Mag-log inMeus dedos, ainda segurando o jornal, começaram a tremer. Eu olhei para o rosto do homem, para a fotografia impressa que não revelava totalmente sua beleza, quando minhas lágrimas caíram sobre o papel e eu o amassei com minhas mãos suadas.
— Por que Gabriel Lancaster iria querer adotar a minha filha? — eu sussurrei. — E por que você demorou seis semanas para me contar sobre isso?
— A notícia chegou em minhas mãos hoje de manhã. — Ele passou a mão sobre o rosto. — Você não deveria ter se demitido, vai precisar desse emprego para pagar o meu salário.
A voz do detetive era distante, profissional. Ele suspirou, aquele som familiar de decepção que eu havia escutado tantas vezes. Apagou o cigarro e olhou para mim enquanto jogava a fumaça para longe.
— Não vou precisar — minhas mãos não paravam de tremer quando peguei novamente o jornal e o abri para mostrar a ele —, o pai adotivo da minha filha está procurando uma babá. Eu vou me candidatar ao cargo.
— Você está ficando louca, Skay — ele sorriu, ajeitou a gravata surrada, azul, que eu tinha dado para ele e, em seguida, disse: — E depois que se tornar babá da sua própria filha, vai fazer o que? Vai levá-la embora?
— Não é uma péssima ideia.
— Estamos falando de um bilionário — eu não quis olhar nos olhos dele enquanto me dava uma bronca —, tudo bem, eu não devo me importar. Eu sou seu detetive, e minha missão acaba aqui. O que você fizer a partir de agora não é da minha conta.
Uma risada borbulhou, áspera e estranha: — Quanta gentileza a sua. Mas eu agradeço por ter encontrado-a.
— Ainda vamos nos ver, Skay, você ainda está me devendo — o sorriso dele se alargou um milímetro quando ele se afastou, entrando no carro e indo embora.
Ele me deixou sozinha no meio da noite em uma rodovia deserta. Parada no ponto de ônibus, eu deixei meu corpo desabar para trás. Eu finalmente encontrei minha filha; depois de três longos anos de busca, eu deveria estar feliz, mas eu só conseguia pensar em Gabriel Lancaster sendo pai adotivo da minha filha.
Isso chamou minha atenção. Ele era famoso no mundo dos negócios como um homem frio e arrogante. Eu nunca havia cruzado o seu caminho; as empresas da minha família evitavam fazer negócios com ele pela péssima fama e o comportamento hostil. Agora eu teria que me meter na vida dele para ter minha vida de volta.
Quando voltei para o apartamento alugado, arrumei minhas malas. Deixei as chaves na recepção com o pagamento do mês e fui embora. Menos de cem quilômetros me separavam dela; ela estava tão perto esse tempo todo que não imaginei que poderia alcançá-la tão facilmente. Meu estômago estremeceu quando entrei no metrô que me levaria para a próxima estação.
Li o recorte de jornal surrado mais de vinte vezes enquanto viajava ao meu destino. Gabriel estava procurando uma babá e a entrevista aconteceria no seu escritório no centro da cidade. Olhei para a roupa que vestia e soube que não poderia me apresentar daquela forma. A primeira coisa que faria era comprar roupas novas.
Eu precisava desse emprego e, depois que o conseguisse, eu pensaria em um jeito seguro de tirar minha filha do domínio daquele homem.
Minhas mãos tremiam quando desci na última estação. Eu fiquei parada em frente ao prédio por dez minutos. Comprei a melhor roupa que consegui com as economias que tinha guardado por anos. Eu precisava ser cautelosa e convencer o Gabriel a me contratar como babá da minha filha. Essa era a missão da minha vida a partir daquele momento.
O medo queimou quente no meu peito quando cheguei no saguão indicado pela recepcionista. Havia pelo menos vinte mulheres à minha frente, bem vestidas, com seus currículos em mãos, lutando por aquela vaga. Eu não poderia deixar que nenhuma delas vencesse.
Aos poucos a fila avançava. Logo atrás de mim, duas mulheres conversavam e eu não consegui não ouvir o que elas diziam.
— Dizem que ele é um carrasco, que nenhuma babá suportou mais de um mês na casa dele — uma delas disse.
— Mas ele é lindo e muito rico — a outra suspirou —, não sei por que ainda não casou depois da morte da primeira esposa dele.
Eu lutei para não revirar os olhos com a desconexão dos comentários. Tentei focar apenas na minha missão de convencer o Gabriel de que eu seria a melhor opção diante de outras cem. Meu coração acelerava a cada passo que eu dava rumo à sala de entrevistas, imaginando que ela poderia estar ali dentro, que eu a veria depois de três longos anos.
