LOGINEu não dormi.
Como alguém dorme depois de ver dois homens lutando como monstros e um deles pulando do décimo andar e sobrevivendo? Cheguei no meu kitnet na Vila Mariana e tranquei tudo. Porta, janela, até a janela do banheiro. Coloquei a cadeira atrás da porta. Minha bolsa ainda estava com a foto. "ELA É NOSSA." Eu rasguei a foto e joguei no vaso, mas o medo não foi embora. Meu celular vibrou. Mensagem dele. Adrian: Você está segura? Eu: Não sei. Você quebrou minha mesa? Adrian: Marcus quebrou. Eu vou pagar outra. Você trancou a porta? Eu: Sim. Adrian: Não abre para ninguém. Nem para mim. Se eu for até aí, eu aviso antes. Eu fiquei olhando para aquela mensagem. Por que ele não viria? Ele era meu chefe agora. Eu: O que foi aquilo de Sofia? Ele demorou 5 minutos para responder. Os pontinhos apareciam e sumiam. Adrian: Eu te conto amanhã. Tenta dormir. E Elena... olha seu pulso. Meu pulso? Olhei. No meu pulso esquerdo, onde ele tinha segurado minha mão quando furou meu dedo, tinha uma marca. Não era machucado. Era como uma tatuagem muito fina, preta, em formato de um símbolo. Parecia uma lua com um A no meio. O que era aquilo? Eu: O que é isso no meu pulso??? Adrian: É a marca do pacto. Significa que você está sob minha proteção. Qualquer vampiro que olhar vai saber que tocar em você é me declarar guerra. Eu: Vai sair? Adrian: Não. É para sempre. Para sempre. Aquela palavra me deu um arrepio que não era de medo. Era outra coisa. Eu: Você marcou todas suas assistentes assim? Adrian: Você é a primeira humana que eu marco em 100 anos. Meu coração parou. Eu: Por que eu? Adrian: Porque seu sangue não é só raro. Ele é compatível com o meu. Em 300 anos, eu nunca achei alguém compatível. Até você. Compatível. Aquilo soava íntimo demais. Quase sexual. Eu deitei na cama, com a luz acesa. Fiquei olhando para a marca. Ela parecia quente. Pulsava levemente, no mesmo ritmo do meu coração. De madrugada, ouvi um barulho na janela. TAC TAC TAC. Levantei correndo. Na minha janela do quarto, no quarto andar, tinha um homem pendurado. Olhos amarelos. Marcus. Ele sorriu e lambeu o vidro. "Eu posso sentir seu cheiro da rua, Aurora. Você tem um cheiro delicioso quando está com medo." Eu gritei. Ele bateu na janela com força e o vidro rachou. "Seu chefinho não está aqui para te salvar agora, está?" Eu peguei meu celular para ligar para Adrian, mas antes de eu discar, minha marca no pulso começou a queimar. Forte. Brilhou vermelho. Do nada, o vento entrou pelo vão da janela rachada e Marcus foi jogado para trás, como se uma mão invisível tivesse dado um tapa nele. Ele caiu. Do quarto andar. E eu ouvi a risada dele enquanto caía, como se aquilo não fosse nada. Meu celular tocou. Adrian. "Você está bem?!", ele gritou. Sem nem falar oi. "Como você..." "Sua marca. Eu senti quando você teve medo. Ela me chamou. O que aconteceu?" "Seu... seu irmão estava na minha janela." Silêncio. E depois eu ouvi algo quebrando do outro lado da linha. "Eu estou indo até aí. Agora. Não sai de casa." "Você disse para não abrir para ninguém, nem para você." "Para ele. Para mim, você abre. Sempre." Ele desligou. Em 15 minutos, ele estava na minha porta. Como? Ele mora nos Jardins, a 30 minutos daqui. Ele veio voando? Abri a porta. Ele estava sem paletó, só de camisa branca aberta, ofegante. Os olhos vermelhos de novo. Mas não de fome. De raiva. Ele entrou e trancou a porta. Checou minha janela rachada. Passou a mão sobre o vidro e eu vi o vidro se fechar sozinho, como se nunca tivesse rachado. "Como você fez isso?" "Truque velho." Ele se virou para mim. Olhou minha camisola velha, curta. Eu me encolhi. "Você não pode ficar mais aqui", ele disse. "É muito exposto." "Para onde eu vou? Eu não tenho dinheiro para outro lugar." "Você vem morar comigo." O que? "Na sua casa?" "Na cobertura. Tem 4 quartos. Você fica segura lá. Tem proteção. Sangue de vampiro antigo nas paredes. Nenhum vampiro entra sem ser convidado. Nem Marcus." Morar com meu chefe vampiro que bebe sangue e que talvez queira me beber? Parecia a pior e a melhor ideia ao mesmo tempo. "Eu... eu não posso..." "Você pode. É temporário. Até eu resolver o problema do Marcus. E eu vou te pagar o dobro. R$ 10.000,00." Dez mil reais. Eu podia pagar todos os aluguéis atrasados. Podia comprar remédio para minha ansiedade que eu não comprava há 3 meses. "E o que as pessoas vão pensar? Sua assistente morando