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122. Florescer

last update Date de publication: 2026-09-09 09:25:46

Belinda

Aurora está sozinha, curvada sobre um canteiro. Ela segura um pequeno regador de metal envelhecido, despejando um fio de água sobre uma florzinha silvestre de pétalas miúdas, em um tom azulado suave.

Ao escutar o estalo do cascalho sob as minhas sapatilhas, ela interrompe o movimento devagar e se levanta.

— Essa aqui nasceu teimosa — minha mãe comenta num tom brando, pousando o regador na terra úmida e olhando para as pétalas azuis. — No meio de tanto espinho que tinha por aqui, ela con
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  • Cláusulas para Não se Apaixonar   123. Serviu melhor em você

    LaurenEu poderia perfeitamente ter entregado isso para o Hugo.Poderia ter deixado em cima da bancada da cozinha, jogado na cadeira do escritório de Pablo ou até pedido para uma das funcionárias deixar na vila de Tálita na próxima viagem de suprimentos. Seria limpo, prático e me pouparia de entrar em um carro blindado para chegar até aqui. Mas não. Aqui estou eu, dirigindo um carro emprestado para devolver um casaco.Está lavado. Uma mulher educada devolve as roupas que pega emprestadas e agradece quando não é morta no meio da noite. Ponto. Não há nenhum outro motivo.Estaciono o carro, e passo pela cerca baixa e pela cachorra animada que corre no gramado. Não parece ter ninguém em casa, mas escuto um ruído rítimico de metal contra metal na lateral da casa.Caminho até lá.Rômulo está sozinho perto de uma bancada de ferramentas improvisada. Ele segura uma chave inglesa, ajustando a suspensão de uma moto velha desmontada. Os músculos das costas e dos braços flexionam a cada puxão

  • Cláusulas para Não se Apaixonar   122. Florescer

    BelindaAurora está sozinha, curvada sobre um canteiro. Ela segura um pequeno regador de metal envelhecido, despejando um fio de água sobre uma florzinha silvestre de pétalas miúdas, em um tom azulado suave.Ao escutar o estalo do cascalho sob as minhas sapatilhas, ela interrompe o movimento devagar e se levanta.— Essa aqui nasceu teimosa — minha mãe comenta num tom brando, pousando o regador na terra úmida e olhando para as pétalas azuis. — No meio de tanto espinho que tinha por aqui, ela conseguiu encontrar luz.Paro ao lado dela, encarando a florzinha solitária.— Às vezes as coisas boas nascem onde ninguém espera, mãe.Aurora vira o rosto na minha direção.— Você está bem, minha filha?Respiro fundo, buscando coragem no fundo do peito. Viro o corpo devagar, ficando de frente para ela.— Mãe... eu vim aqui porque preciso te contar uma coisa.Aurora franze as sobrancelhas, atenta à seriedade da minha voz.— O que foi, Belinda? Aconteceu alguma coisa com o Pablo ou na fundação?— Na

  • Cláusulas para Não se Apaixonar   121. Migalhas de atenção

    BelindaPreciso contar para a minha mãe. Depois da conversa que tivemos sobre escolhas, medo e o passado que ela tentou enterrar, sinto que ela merece saber. Cruzo o corredor do térreo em passos calmos e sigo até a ala dos fundos. A porta do quarto de Aurora está apenas encostada. Ergo a mão para bater, mas escuto o som abafado de um choro. Empurro a madeira devagar. Não é a minha mãe sentada na cama. Angélica está encolhida na beirada do colchão, com os ombros curvados para frente e os pés descalços apoiados no tapete. Entre os dedos finos e trêmulos, ela segura um pedaço de papel desgastado nas bordas.Ao ouvir o estalo da porta, ela tenta esconder a foto contra o colo num reflexo rápido, limpando as lágrimas com as costas do antebraço.Pelo movimento, consigo ver a imagem: Adélio em pé na calçada do nosso antigo prédio, vestindo aquela regata puída de sempre e exibindo um relógio dourado no pulso.Fico parada na soleira, sustentando o olhar vermelho e inchado da minha irmã.—

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    BelindaA tela do celular quase cai dos meus dedos quando o grito fino de Lorena explode do outro lado da linha.— MENTIRA! — ela berra, com as mãos espalmadas nas bochechas, os olhos arregalados quase colados na câmera. — Belinda, não brinca com isso! Você tá grávida de verdade?!— Tô, amiga... — respondo, deixando escapar um riso frouxo no meio do choro. — Fiz o teste ontem. Mas hoje... hoje começou o pesadelo. Eu quase vomitei em cima de uma caixa de doces franceses na fundação.O sorriso eufórico de Lorena murcha na hora, sendo substituído por uma careta de pura solidariedade física.— Ai, Bê... nem me fale — ela solta um suspiro pesado, tombando a cabeça contra a almofada do sofá. — Se serve de consolo, eu não tenho um único conselho milagroso para te dar. Eu só tô aguentando firme aqui porque não tem outro jeito.Arregalo os olhos de leve.— Espero que seja diferente com você, mas aqui eu vomito até passar o dia à base de soro por conta da hiperêmese — Lorena desabafa com um ris

  • Cláusulas para Não se Apaixonar   119. Doces franceses

    BelindaApoio os cotovelos sobre a bancada de madeira escura da sala de restauração do segundo andar, com um catálogo de gravuras renascentistas aberto diante de mim. Minhas mãos suam frio contra o papel encorpado. Uma onda quente e enjoativa sobe pelo meu estômago.Do outro lado da mesa, Alejandro confere uma planilha de inventário com a caneta entre os dedos. Os olhos frios do meu tio se desviam dos papéis e cravam no meu rosto com uma lentidão desconfortável. Ele apoia a caneta sobre a madeira com um estalo seco.— Você está verde, sobrinha — a voz dele sai carregada da costumeira arrogância. — E está encarando essa mesma página há quase vinte minutos sem virar uma única folha. Engulo a saliva amarga com esforço, puxando o ar entre os dentes para disfarçar o tremor no queixo.— Apenas o ar abafado da sala, Alejandro — forço uma voz firme, mesmo sentindo a cabeça girar. — As janelas poderiam ficar mais abertas com esse calor.Alejandro estreita as pálpebras, me medindo de cima a b

  • Cláusulas para Não se Apaixonar   118. Você venceu

    BelindaAfasto o meu corpo devagar, descolando minha testa da dele.Olho nos olhos amendoados de Pablo, sentindo o carinho do toque dele ainda queimar na minha pele, mas a firmeza volta aos meus ossos num estalo.— Não, Pablo.O vinco na testa dele reaparece no mesmo segundo, desfazendo a expressão afetuosa.— Belinda...— Eu não vou abrir mão da fundação — digo, a voz soando calma, mas sem margem para recuo. — Eu não vou me trancar aqui dentro.Pablo solta o ar com força pelo nariz. Ele passa a mão na nuca, dando dois passos de lado no escritório antes de se virar para mim com os braços abertos num gesto de incredulidade:— Você ouviu o que eu acabei de falar? Eu não estou te pedindo isso por capricho. Estamos falando de fuzis de guerra na mão dos Conchiglias! De franceses querendo explodir o centro histórico para tomar as rotas! — E eu estou falando de sanidade, Pablo! — elevo o tom, dando um passo à frente. — Você quer me transformar em quem? Na minha mãe? Quer que eu viva com med

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