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Meu salto quebrou bem na frente da Black Enterprises.
Não é metáfora. O salto literalmente quebrou, me fazendo tropeçar no lobby de mármore mais caro que já vi na vida, com vinte executivos me olhando. Ótimo, Elena. Primeiro dia tentando conseguir o emprego que vai pagar o aluguel atrasado e você já virou meme. Levantei o mais digna possível, tirei o outro salto também e andei descalça até a recepção. A recepcionista loira me olhou de cima a baixo. "Entrevista para assistente pessoal? Décimo andar. Ele já dispensou três hoje." O elevador abriu direto na sala dele. E eu entendi na hora porque dispensou três. Adrian Black não era bonito. Bonito é pouco. Ele era o tipo de homem que fazia você esquecer como respirar. Terno preto impecável, cabelo escuro penteado para trás, mandíbula marcada. E olhos... Deus, os olhos dele eram tão escuros que pareciam pretos. E estavam me encarando com puro gelo. "Você está atrasada e descalça, Srta. Hart?" "Meu salto quebrou. E o trânsito em São Paulo não ajuda. Mas eu sou pontual quando meus sapatos colaboram." Ele arqueou uma sobrancelha. "Seu currículo diz que fala três línguas e tem pós em administração. Por que quer ser assistente?" "Porque meu currículo não paga minhas contas. E porque sou a melhor no que faço." Ele se levantou. Alto. Muito alto. Veio até mim e eu senti o cheiro dele. Algo amadeirado, caro e... diferente. Meu corpo inteiro arrepiou. Ele parou muito perto. Perto demais. Seus olhos desceram para o meu pescoço e eu vi algo mudar neles. As pupilas dilataram. "Você sente esse cheiro?" "Che... cheiro?" "Seu perfume. O que é?" Não era perfume. Eu nem tinha dinheiro para perfume. Ele se inclinou, quase encostando o nariz na minha pele. Meu coração disparou tão alto que eu tive certeza que ele ouviu. "Contratada." "O quê?" "Você começa agora. Meu escritório, 7 da manhã. Não se atrase. E... compre sapatos novos. Desconta do seu primeiro salário." Eu pisquei. "Só assim? Sem mais perguntas?" "Eu já vi o suficiente." Naquela noite, no meu kitnet minúsculo, eu recebi um e-mail. Transferência de R$ 5.000,00 como adiantamento. E uma mensagem curta: "Regra número um: nunca entre no meu escritório depois das 18h sem bater. Regra número dois: nunca faça perguntas sobre o que eu faço à noite. Quebre uma e está demitida. - A. Black" Eu deveria ter achado estranho. Eu deveria ter recusado. Mas meu aluguel estava atrasado há dois meses. O que eu não sabia era que naquele mesmo momento, em um prédio escuro do outro lado da cidade, alguém colocava uma foto minha em uma parede cheia de recortes. E circulava meu rosto com sangue. Meu celular vibrou. Era minha amiga Júlia. "Conseguiu???" Respondi: "Consegui. Mas acho que meu chefe é psicopata." "Psicopata gostoso vale." Eu ri, mas não era piada. Tinha algo muito errado em Adrian Black. A forma como ele me olhou. Como se estivesse com fome. E não era fome de comida. Na manhã seguinte, cheguei às 6:50. Salto novo, comprado parcelado em 3 vezes. O prédio inteiro ainda estava vazio. A porta dele estava entreaberta. Eu lembrei da regra. Nunca entrar depois das 18h sem bater. Mas eram 6:50 da manhã. Era de dia. Bati. Nada. Empurrei um pouco. E congelei. O escritório estava escuro, mesmo com as luzes do prédio acesas. E no chão, perto da janela, tinha uma mancha. Vermelha. Grande. Sangue. Adrian estava de costas para mim, sem camisa. As costas dele... meu Deus, as costas dele eram musculosas, marcadas. E ele estava se curvando, como se estivesse com dor. "Eu disse para não entrar." A voz dele saiu como um rosnado. Não era humana. Quando ele se virou, os olhos dele não eram mais pretos. Eram vermelhos. Vermelho sangue. E duas presas brilhavam na boca dele. Eu deveria ter corrido. Deveria ter gritado. Mas eu não consegui me mexer.Eu acordei com cheiro de sangue. Não era muito. Era uma gota. No travesseiro branco do Adrian. "Adrian?" Eu sentei na cama, assustada. Ele estava de costas, sem camisa. A pele dele, sempre tão perfeita e pálida, tinha uma marca vermelha nas costas. Como se alguém tivesse arranhado. Ele acordou devagar. Vampiros não dormem como humanos. Ele parecia confuso por ter dormido de verdade. "O que foi?" ele perguntou com a voz rouca. "Suas costas..." Ele foi até o espelho. Tocou a marca. O sangue já estava secando. "Valentina esteve aqui." Meu estômago gelou. "Aqui dentro? No seu apartamento? Como?" "Ela tem a digital da cobertura. Eu nunca tirei. Ela entrou enquanto a gente dormia e me marcou. É assim que vampiras puras marcam território quando estão com ciúmes." "Ela te arranhou enquanto você dormia? Isso é doentio!" "Isso é ciúme de 40 anos. Eu e ela ficamos juntos por 40 anos, Elena. Pra ela, você é uma fase de duas semanas." Eu levantei da cama. Peguei a camisa dele do chão