— Próxima! — a voz da mulher à minha frente se elevou enquanto ela estendia a mão para pegar meus documentos. Minha garganta arranhou quando ela segurou minha identidade falsa. Eu não havia pensado na possibilidade de ser descoberta. Por longos segundos, tudo o que ouvi foram meus batimentos cardíacos enquanto ela olhava minha foto e se certificava de que eu era a pessoa que dizia ser.
— Senhora Scarlat, já pode entrar — ela indicou a porta ao lado, devolveu meus documentos e sorriu para mim. — Boa sorte, você vai precisar.
Soltei o ar que havia prendido. meus pulmões queimaram. Eu congelei quando parei em frente à porta trancada à minha frente. Meu coração batendo descontroladamente. Eu já havia lidado com homens iguais ao Gabriel no mundo dos negócios, eu havia feito acordos com muitos deles, mas eu estava apavorada com o que encontraria ali dentro. Eu estava ansiosa por reencontrar minha filha.
Girei a maçaneta enquanto empurrava a porta. O ar gelado da sala invadiu meu rosto. Meu olhar automaticamente deslizou para ele. Cabelos dourados, dentes brancos e perfeitamente alinhados, olhos negros penetrantes e um rosto sombrio que valia milhões de dólares.
Gabriel Lancaster, o pai adotivo da minha filha.
— Aproxime-se, senhora Scarlat. — Meus olhos percorreram a sala; nenhum sinal de criança por perto, nenhum brinquedo jogado, nada que indicasse que minha filha estivesse ali.
— Por que eu devo contratá-la? — ele perguntou quando me virei de repente e nossos olhos se encontraram.
— O que? — Não era a pergunta a se fazer e esse foi o meu pior erro.
— Resposta errada — ele disse, amassando o meu currículo e o jogando aos meus pés. — Pode chamar a próxima candidata.
— Nenhuma opção lá fora será melhor que eu — a resposta saiu rápida e segura, o que fez ele erguer o olhar novamente e dedicar toda a sua atenção a mim. — Eu sou mãe de uma menina com a idade da sua filha. As mulheres que estão lá fora não querem cuidar de uma criança, elas estão interessadas em você.
Ele arqueou a sobrancelha, continuou em silêncio me encarando.
— Tenho a impressão de que a conheço de algum lugar — seus olhos se estreitaram e ele me encarou por longos segundos. — Será que já não nos vimos antes, senhorita Scarlat?
Meu sangue gelou em minhas veias. Eu não estava preparada para aquilo.
POV ClariceGabriel estava apaixonado?Ele estava se declarando para mim?Eu olhei para ele com os olhos vidrados, sem conseguir desviar a atenção nem um segundo sequer. Eu não me lembrava da última vez que um homem havia declarado interesse por mim; isso havia acontecido anos antes de me casar com o Murilo.Foi inevitável não lembrar do Murilo, mesmo que essa lembrança durasse apenas poucos segundos. Eu o amava tão loucamente, eu sonhei tantas vezes ouvi-lo dizer que também me amava, mas no final recebi um veneno injetado em minhas veias em troca de tanto amor.Um frio percorreu minha espinha. Eu me encolhi.Eu abri os lábios, mas nenhum som saiu de dentro deles. Eu não sabia o que dizer, nem mesmo o que pensar; eu só sentia meu coração bater tão forte até minhas costelas doerem.Eu queria correr para longe dali, quando uma figura pequena saiu do elevador e veio correndo em nossa direção. Charlotte agarrou as pernas do Gabriel com tanta força que a tensão e expectativa no rosto dele
POV GabrielEu fui ansioso até o restaurante do hotel no primeiro andar.Eu pagaria bem por um jantar de gala particular por aquela noite. Os funcionários não reclamaram, o dono do hotel concordou e eu estava pronto para oferecer a Scarlet uma noite inesquecível.Ela não quis sair do quarto a noite inteira. Ela dizia que sentia muitas dores, ainda estava se recuperando do acidente. Ainda que fosse um pouco verdadeiro, eu sabia que ela usava isso como desculpa para não me ver.Eu ainda tentava entender por que ela fugia de mim, por que ela ainda se escondia atrás dos seus segredos. Eu não conseguia imaginar nada tão grave que pudesse me decepcionar com ela.Uma babá que contratei quando cheguei preparava Charlotte para a noite. Quando olhei para minha filha, lembrei o quanto Scarlet gostava de Charlotte. Ela seria o motivo que eu conseguiria para arrancar Skay daquele maldito quarto.Meu coração começou a disparar quando parei em frente à porta do quarto dela. Eu tinha acesso livre, ai
