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3. O convite de casamento

last update Petsa ng paglalathala: 2026-08-05 07:35:38

1 ano depois

Belinda

O chuveiro faz um pipoco seco e, no mesmo instante, a água quente desaparece. Uma ducha de água gelada atinge minhas costas.

Geladíssima.

Seguro o grito entre dentes. Semana passada foi o micro-ondas, agora o chuveiro. Parece uma regra do universo: sempre que a gente ensaia guardar dinheiro para sair desse apartamento, alguma coisa queima.

— Lô! — Grito, girando o registro com força até travar. — Você sabe trocar uma resistência?

Todos os pelos do meu corpo se arrepiam. Envolvo o peito numa toalha de tecido fino e puído que mal cobre minhas coxas. Escuto o arrastar rápido dos chinelos de Lorena até a porta do banheiro.

— Ai, mentira! A gente acabou de pagar o micro-ondas.

— Pois é, queimou — resmungo, limpando o excesso de água do rosto. — Vou tentar fazer umas horas extras lá na loja, ver se pego comissão de algum cliente rico para a gente comprar um chuveiro decente.

O trinco da porta de entrada estala com o rangido escandaloso de sempre. O eco acelerado dos passos de Lauren anuncia sua chegada antes mesmo dela dobrar o corredor.

— Meninas! Vocês não vão acreditar no que estava jogado no meio das contas — a voz de Lauren é aguda.

Saio do banheiro enxugando os braços e paro no meio da sala espremida. Lauren ergue entre dois dedos um envelope encorpado, de papel texturizado bege, lacrado por uma fita de cetim verde-esmeralda e um brasão em relevo dourado. O contraste daquele luxo no meio do nosso micro apê chega a ser cômico.

— É o que eu estou pensando? — Lorena se aproxima devagar.

Lauren puxa a fita de cetim e arranca o cartão de dentro.

— O circo do ano. Gustavo e a Víbora.

Ela estende o papel reluzente para mim. Meus olhos passam por cima da caligrafia cursiva banhada a ouro: Convidamos para celebrar o matrimônio de Angélica e Gustavo. Mas não é o convite que faz meus olhos revirarem. É o pedaço de papel dobrado no miolo, preenchido com tinta preta.

Mandei um convite para você e para um acompanhante. Pena que o casamento será em Noronha, você não deve ter dinheiro para participar, né? Uma pena. Com carinho, Angélica

A ponta dos meus dedos aperta o papel até as bordas amassarem.

— Aquela víbora infeliz — Lorena dispara.

— Ela é mãe do filho do meu ex-quase-noivo e vai se casar com ele. Precisava chutar cachorro morto?

Lauren arranca o bilhete da mão de Lorena, os olhos faiscando de raiva. Ela ajeita a alça da bolsa de dança no ombro, mantendo o coque impecável das aulas de balé da manhã antes de vestir a pele do pole dance.

— Bê, você vai hoje.

— Ficou doida, Lauren? — Encaro-a, franzindo a testa. — Você leu o desaforo? Eu não tenho dinheiro para trocar a resistência do chuveiro, quanto mais para pagar uma passagem e hospedagem em Fernando de Noronha!

Lauren solta uma gargalhada alta.

— Você vai comigo hoje, Bê! — Ela balança a cabeça, ainda se divertindo com a minha confusão. — Fechei uma despedida de solteiro VIP de um empresário podre de rico. A festa vai ser numa cobertura inacreditável. Eu vou dançar... e você também! Depois do show sempre rola uns drinks caríssimos de graça e quem sabe você não esbarra num bonitão milionário bem melhor do que o Gustavo.

Lorena apenas dá um sorriso de canto, dando um leve dar de ombros.

— Não olha para mim, eu achei uma ideia excelente.

— Lô?! — Minha voz sobe um tom, chocada.

Lorena é a pessoa mais pé no chão desse prédio. Ver a mente analítica dela validando a ideia de resolver problemas em uma barra de pole dance parece um delírio.

— Viu? Até a Lorena aprovou — Lauren dá três palminhas rápidas no ar. — Chega de pensar no casamento daquela víbora com o traste do seu ex.

— E no sábado o Rafael tem show no barzinho, mais uma oportunidade para você distrair a cabeça — Lorena completa, os olhos suavizando e brilhando só de pronunciar o nome do namorado.

 Encaro o convite de casamento amassado em cima do balcão da cozinha. O papel de carta com o deboche da minha irmã parece me encarar de volta.

— Eu vou com você.

Lauren solta um grito fino, dá dois pulinhos e me agarra pelo pulso, me arrastando pelo corredor até o nosso quarto. Ela precisa se virar de lado para passar pelo espaço estreito entre duas das três camas de solteiro espremidas ali. Ela se estica sobre as pontas dos pés, alcançando uma caixinha  escondida no topo de uma prateleira entulhada.

Ela se vira para mim com um sorriso malicioso e estala a trava de metal.

Quando a tampa se abre e revela a fantasia ali dentro, um frio gelado corre pela minha espinha.

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