LOGINEngoli o nó que se formou em minha garganta, sufocando-me a cada segundo. Não era o momento de entrar em pânico. Joguei o ar para dentro dos meus pulmões e controlei o tremor que se alastrou por todo o meu corpo.
— Impossível nos conhecermos — meu olhar estava em meus pés, longe do olhar curioso dele —, essa é a primeira vez que vejo o senhor, mas as pessoas costumam dizer que o meu rosto é bastante familiar.
O ranger da cadeira me assustou. Levantei o olhar rapidamente quando o vi arrumar o paletó e caminhar lentamente em minha direção. Meu instinto de fuga fluiu dentro de mim, mas resisti a ele. Eu o encarei e esperei que ele dissesse qualquer coisa.
— Onde está sua filha? — Ele desviou o olhar para além de mim, depois voltou a me encarar com um olhar desafiador.
— Ela… não está aqui — minha voz falhou, o pânico prestes a me dominar outra vez —, ela está com minha mãe.
Ele vasculhou meu rosto como se tentasse me entender ou descobrir quem eu era de verdade. Sua mandíbula travou, seu rosto se tornou ainda mais sombrio.
— Por que eu contrataria uma mulher que não cuida da própria filha? — Ele virou as costas para mim, sua voz rouca e tensa ecoando pela enorme sala. — Se sua filha está com sua mãe, significa que você não conseguiu cuidar dela sozinha.
— Não é isso… — balancei a cabeça francamente, lágrimas perto de serem derramadas —, o que quero dizer é que precisei deixá-la com alguém para vir a essa entrevista. Preciso desse emprego para oferecer a ela uma vida melhor.
— Acha justo abandonar a sua filha para cuidar da filha de outra pessoa?
Um choque percorreu meu corpo com a pergunta dele. Eu deveria ter planejado essa parte. Eu deveria ter pensado com cuidado no que diria a ele. Gabriel não queria me dar aquele emprego; ele era astuto, inteligente demais para contratar qualquer pessoa, e quando olhei nos olhos dele outra vez, tive certeza disso, mas eu o convenceria a me dar essa chance.
— Sei exatamente o que o senhor deve estar pensando — estiquei a coluna, deixando-a o mais ereta possível, ergui o queixo e o encarei com confiança, ainda que meus joelhos tremessem descontroladamente —, o meu marido me traiu e fugiu com sua amante, me deixando na ruína. Ele tirou de mim tudo o que eu tinha. Se eu não conseguir um emprego, posso perder minha filha para sempre. Ficar em casa cuidando dela não é uma opção.
Minha respiração falhou quando ele desviou o olhar. Ele caminhou outra vez em minha direção, passou na minha frente como se eu não fosse nada e voltou a sentar em sua cadeira.
Soltei o ar devagar. Nem tudo o que eu falava era uma mentira, mas eu não fazia ideia se o Gabriel acreditaria em minhas palavras; seu rosto não exibia nenhum sentimento.
Ele se recostou na cadeira giratória, os braços relaxados ao redor do assento, os lábios tensos, nenhum sorriso. Ele não falou nada por longos segundos. Apenas me observou, como se eu fosse um objeto a ser estudado. Eu me obriguei a manter o olhar fixado no dele pelo tempo que precisasse.
O pânico aumentou dentro de mim. Eu sentia que havia feito tudo errado. Três longos anos esperando por esse momento para perder tudo por uma história mal planejada.
— Esteja na porta desse prédio amanhã, às seis horas — sua voz cortou a tensão dentro de mim, me fazendo prender a respiração —, nem um minuto a mais.
— O que o senhor quer dizer? — Minha voz tremeu; entendi perfeitamente o que significavam suas palavras, mas eu queria ter certeza. Eu precisava ouvi-lo dizer outra vez.
— Que você está contratada — ele se levantou e caminhou em direção à porta, sem olhar para mim. — Você é a babá da minha filha e espero realmente que não me faça me arrepender dessa decisão.
