ログインEu nunca tinha entrado em um lugar tão rico na minha vida.
A cobertura do Adrian ficava na Avenida Faria Lima. Só o elevador já era maior que meu kitnet inteiro. Quando as portas abriram, eu fiquei sem ar. Era tudo vidro, mármore preto e luz baixa. Tinha uma vista de São Paulo inteira. E era frio. Não de ar-condicionado. Frio de vampiro. "Pode ficar tranquila, ninguém vem aqui", ele disse, colocando minha mala de rodinha no chão. Eu só tinha uma mala. Uma mala rosa velha, com uma rodinha quebrada. "Isso aqui é maior que meu bairro inteiro." Ele riu. Pela primeira vez, riu de verdade. "Exagero." "Não é. Minha mãe me ligaria agora falando 'Elena, onde você arrumou dinheiro para isso?'" Ele ficou sério. "Sua mãe... você fala com ela?" "Não. Desde que meu pai morreu. Ela mora no interior de São Paulo. Não nos falamos muito." "Por que?" "Porque eu sou o fracasso da família. A que veio tentar ser escritora em São Paulo e acabou sendo secretária desempregada de vampiro." "Ex-assistente desempregada", ele corrigiu, "agora moradora de cobertura de R$ 15 milhões e namorada falsa de CEO." "Namorada falsa. Isso. Como vai funcionar?" Ele andou até a cozinha. Abriu a geladeira. Estava cheia de bolsas de sangue. Eu engasguei. "Desculpa", ele disse, fechando rápido. "Eu esqueci de esconder." "Você bebe... isso?" "Sim. É de hospital. Eu não caço humanos há 40 anos. Desde a Sofia." Lá estava ela de novo. Sofia. "Você prometeu que ia me contar quem é Sofia." Ele suspirou e sentou no sofá preto. Fez sinal para eu sentar. Eu sentei longe dele, mas a marca no meu pulso esquentou quando fiquei perto, como se quisesse que eu chegasse mais perto. "Sofia foi em 1945. Segunda Guerra. Eu estava na Itália. Ela era enfermeira. O Negativo também. Sangue da Aurora. Como você. Eu amei ela em três dias. Marquei ela como marquei você. E eu achei que conseguia controlar. Mas uma noite, eu tive fome. Muita fome. E eu bebi dela. Um pouco. Ela disse que tudo bem. Mas eu não parei. Quando eu vi, ela estava branca. Fria." Ele olhou para as próprias mãos, como se ainda visse o sangue dela. "Eu matei a única pessoa que eu amei. E por isso meu irmão acha que eu vou te matar também." O silêncio ficou pesado. "Eu não sou Sofia", eu disse baixinho. "Eu sei. Você é mais forte. Eu sinto. Seu sangue... ele não me deixa louco de fome, ele me deixa... calmo. É diferente." Ele se levantou e veio até mim. Ajoelhou na frente do sofá, para ficar da minha altura. "Por isso Marcus quer você. Se ele beber seu sangue, ele pode ficar mais forte que eu. E ele pode andar no sol. Se ele andar no sol, ninguém segura ele." "Ele não pode andar no sol?" "Nenhum de nós pode. Sol nos queima. Mata. Mas o Sangue da Aurora original, se um vampiro beber tudo, dá imunidade por 24 horas. 24 horas no sol é o suficiente para Marcus fazer o que ele quer." "O que ele quer?" "Me matar. E dominar a cidade. Ele quer ser o Rei dos Vampiros de São Paulo." Parecia filme. Mas a cara dele era tão séria que eu acreditei. "Então me proteger não é só sobre mim." "Não. É sobre todo mundo. Se ele te pegar, muita gente morre." Ótimo. Sem pressão nenhuma. "Ok. Então qual é o plano de namorada falsa?" Ele levantou e pegou o celular. "Amanhã tem um jantar de gala. Todos os vampiros importantes de São Paulo vão estar lá. Eu preciso te apresentar como minha namorada. Humana. Marcada. Intocável. Depois disso, ninguém pode te tocar sem me desafiar." "Jantar de gala? Eu não tenho roupa para isso!" "Você vai ter." Ele digitou algo e em 20 minutos, uma mulher chegou na porta com 10 vestidos pendurados. "Oi, sou a Valentina, estilista do Adrian há 50 anos", ela disse. Ela parecia ter 25, mas tinha olhos antigos, amarelos também. Vampira. "50 anos?" "Ele me paga bem", ela piscou. Ela me mediu de cima a baixo. "O Negativo Aurora? Hum... interessante. Você é bem cheirosa. Não se preocupa, querido, eu não mordo meninas comprometidas." Ela me colocou num vestido vermelho, justo, com uma fenda até a coxa. Quando me olhei no espelho do banheiro de mármore, eu não me reconheci. Meu cabelo castanho liso estava com ondas, minha pele pálida brilhava, e a marca no pulso parecia uma joia preta combinando com o vestido. "Meu Deus...", sussurrei. Saí do banheiro. Adrian estava de costas, tomando vinho. Na verdade, não era vinho. Era sangue num copo de vinho. Quando ele se virou e me viu, o copo caiu da mão dele e quebrou no chão. "Elena..." A voz dele saiu rouca. Os olhos dele ficaram vermelhos instantaneamente. Mas não era raiva. Era desejo. Desejo puro. "Você está..." "Ridícula?", eu tentei brincar, sem graça. "Perfeita." Ele andou até mim, devagar, como se eu fosse quebrar. "Posso?", ele perguntou, levantando