com você?" "Que você é minha namorada." Meu queixo caiu. "O QUE?" "É a única forma de explicar sua marca sem levantar suspeita no mundo deles. Se você é minha namorada humana, ninguém pode tocar. É lei vampírica. Humana namorada de vampiro é intocável." Namorada de vampiro. Fake. Era clichê de filme. E era perigoso. Mas quando ele chegou perto e segurou meu pulso marcado, e a marca brilhou de novo quando ele tocou, eu senti uma corrente elétrica subir pelo meu braço inteiro. "Você sente?", ele sussurrou. "Sinto." "Isso é o pacto. Ele te liga a mim. E me liga a você. E está ficando mais forte." Ele estava tão perto que eu podia ver as presas dele querendo descer. Mas ele estava se segurando. "Eu aceito", eu disse, sem pensar. "Eu vou morar com você." Ele fechou os olhos, aliviado. "Obrigado." "Mas com uma condição." "Qual?" "Você me conta quem é Sofia. E me promete que não vai me beber sem minha permissão." Ele abriu os olhos. Vermelhos e pretos. Lindos. "Eu prometo que nunca vou beber de você sem você implorar para eu beber. E sobre Sofia... ela era como você. E eu falhei com ela. Eu não vou falhar com você." Ele me abraçou. Foi rápido. Gelado. E protetor. E pela primeira vez naquela noite, eu me senti segura. Mas lá embaixo, na rua, Marcus ainda estava olhando para minha janela, com os olhos amarelos brilhando no escuro, e mandando uma mensagem para alguém: "Encontrei. E ela é mais forte do que pensávamos."Eu acordei com cheiro de sangue. Não era muito. Era uma gota. No travesseiro branco do Adrian. "Adrian?" Eu sentei na cama, assustada. Ele estava de costas, sem camisa. A pele dele, sempre tão perfeita e pálida, tinha uma marca vermelha nas costas. Como se alguém tivesse arranhado. Ele acordou devagar. Vampiros não dormem como humanos. Ele parecia confuso por ter dormido de verdade. "O que foi?" ele perguntou com a voz rouca. "Suas costas..." Ele foi até o espelho. Tocou a marca. O sangue já estava secando. "Valentina esteve aqui." Meu estômago gelou. "Aqui dentro? No seu apartamento? Como?" "Ela tem a digital da cobertura. Eu nunca tirei. Ela entrou enquanto a gente dormia e me marcou. É assim que vampiras puras marcam território quando estão com ciúmes." "Ela te arranhou enquanto você dormia? Isso é doentio!" "Isso é ciúme de 40 anos. Eu e ela ficamos juntos por 40 anos, Elena. Pra ela, você é uma fase de duas semanas." Eu levantei da cama. Peguei a camisa dele do chão
O apartamento do Adrian não era um apartamento. Era um andar inteiro na Faria Lima com vidro do chão ao teto."Elena, você pode ficar à vontade. Aqui ninguém vai te julgar."Eu ainda estava com o vestido que usei para o jantar. O mesmo vestido que a Valentina disse que era "fofo para uma humana".Fui até a janela. São Paulo inteira estava lá embaixo."Você mora aqui sozinho há quanto tempo?" eu perguntei."Desde que me tornei... isso que eu sou. 89 anos. Esse prédio nem existia, eu vi ele ser construído."Ele veio por trás de mim. Não me tocou, só ficou perto o suficiente pra eu sentir o frio dele."Você está tremendo", ele disse."Estou com raiva.""Da Valentina?""De mim. Eu fiquei lá, sorrindo, enquanto ela me humilhava na frente da sua família."Adrian virou meu rosto para ele."Você não sorriu. Você sobreviveu. Nenhuma humana ficou mais de 10 minutos naquela mesa nos últimos 50 anos. Você ficou quase duas horas.""Porque eu segurei sua mão por baixo da mesa.""Exatamente. E é por
O convite chegou às 18h em ponto. Um envelope preto, com letras douradas, deixado na minha mesa por um dos seguranças vampiros do Conselho. Eu nem precisei abrir pra saber o que era. "Cedrico", eu chamei pela porta interligada. "Chegou." Ele saiu da sala dele e pegou o envelope da minha mão. Leu em silêncio. "Jantar do Conselho. Hoje às 21h. Traje formal. Presença obrigatória da marcada", ele leu em voz alta e jogou o envelope na mesa. "Eles querem te testar." "Me testar como?" "Eles querem ver se você realmente não tem medo de nós. Se você aguenta sentar à mesa com 12 vampiros se alimentando", ele se encostou na mesa e ficou sério. "Lina, você não precisa ir se não quiser. Eu posso dizer que você está doente." Eu olhei pra ele. Ele estava tentando me proteger de novo. "Se eu não for, a Valentina vai dizer que eu sou fraca", eu falei. "E eu não sou fraca." Ele sorriu, orgulhoso. "Eu sei que não é." Às 21h, estávamos em um restaurante fechado só para eles na Avenida Paulista.