Vi o exato momento em que ele me deixou na sala completamente sozinha, antes que as lágrimas inundassem meus olhos e embaçassem minha visão. Caí de joelhos no mármore gelado. O barulho dos meus ossos estalando se misturou com os gemidos que fui obrigada a abafar. Eu consegui, e pareceu tão aterrorizante por um momento que duvidei da minha própria capacidade.
Eu me inclinei de joelhos e deixei que minhas lágrimas molhassem o chão. Aquele era o momento que eu havia esperado por anos. O momento em que eu recuperaria tudo o que havia sido roubado de mim.
— Senhorita Scarlat — uma mão leve tocou meu ombro —, a senhora está bem? Não pode ficar aqui.
Ergui-me rapidamente, olhando para a recepcionista que havia me atendido minutos antes. Enxuguei minhas lágrimas antes de me erguer por completo, limpando minhas mãos na saia amassada. Olhei para a mulher novamente enquanto ela estendia um documento em minha direção.
— O senhor Gabriel pediu para entregar isso à senhora — estiquei os olhos para o documento —, é o contrato de trabalho. Precisa assiná-lo ainda hoje.
Eu não me importava com as cláusulas escritas naquele documento, quais regras eu teria que seguir ou se pagaria multa contratual em algum momento. Agarrei a caneta que estava nas mãos dela e, com a outra mão trêmula, segurei o papel. Folheei o documento, indo até a última página sem ler nenhuma linha, e o assinei.
O olhar assustado da mulher me percorreu quando entreguei o documento assinado e saí.
Eu não tinha mais nada a perder, e eu pagaria qualquer preço para ter minha filha de volta.
POV ClariceGabriel estava apaixonado?Ele estava se declarando para mim?Eu olhei para ele com os olhos vidrados, sem conseguir desviar a atenção nem um segundo sequer. Eu não me lembrava da última vez que um homem havia declarado interesse por mim; isso havia acontecido anos antes de me casar com o Murilo.Foi inevitável não lembrar do Murilo, mesmo que essa lembrança durasse apenas poucos segundos. Eu o amava tão loucamente, eu sonhei tantas vezes ouvi-lo dizer que também me amava, mas no final recebi um veneno injetado em minhas veias em troca de tanto amor.Um frio percorreu minha espinha. Eu me encolhi.Eu abri os lábios, mas nenhum som saiu de dentro deles. Eu não sabia o que dizer, nem mesmo o que pensar; eu só sentia meu coração bater tão forte até minhas costelas doerem.Eu queria correr para longe dali, quando uma figura pequena saiu do elevador e veio correndo em nossa direção. Charlotte agarrou as pernas do Gabriel com tanta força que a tensão e expectativa no rosto dele
POV GabrielEu fui ansioso até o restaurante do hotel no primeiro andar.Eu pagaria bem por um jantar de gala particular por aquela noite. Os funcionários não reclamaram, o dono do hotel concordou e eu estava pronto para oferecer a Scarlet uma noite inesquecível.Ela não quis sair do quarto a noite inteira. Ela dizia que sentia muitas dores, ainda estava se recuperando do acidente. Ainda que fosse um pouco verdadeiro, eu sabia que ela usava isso como desculpa para não me ver.Eu ainda tentava entender por que ela fugia de mim, por que ela ainda se escondia atrás dos seus segredos. Eu não conseguia imaginar nada tão grave que pudesse me decepcionar com ela.Uma babá que contratei quando cheguei preparava Charlotte para a noite. Quando olhei para minha filha, lembrei o quanto Scarlet gostava de Charlotte. Ela seria o motivo que eu conseguiria para arrancar Skay daquele maldito quarto.Meu coração começou a disparar quando parei em frente à porta do quarto dela. Eu tinha acesso livre, ai
