LOGINTrês anos se passaram… três malditos anos, tão devagar que eu mal consegui viver.
Empurrei a porta enquanto equilibrava os copos de cerveja para não deixar nenhuma gota cair. Eu havia feito isso tantas vezes que estava acostumada a desviar dos caras bêbados que sempre apareciam para dificultar o meu trabalho.
A música alta se misturava com o cheiro insuportável de urina e suor.
Profissional, composta. Foi o que fui durante três anos, trabalhando como garçonete e economizando quase todo o meu salário para um futuro que eu ainda sonhava com minha filha desaparecida. Depois que saí do hospital, recusei qualquer ajuda do médico que tentou me assassinar. Ele viveria o resto da vida com dúvidas, temendo o meu próximo passo, sem saber se eu o entregaria ou não a policia.De herdeira milionária a garçonete em um bar na beira da estrada e com identidade falsa. Essa não era a vida que sonhei para mim.
— Skay, você esqueceu minha bebida — o homem do outro lado do balcão falou comigo; era assim que eu era conhecida agora.
— Eu já vou trazer, espere só um minuto — empurrei a porta outra vez quando o celular vibrou no meu bolso.
Olhei para trás, certificando-me de que Tomás não veria eu atendendo uma ligação no meio do expediente. Três anos trabalhando sob o comando dele e ele literalmente se esforçava para tornar minha vida miserável.
Corri para o banheiro, olhando para trás a cada dois passos, enquanto sentia tudo desmoronar. Perdi as contas de quantas vezes aquele celular tocou e tudo o que ouvi foi um sonoro “não”. Sinto muito, nós não a encontramos. Meu peito ardeu quando atendi, colocando o celular no ouvido, esperando algo que mudasse o meu dia.
— Como você está, Skay? — A voz do detetive tinha um jeito de me seguir mesmo dormindo, mas dessa vez tinha algo diferente nela, eu podia sentir.
— Você não ligou para saber como estou — minha voz era um breve sussurro; eu sabia, um passo em falso e eu perderia o meu emprego —, diga logo o que você descobriu.
— Encontrei sua filha.
O silêncio caiu de repente; fiquei parada ouvindo minha própria respiração acelerar lentamente. Meus olhos arderam; eu não chorava há tanto tempo que havia esquecido a sensação, mas as lágrimas desceram e eu desejei que não fosse um sonho.
— Isso é verdade? Onde ela está?
— Fique calma — ele ordenou; minhas mãos tremiam, quase deixando o celular cair —, ela foi adotada por um homem muito poderoso, Skay, por isso demorei tanto para encontrá-la. O homem mantém a vida da menina em total sigilo. Você não poderá tê-la de volta.
— Como eu não posso ter minha filha de volta? — Hesitei quando percebi minha voz se alterando, torci a borda do avental. — Ela é minha filha; como uma mãe não pode ficar com a própria filha?
— Você é mais esperta do que isso — ele me interrompeu de repente —, eu não queria lembrá-la de que, para o mundo lá fora, você está morta e de que essa menina é órfã de pais, então você não tem direitos sobre ela.
— Eu não me importo com o que você acha ou com o que você diz, eu só quero encontrar minha filha — meus punhos se fecharam e eu precisei me controlar para não batê-los contra a porta de metal à minha frente —, só me diga onde ela está.
Alguém bateu na porta. A voz do Tomás ecoou do outro lado. Meu coração acelerou em um ritmo irregular.
— Abra a porta, Skay, eu sei que você está aí — ele bateu mais forte dessa vez; minhas palmas suaram e eu encurtei a respiração —, se não sair daí pelos próximos dois segundos, estará demitida.
Abri a porta de repente, o ferro-velho batendo com força contra a parede. Tomás fez um som, quase um rosnado, quando olhou em meus olhos e me viu com o celular na mão.
— Avisei que se eu pegasse você no celular…
— Foda-se os seus avisos — gritei com ele, o grito que precisei sufocar por anos só para não perder aquele emprego —, estou em uma ligação importante e você não vai me impedir de continuar. Já pode ir preparar minha demissão, seu idiota.