POV GabrielVoltei para o quarto, para o lugar onde Charlotte pulava sobre a cama como se o lugar fosse um parque de diversões. Pelo menos ela estava distraída. Ela se divertia porque não tinha problemas de adultos para resolver.Caminhei até o banheiro e observei meu reflexo no espelho.Meu rosto estava contorcido de raiva. Eu não conseguia parar de pensar em Scarlet nem por um minuto, e aquilo estava me deixando louco. Não estava nos meus planos ser atraído pela babá da minha filha, como também eu não planejava me casar com ela.Desde o primeiro dia em que coloquei os olhos nela, eu sabia que tinha algo de diferente e agora eu não conseguia desviar o olhar.Ela me rejeitava; ela me lembrava a cada segundo do nosso acordo. Ela criara uma barreira entre nós dois, me impedindo de continuar.Meu celular vibrou no bolso da calça. Voltei à realidade. Virei as costas para o espelho e me encostei na pia, olhando diretamente para o vaso sanitário, antes de atender a ligação. A voz do Henry s
POV ClariceO ar dentro do avião particular era difícil de respirar. Charlotte dormia ao meu lado tão lindamente que nem mesmo a turbulência me fazia parar de olhar para ela, nem mesmo por um segundo.Quando eu contasse a ela que eu era sua mãe, como ela reagiria?Eu fiquei pensando nisso por minutos longos demais enquanto o silêncio no avião parecia preocupante. Todos estavam dormindo, menos eu.Meu estômago se revirou em um nó apertado quando olhei para o Gabriel. Ele não parecia nem um pouco o CEO implacável de quem eu costumava ouvir falar nas rodas de conversa quando eu era uma grande empresária. Ele era diferente de tudo o que eu poderia imaginar.Eu precisava desse casamento tanto quanto ele e certamente nós dois acreditávamos que seria apenas um contrato, mas eu estava com os olhos parados tempo demais em cima dele, observando seu peito subindo e descendo e lembrando das inúmeras vezes em que ele foi gentil e amoroso comigo, fazendo um sorriso idiota surgir em meu rosto.Exata
POV ClariceGabriel entrou no carro enquanto pedia para o motorista colocar minhas coisas no porta-malas e dizia para dirigir para casa. Imediatamente meu corpo gelou.Eu toquei a maçaneta e foi como se a história se repetisse: meu corpo sendo projetado para trás, o calor, as faíscas.— Você está bem? — As mãos dele segurando meu ombro me fizeram encolher. Era a mesma sensação que eu sentia quando alguém furava meu braço com uma agulha.Era o veneno percorrendo o meu corpo na mesma velocidade que o fogo me atingia.— Tudo bem — eu disse, mas meu corpo quase não me obedeceu.Entrei no carro e agarrei o estofado, fechando os olhos. Precisei repetir para mim mesma que não aconteceria outra vez. Ainda assim me assustei quando Gabriel entrou do outro lado, fechando a porta, e o carro ganhou movimento.— O que aconteceu com o segurança? — eu perguntei e ele não entendeu. Sua testa franziu. — O homem que estava comigo no dia do acidente.Ele abriu os lábios, seu rosto ganhando traços signifi
POV ClariceUm riso nervoso escapou da minha garganta, rasgando-a em dois pedaços.— É apenas uma coincidência — eu tentei parar de rir, mas não consegui —, quer dizer, todos nós temos alguém parecido com a gente em algum lugar do mundo.Gabriel parou de pentear meus cabelos por um momento. Suas mãos congelaram no ar e eu me arrependi no mesmo segundo por ter dito aquilo; pior ainda, ter dito no intervalo de tempo longo entre uma resposta e outra.Por que eu não fiquei calada?Por que não mantive minha maldita boca fechada?— Pode ser que você esteja certa — a mão dele voltou a deslizar pelos meus cabelos na mesma velocidade que meu coração batia —, mas eu desconfiaria disso se não soubesse que a mãe da Charlotte morreu no parto.Droga! Fechei os olhos com força. Eu queria desaparecer ou, melhor, fazer o Gabriel desaparecer. Eu estava esticando a corda sabendo que uma hora ou outra ela iria arrebentar exatamente para o meu lado.— Falando sobre a Charlotte, eu disse a ela que nos casa