POV GabrielVoltei para o quarto, para o lugar onde Charlotte pulava sobre a cama como se o lugar fosse um parque de diversões. Pelo menos ela estava distraída. Ela se divertia porque não tinha problemas de adultos para resolver.Caminhei até o banheiro e observei meu reflexo no espelho.Meu rosto estava contorcido de raiva. Eu não conseguia parar de pensar em Scarlet nem por um minuto, e aquilo estava me deixando louco. Não estava nos meus planos ser atraído pela babá da minha filha, como também eu não planejava me casar com ela.Desde o primeiro dia em que coloquei os olhos nela, eu sabia que tinha algo de diferente e agora eu não conseguia desviar o olhar.Ela me rejeitava; ela me lembrava a cada segundo do nosso acordo. Ela criara uma barreira entre nós dois, me impedindo de continuar.Meu celular vibrou no bolso da calça. Voltei à realidade. Virei as costas para o espelho e me encostei na pia, olhando diretamente para o vaso sanitário, antes de atender a ligação. A voz do Henry s
POV ClariceO ar dentro do avião particular era difícil de respirar. Charlotte dormia ao meu lado tão lindamente que nem mesmo a turbulência me fazia parar de olhar para ela, nem mesmo por um segundo.Quando eu contasse a ela que eu era sua mãe, como ela reagiria?Eu fiquei pensando nisso por minutos longos demais enquanto o silêncio no avião parecia preocupante. Todos estavam dormindo, menos eu.Meu estômago se revirou em um nó apertado quando olhei para o Gabriel. Ele não parecia nem um pouco o CEO implacável de quem eu costumava ouvir falar nas rodas de conversa quando eu era uma grande empresária. Ele era diferente de tudo o que eu poderia imaginar.Eu precisava desse casamento tanto quanto ele e certamente nós dois acreditávamos que seria apenas um contrato, mas eu estava com os olhos parados tempo demais em cima dele, observando seu peito subindo e descendo e lembrando das inúmeras vezes em que ele foi gentil e amoroso comigo, fazendo um sorriso idiota surgir em meu rosto.Exata
POV ClariceGabriel entrou no carro enquanto pedia para o motorista colocar minhas coisas no porta-malas e dizia para dirigir para casa. Imediatamente meu corpo gelou.Eu toquei a maçaneta e foi como se a história se repetisse: meu corpo sendo projetado para trás, o calor, as faíscas.— Você está bem? — As mãos dele segurando meu ombro me fizeram encolher. Era a mesma sensação que eu sentia quando alguém furava meu braço com uma agulha.Era o veneno percorrendo o meu corpo na mesma velocidade que o fogo me atingia.— Tudo bem — eu disse, mas meu corpo quase não me obedeceu.Entrei no carro e agarrei o estofado, fechando os olhos. Precisei repetir para mim mesma que não aconteceria outra vez. Ainda assim me assustei quando Gabriel entrou do outro lado, fechando a porta, e o carro ganhou movimento.— O que aconteceu com o segurança? — eu perguntei e ele não entendeu. Sua testa franziu. — O homem que estava comigo no dia do acidente.Ele abriu os lábios, seu rosto ganhando traços signifi
POV ClariceUm riso nervoso escapou da minha garganta, rasgando-a em dois pedaços.— É apenas uma coincidência — eu tentei parar de rir, mas não consegui —, quer dizer, todos nós temos alguém parecido com a gente em algum lugar do mundo.Gabriel parou de pentear meus cabelos por um momento. Suas mãos congelaram no ar e eu me arrependi no mesmo segundo por ter dito aquilo; pior ainda, ter dito no intervalo de tempo longo entre uma resposta e outra.Por que eu não fiquei calada?Por que não mantive minha maldita boca fechada?— Pode ser que você esteja certa — a mão dele voltou a deslizar pelos meus cabelos na mesma velocidade que meu coração batia —, mas eu desconfiaria disso se não soubesse que a mãe da Charlotte morreu no parto.Droga! Fechei os olhos com força. Eu queria desaparecer ou, melhor, fazer o Gabriel desaparecer. Eu estava esticando a corda sabendo que uma hora ou outra ela iria arrebentar exatamente para o meu lado.— Falando sobre a Charlotte, eu disse a ela que nos casa







