LOGINA notícia chegou pouco depois das nove da manhã, quando eu ainda estava sentada diante da pequena escrivaninha do quarto, tentando decidir o que fazer com as fotografias que haviam sido entregues junto aos pertences de Léo. Havia passado boa parte da noite acordada, observando aqueles registros de uma vida que parecia ter terminado muito antes de eu receber a notícia de sua morte. Em uma das imagens, meu irmão sorria para a câmera com dois dentes de leite faltando; em outra, aparecia sentado na cama do hospital, segurando o pequeno dinossauro verde que agora permanecia ao meu lado.Quando ouvi as batidas na porta, imaginei que fosse Helena trazendo o café da manhã. Entretanto, ao permitir a entrada, encontrei uma assistente social, acompanhada por uma funcionária da equipe de acolhimento.— Maya, podemos conversar um instante? — perguntou a mulher, mantendo a voz baixa.Afastei as fotografias e assenti, embora a expressão em seu rosto tivesse provocado uma contração imediata no meu es
Acordei com a sensação de que havia esquecido alguma coisa importante. Durante alguns segundos, permaneci imóvel, observando a claridade suave que atravessava as cortinas do quarto. O silêncio era diferente daquele ao qual eu havia me acostumado na mansão de Dominic. Não havia passos pesados do lado de fora, ordens sendo transmitidas por rádios ou o ruído distante de portas de segurança. Apenas o murmúrio discreto de vozes no corredor e o canto de algum pássaro no jardim. Por um instante, não me lembrei de onde estava. Então a memória voltou. O hospital. O inspetor. A chuva. O beco. Léo. Meu peito se contraiu com tanta força que precisei levar a mão até a altura do coração, como se pudesse impedir alguma coisa dentro de mim de se partir novamente. Virei o rosto para o travesseiro e fechei os olhos, tentando me agarrar àquela pequena fração de segundo em que ainda não me lembrava da verdade. Não adiantou. Meu irmão estava morto, e nenhuma quantidade de sono seria capaz de modif
A manhã chegou acompanhada por um céu cinzento e uma dor persistente atrás dos meus olhos.Eu não havia dormido mais do que alguns minutos.Estava sentada na beirada da cama quando três batidas discretas soaram na porta.Meu corpo enrijeceu imediatamente.— Quem é?— Inspetor. Posso entrar?Olhei para a fechadura.— Pode.Ele abriu a porta devagar, carregando uma pasta fina e um copo de café.Seu rosto apresentava sinais evidentes de cansaço.— Bom dia, Maya.Não respondi.Ele colocou o café sobre a escrivaninha.— Como passou a noite?Uma risada amarga escapou da minha garganta.— Meu irmão morreu. Como o senhor acha que eu passei?O inspetor abaixou ligeiramente a cabeça.— Tem razão. Desculpe.O silêncio se prolongou.Ele puxou uma cadeira e se sentou a certa distância.— Não vim exigir um depoimento.Olhei para a pasta em suas mãos.— Então veio fazer o quê?— Conversar sobre os próximos procedimentos. E esclarecer algumas informações que você pediu ontem.Meu peito se contraiu.—
A chuva continuava caindo sobre a cidade quando percebi que já não conseguia distinguir o frio da dor.As gotas escorriam lentamente pelas paredes de tijolos escurecidos do beco, formando pequenos caminhos irregulares entre as rachaduras do concreto antes de desaparecerem nas poças de água suja acumuladas ao redor dos meus sapatos. O cheiro de lixo úmido, ferrugem e asfalto molhado impregnava o ar pesado, misturando-se ao odor distante de combustível que vinha da avenida principal.Eu permanecia sentada no chão, com as costas pressionadas contra a parede gelada e os joelhos apertados contra o peito, tentando ocupar o menor espaço possível naquele mundo que, de repente, parecia grande demais para uma pessoa completamente sozinha.Não sabia quanto tempo havia passado desde que saíra do hospital.Horas, provavelmente.Talvez uma eternidade inteira.O céu escurecera completamente, substituindo a claridade acinzentada da tarde por uma noite sem estrelas, iluminada apenas pelo reflexo amare
O silêncio que se instalou sobre o complexo industrial do Porto das Sombras após a partida dos comboios da Polícia Federal era denso, pesado e carregado com o cheiro residual de pólvora, fumaça de diesel e maresia. As sirenes estridentes dos camburões e das lanchas de patrulha iam se distanciando aos poucos, transformando-se em um zumbido abafado que se perdia no horizonte cinzento da manhã.Lá fora, a neblina oceânica começava a se dissipar sob a luz difusa do sol, revelando a imensidão fria do mar que continuava a golpear impiedosamente os pilares de concreto enferrujados do píer três.Eu permaneci de pé, imóvel, bem no centro daquele cenário de devastação. Meus sapatos afundavam levemente na mistura de lama e água salgada acumulada no chão. O vento gelado da costa chicoteava meus cabelos soltos e fazia a barra da minha jaqueta balançar, mas eu não sentia frio. O que corria pelas minhas veias não era o gelo da altitude ou o terror do cativeiro, mas uma onda febril e incandescente de
A descida pela antiga rota de escoamento de minério era um exercício de vertigem e desespero mecânico. O utilitário blindado despencava pelas curvas fechadas da encosta da serra, os pneus cravando-se com dificuldade na cascalheira solta e na lama deixada pela tempestade da madrugada. As paredes de rocha bruta escarpadamente úmidas passavam como borrões escuros pela janela embaçada, enquanto o motor rugia em rotações altíssimas para conter o peso da blindagem na ladeira íngreme.No banco da frente, Dominic mantinha o corpo rijo, a mão boa firmemente apoiada sobre a coronha da pistola no coldre peitoral, com o olhar cravado no retrovisor e na tela do tablet tático que o mercenário operava com os dedos trêmulos.— Patrão, o sinal de GPS da nossa rota secundária está limpo, mas os satélites de reconhecimento da Polícia Federal estão varrendo o setor norte em varredura térmica — reportou o motorista, o suor escorrendo pela testa em direção ao colarinho.— Se eles acionarem os sensores de c