a mão, mas sem me tocar. Eu assenti. Ele tocou meu rosto. Gelado e quente ao mesmo tempo. "Ninguém vai acreditar que é falso", ele sussurrou. "Por que?" "Porque quando eu olho para você, eu nem preciso fingir." Meu coração disparou tão alto que eu tive certeza que ele ouviu. Porque ele olhou para meu peito e sorriu. "Seu coração..." "Para de ouvir meu coração!" "Não consigo. Ele b**e por mim desde que te vi." Antes que eu pudesse responder, o celular dele tocou. Era Marcus. Ele colocou no viva-voz. "Olá, irmãozinho. Ouvi dizer que vai levar sua nova comidinha para o jantar amanhã. Que romântico. Quero ver de perto se ela é tão gostosa quanto dizem. E Elena, se estiver ouvindo... usa vermelho mesmo. É a cor que fica melhor quando mancha de sangue." A ligação caiu. Adrian quebrou o celular na parede. "Você não vai no jantar", ele disse, de repente. "O que? Você acabou de dizer que eu preciso ir!" "É perigoso demais. Ele vai estar lá." "Você disse que ninguém pode me tocar se eu for sua namorada." "Eu sei o que eu disse!" Ele estava com medo. Pela primeira vez, o grande vampiro CEO de 300 anos estava com medo. Por mim. Eu peguei a mão dele. A marca brilhou forte. "Eu vou. Se é para ser sua namorada falsa, vamos fazer direito. E se seu irmão quer guerra..." Eu olhei nos olhos dele, vermelhos, e não tive medo. "Ele vai ter guerra." Adrian me olhou por 3 segundos e depois me puxou e me beijou. Não foi um beijo falso. Foi um beijo faminto, gelado, desesperado. E eu beijei de volta, porque eu queria. Quando nos separamos, minha boca estava gelada e meu pulso queimava. "Isso não foi parte do acordo de namorada falsa", eu sussurrei. "Não", ele disse, encostando a testa na minha. "Isso foi real."Eu acordei com cheiro de sangue. Não era muito. Era uma gota. No travesseiro branco do Adrian. "Adrian?" Eu sentei na cama, assustada. Ele estava de costas, sem camisa. A pele dele, sempre tão perfeita e pálida, tinha uma marca vermelha nas costas. Como se alguém tivesse arranhado. Ele acordou devagar. Vampiros não dormem como humanos. Ele parecia confuso por ter dormido de verdade. "O que foi?" ele perguntou com a voz rouca. "Suas costas..." Ele foi até o espelho. Tocou a marca. O sangue já estava secando. "Valentina esteve aqui." Meu estômago gelou. "Aqui dentro? No seu apartamento? Como?" "Ela tem a digital da cobertura. Eu nunca tirei. Ela entrou enquanto a gente dormia e me marcou. É assim que vampiras puras marcam território quando estão com ciúmes." "Ela te arranhou enquanto você dormia? Isso é doentio!" "Isso é ciúme de 40 anos. Eu e ela ficamos juntos por 40 anos, Elena. Pra ela, você é uma fase de duas semanas." Eu levantei da cama. Peguei a camisa dele do chão
O apartamento do Adrian não era um apartamento. Era um andar inteiro na Faria Lima com vidro do chão ao teto."Elena, você pode ficar à vontade. Aqui ninguém vai te julgar."Eu ainda estava com o vestido que usei para o jantar. O mesmo vestido que a Valentina disse que era "fofo para uma humana".Fui até a janela. São Paulo inteira estava lá embaixo."Você mora aqui sozinho há quanto tempo?" eu perguntei."Desde que me tornei... isso que eu sou. 89 anos. Esse prédio nem existia, eu vi ele ser construído."Ele veio por trás de mim. Não me tocou, só ficou perto o suficiente pra eu sentir o frio dele."Você está tremendo", ele disse."Estou com raiva.""Da Valentina?""De mim. Eu fiquei lá, sorrindo, enquanto ela me humilhava na frente da sua família."Adrian virou meu rosto para ele."Você não sorriu. Você sobreviveu. Nenhuma humana ficou mais de 10 minutos naquela mesa nos últimos 50 anos. Você ficou quase duas horas.""Porque eu segurei sua mão por baixo da mesa.""Exatamente. E é por
O convite chegou às 18h em ponto. Um envelope preto, com letras douradas, deixado na minha mesa por um dos seguranças vampiros do Conselho. Eu nem precisei abrir pra saber o que era. "Cedrico", eu chamei pela porta interligada. "Chegou." Ele saiu da sala dele e pegou o envelope da minha mão. Leu em silêncio. "Jantar do Conselho. Hoje às 21h. Traje formal. Presença obrigatória da marcada", ele leu em voz alta e jogou o envelope na mesa. "Eles querem te testar." "Me testar como?" "Eles querem ver se você realmente não tem medo de nós. Se você aguenta sentar à mesa com 12 vampiros se alimentando", ele se encostou na mesa e ficou sério. "Lina, você não precisa ir se não quiser. Eu posso dizer que você está doente." Eu olhei pra ele. Ele estava tentando me proteger de novo. "Se eu não for, a Valentina vai dizer que eu sou fraca", eu falei. "E eu não sou fraca." Ele sorriu, orgulhoso. "Eu sei que não é." Às 21h, estávamos em um restaurante fechado só para eles na Avenida Paulista.