Meu primeiro dia como assistente executiva direta começou às 7h da manhã e eu já queria pedir demissão. Não por causa do trabalho. Por causa do olhar da Valentina. Eu estava organizando a agenda do Cedrico na nova sala ao lado da dele - que tinha realmente uma porta interligada, como ele prometeu - quando ela entrou sem bater. "Bom dia, _assistente_", ela falou com aquela voz doce que era mais venenosa que qualquer coisa. "Bom dia, Valentina", eu respondi tentando ser profissional. Ela se encostou na minha mesa. "Você acha que ganhou, né? Porque ele te marcou?" "Eu não acho que ganhei nada. Eu só estou trabalhando." "Você não entende nada", ela riu. "A marca não é amor, querida. É instinto. Vampiros marcam o que eles querem possuir. Hoje ele quer você porque você é diferente, humana, cheira a medo e coragem. Amanhã ele enjoa. E eu estarei aqui há 150 anos esperando ele enjoar de todas." Eu senti meu estômago revirar, mas respirei fundo. Ontem eu teria chorado. Hoje, depois do
Eu acordei com o cheiro de café. Abri os olhos devagar e vi Cedrico na cozinha da cobertura. Ele estava de costas, sem camisa, só de calça social, fazendo café na máquina como se fosse a coisa mais normal do mundo. Só que nada nele era normal. A luz da manhã entrava pela frestinha da cortina e batia nas costas dele. "Você não dorme mesmo?", eu perguntei com voz de sono. Ele se virou e sorriu. Os olhos já estavam castanhos de novo, normais. "Eu cochilei. Você dormiu tanto que eu achei que tinha te transformado sem querer." Eu ri e me sentei na cama. Eu ainda estava com o vestido da festa de ontem, todo amassado. "Que horas são?", eu perguntei. "Sete e quinze. Nossa reunião é às oito", ele falou como se nada tivesse acontecido. Eu quase caí da cama. "O QUÊ? Reunião? Cedrico, a gente virou a noite!" "Eu sei. E você está linda mesmo amassada", ele veio até a cama com uma xícara de café. "Mas hoje o Conselho vai estar lá. E a Valentina também. Se a gente não for, eles vão achar qu
O carro de Cedrico voou pelas ruas de São Paulo. Ele dirigia rápido, com uma mão no volante e a outra segurando a minha com força."Para onde a gente vai?", eu perguntei, ainda ofegante da festa."Para um lugar onde ninguém pode nos olhar. Eu estou cansado de dividir você", ele disse e sua voz estava diferente, mais rouca.Ele me levou para um apartamento na cobertura de um prédio na Vila Olímpia. Eu nunca tinha ido lá. Quando a porta abriu, eu vi que o lugar era todo dele. Escuro, chique, com uma vista enorme da cidade."Esse é meu refúgio. Ninguém do Conselho vem aqui", ele me colocou no chão e trancou a porta.A lua de sangue ainda brilhava pela janela gigante."Você foi muito corajosa hoje", ele se aproximou de mim e tirou o casaco. "A maioria das humanas teria chorado ou corrido quando viu a Valentina.""Eu não sou a maioria das humanas", eu falei. "Eu sou sua."Ele sorriu. Aquele sorriso lindo e perigoso que me fez me apaixonar no primeiro dia na empresa."Repete", ele pediu."E







