeira. Diante da porta fechada, em formato de barra de chocolate, Lorena cobriu o rosto com as mãos e desabou em lágrimas. O choro veio intenso, e as lágrimas escorreram por entre seus dedos.Havia coisas que ela já tinha esquecido havia muito tempo...Uma aula qualquer, um desenho feito sem pensar muito...Coisas que ela já havia apagado da memória...Por que tinha de ser assim?Os dois haviam combinado que, depois do divórcio, seriam apenas estranhos. Que nunca mais teriam qualquer relação um com o outro.Lorena murmurou, sem saber ao certo o que dizia:— Isaac, eu queria de verdade que nós fôssemos apenas estranhos. Você não precisava mais fazer nada por mim. Você devia ir atrás da sua própria felicidade...— Isaac, teria sido muito melhor se eu nunca tivesse me apaixonado por você
— Isaac… — A voz de Lorena falhou, traindo o nó na garganta.— Hein? Lorena? — Isaac segurou a mão dela. — O que aconteceu? Você está com vontade de chorar? Se quiser chorar, chora. Não precisa segurar.A voz de Isaac era muito, muito doce.Era igual àquela época em que Lorena tinha saído da sala de
Depois daquele dia, Lorena voltou para os livros. Ela recomeçou a estudar. Na época, ela não tinha grandes planos. Ela só queria colocar algum tipo de apoio secreto naquela vida pálida que ela levava. Se ela tivesse coisas para fazer, ela não ia ficar o tempo todo lembrando daquela frase e se machu
Aurora, sempre atenta ao clima, entrou na conversa na hora certa:— Isaac, você não fica chateado só porque o pessoal falou mal da Lorena. Eles realmente estão pensando no seu bem. Pensa só: a nossa amizade já dura tantos anos… mesmo que alguma coisa que eles falaram tenha passado do ponto, você ouv
Mas a atuação exagerada de Breno fazia todo mundo dentro da sala cair na gargalhada. Aurora, sentada ao lado de Isaac, ria tanto que ela se jogava no ombro dele.E Isaac continuava sem dizer uma palavra.Breno virou-se ainda rindo:— Isaac, é assim que ela…Antes que ele terminasse a frase, ele viu