O apartamento do Adrian não era um apartamento. Era um andar inteiro na Faria Lima com vidro do chão ao teto."Elena, você pode ficar à vontade. Aqui ninguém vai te julgar."Eu ainda estava com o vestido que usei para o jantar. O mesmo vestido que a Valentina disse que era "fofo para uma humana".Fui até a janela. São Paulo inteira estava lá embaixo."Você mora aqui sozinho há quanto tempo?" eu perguntei."Desde que me tornei... isso que eu sou. 89 anos. Esse prédio nem existia, eu vi ele ser construído."Ele veio por trás de mim. Não me tocou, só ficou perto o suficiente pra eu sentir o frio dele."Você está tremendo", ele disse."Estou com raiva.""Da Valentina?""De mim. Eu fiquei lá, sorrindo, enquanto ela me humilhava na frente da sua família."Adrian virou meu rosto para ele."Você não sorriu. Você sobreviveu. Nenhuma humana ficou mais de 10 minutos naquela mesa nos últimos 50 anos. Você ficou quase duas horas.""Porque eu segurei sua mão por baixo da mesa.""Exatamente. E é por
O convite chegou às 18h em ponto. Um envelope preto, com letras douradas, deixado na minha mesa por um dos seguranças vampiros do Conselho. Eu nem precisei abrir pra saber o que era. "Cedrico", eu chamei pela porta interligada. "Chegou." Ele saiu da sala dele e pegou o envelope da minha mão. Leu em silêncio. "Jantar do Conselho. Hoje às 21h. Traje formal. Presença obrigatória da marcada", ele leu em voz alta e jogou o envelope na mesa. "Eles querem te testar." "Me testar como?" "Eles querem ver se você realmente não tem medo de nós. Se você aguenta sentar à mesa com 12 vampiros se alimentando", ele se encostou na mesa e ficou sério. "Lina, você não precisa ir se não quiser. Eu posso dizer que você está doente." Eu olhei pra ele. Ele estava tentando me proteger de novo. "Se eu não for, a Valentina vai dizer que eu sou fraca", eu falei. "E eu não sou fraca." Ele sorriu, orgulhoso. "Eu sei que não é." Às 21h, estávamos em um restaurante fechado só para eles na Avenida Paulista.
Meu primeiro dia como assistente executiva direta começou às 7h da manhã e eu já queria pedir demissão. Não por causa do trabalho. Por causa do olhar da Valentina. Eu estava organizando a agenda do Cedrico na nova sala ao lado da dele - que tinha realmente uma porta interligada, como ele prometeu - quando ela entrou sem bater. "Bom dia, _assistente_", ela falou com aquela voz doce que era mais venenosa que qualquer coisa. "Bom dia, Valentina", eu respondi tentando ser profissional. Ela se encostou na minha mesa. "Você acha que ganhou, né? Porque ele te marcou?" "Eu não acho que ganhei nada. Eu só estou trabalhando." "Você não entende nada", ela riu. "A marca não é amor, querida. É instinto. Vampiros marcam o que eles querem possuir. Hoje ele quer você porque você é diferente, humana, cheira a medo e coragem. Amanhã ele enjoa. E eu estarei aqui há 150 anos esperando ele enjoar de todas." Eu senti meu estômago revirar, mas respirei fundo. Ontem eu teria chorado. Hoje, depois do
Eu acordei com o cheiro de café. Abri os olhos devagar e vi Cedrico na cozinha da cobertura. Ele estava de costas, sem camisa, só de calça social, fazendo café na máquina como se fosse a coisa mais normal do mundo. Só que nada nele era normal. A luz da manhã entrava pela frestinha da cortina e batia nas costas dele. "Você não dorme mesmo?", eu perguntei com voz de sono. Ele se virou e sorriu. Os olhos já estavam castanhos de novo, normais. "Eu cochilei. Você dormiu tanto que eu achei que tinha te transformado sem querer." Eu ri e me sentei na cama. Eu ainda estava com o vestido da festa de ontem, todo amassado. "Que horas são?", eu perguntei. "Sete e quinze. Nossa reunião é às oito", ele falou como se nada tivesse acontecido. Eu quase caí da cama. "O QUÊ? Reunião? Cedrico, a gente virou a noite!" "Eu sei. E você está linda mesmo amassada", ele veio até a cama com uma xícara de café. "Mas hoje o Conselho vai estar lá. E a Valentina também. Se a gente não for, eles vão achar qu
O carro de Cedrico voou pelas ruas de São Paulo. Ele dirigia rápido, com uma mão no volante e a outra segurando a minha com força."Para onde a gente vai?", eu perguntei, ainda ofegante da festa."Para um lugar onde ninguém pode nos olhar. Eu estou cansado de dividir você", ele disse e sua voz estava diferente, mais rouca.Ele me levou para um apartamento na cobertura de um prédio na Vila Olímpia. Eu nunca tinha ido lá. Quando a porta abriu, eu vi que o lugar era todo dele. Escuro, chique, com uma vista enorme da cidade."Esse é meu refúgio. Ninguém do Conselho vem aqui", ele me colocou no chão e trancou a porta.A lua de sangue ainda brilhava pela janela gigante."Você foi muito corajosa hoje", ele se aproximou de mim e tirou o casaco. "A maioria das humanas teria chorado ou corrido quando viu a Valentina.""Eu não sou a maioria das humanas", eu falei. "Eu sou sua."Ele sorriu. Aquele sorriso lindo e perigoso que me fez me apaixonar no primeiro dia na empresa."Repete", ele pediu."E