Meu primeiro dia como assistente executiva direta começou às 7h da manhã e eu já queria pedir demissão. Não por causa do trabalho. Por causa do olhar da Valentina. Eu estava organizando a agenda do Cedrico na nova sala ao lado da dele - que tinha realmente uma porta interligada, como ele prometeu - quando ela entrou sem bater. "Bom dia, _assistente_", ela falou com aquela voz doce que era mais venenosa que qualquer coisa. "Bom dia, Valentina", eu respondi tentando ser profissional. Ela se encostou na minha mesa. "Você acha que ganhou, né? Porque ele te marcou?" "Eu não acho que ganhei nada. Eu só estou trabalhando." "Você não entende nada", ela riu. "A marca não é amor, querida. É instinto. Vampiros marcam o que eles querem possuir. Hoje ele quer você porque você é diferente, humana, cheira a medo e coragem. Amanhã ele enjoa. E eu estarei aqui há 150 anos esperando ele enjoar de todas." Eu senti meu estômago revirar, mas respirei fundo. Ontem eu teria chorado. Hoje, depois do
Eu acordei com o cheiro de café. Abri os olhos devagar e vi Cedrico na cozinha da cobertura. Ele estava de costas, sem camisa, só de calça social, fazendo café na máquina como se fosse a coisa mais normal do mundo. Só que nada nele era normal. A luz da manhã entrava pela frestinha da cortina e batia nas costas dele. "Você não dorme mesmo?", eu perguntei com voz de sono. Ele se virou e sorriu. Os olhos já estavam castanhos de novo, normais. "Eu cochilei. Você dormiu tanto que eu achei que tinha te transformado sem querer." Eu ri e me sentei na cama. Eu ainda estava com o vestido da festa de ontem, todo amassado. "Que horas são?", eu perguntei. "Sete e quinze. Nossa reunião é às oito", ele falou como se nada tivesse acontecido. Eu quase caí da cama. "O QUÊ? Reunião? Cedrico, a gente virou a noite!" "Eu sei. E você está linda mesmo amassada", ele veio até a cama com uma xícara de café. "Mas hoje o Conselho vai estar lá. E a Valentina também. Se a gente não for, eles vão achar qu
O carro de Cedrico voou pelas ruas de São Paulo. Ele dirigia rápido, com uma mão no volante e a outra segurando a minha com força."Para onde a gente vai?", eu perguntei, ainda ofegante da festa."Para um lugar onde ninguém pode nos olhar. Eu estou cansado de dividir você", ele disse e sua voz estava diferente, mais rouca.Ele me levou para um apartamento na cobertura de um prédio na Vila Olímpia. Eu nunca tinha ido lá. Quando a porta abriu, eu vi que o lugar era todo dele. Escuro, chique, com uma vista enorme da cidade."Esse é meu refúgio. Ninguém do Conselho vem aqui", ele me colocou no chão e trancou a porta.A lua de sangue ainda brilhava pela janela gigante."Você foi muito corajosa hoje", ele se aproximou de mim e tirou o casaco. "A maioria das humanas teria chorado ou corrido quando viu a Valentina.""Eu não sou a maioria das humanas", eu falei. "Eu sou sua."Ele sorriu. Aquele sorriso lindo e perigoso que me fez me apaixonar no primeiro dia na empresa."Repete", ele pediu."E