— O que você disse? — Ele perguntou quando passei por ele, esbarrando em seu ombro.
Me virei olhando nos seus olhos outra vez e levantei a mão para ele fazer silêncio. Tomás paralisou, incrédulo. Durante três anos, era a primeira vez que eu o desafiava tão corajosamente.
— Estou falando no telefone — eu disse, me virando e olhando para ele por cima do ombro. Não importava mais, eu havia encontrado minha filha, então eu não precisava mais daquele maldito emprego. — Eu te encontro na rodovia em dez minutos — eu disse para o detetive —, e não vacile comigo dessa vez. Vai me contar tudo o que descobriu, porque acabei de perder o meu emprego.
Encerrei a ligação, forcei um sorriso para mim mesma, apertei o celular e continuei andando, mesmo que minha respiração estivesse falhando.
— Você está ferrada, garota — Tomás sussurrou logo atrás de mim —, eu vou garantir que você jamais consiga outro emprego de garçonete em sua vida.
— E quem disse que quero ser garçonete? — eu tirei o avental e o joguei contra o corpo dele. Tomás ficou parado como se tivesse visto um fantasma.
Eu finalmente fui embora. Eu estava finalmente a um passo de reencontrar minha filha.
POV ClariceGabriel estava apaixonado?Ele estava se declarando para mim?Eu olhei para ele com os olhos vidrados, sem conseguir desviar a atenção nem um segundo sequer. Eu não me lembrava da última vez que um homem havia declarado interesse por mim; isso havia acontecido anos antes de me casar com o Murilo.Foi inevitável não lembrar do Murilo, mesmo que essa lembrança durasse apenas poucos segundos. Eu o amava tão loucamente, eu sonhei tantas vezes ouvi-lo dizer que também me amava, mas no final recebi um veneno injetado em minhas veias em troca de tanto amor.Um frio percorreu minha espinha. Eu me encolhi.Eu abri os lábios, mas nenhum som saiu de dentro deles. Eu não sabia o que dizer, nem mesmo o que pensar; eu só sentia meu coração bater tão forte até minhas costelas doerem.Eu queria correr para longe dali, quando uma figura pequena saiu do elevador e veio correndo em nossa direção. Charlotte agarrou as pernas do Gabriel com tanta força que a tensão e expectativa no rosto dele
POV GabrielEu fui ansioso até o restaurante do hotel no primeiro andar.Eu pagaria bem por um jantar de gala particular por aquela noite. Os funcionários não reclamaram, o dono do hotel concordou e eu estava pronto para oferecer a Scarlet uma noite inesquecível.Ela não quis sair do quarto a noite inteira. Ela dizia que sentia muitas dores, ainda estava se recuperando do acidente. Ainda que fosse um pouco verdadeiro, eu sabia que ela usava isso como desculpa para não me ver.Eu ainda tentava entender por que ela fugia de mim, por que ela ainda se escondia atrás dos seus segredos. Eu não conseguia imaginar nada tão grave que pudesse me decepcionar com ela.Uma babá que contratei quando cheguei preparava Charlotte para a noite. Quando olhei para minha filha, lembrei o quanto Scarlet gostava de Charlotte. Ela seria o motivo que eu conseguiria para arrancar Skay daquele maldito quarto.Meu coração começou a disparar quando parei em frente à porta do quarto dela. Eu tinha acesso livre, ai
POV GabrielVoltei para o quarto, para o lugar onde Charlotte pulava sobre a cama como se o lugar fosse um parque de diversões. Pelo menos ela estava distraída. Ela se divertia porque não tinha problemas de adultos para resolver.Caminhei até o banheiro e observei meu reflexo no espelho.Meu rosto estava contorcido de raiva. Eu não conseguia parar de pensar em Scarlet nem por um minuto, e aquilo estava me deixando louco. Não estava nos meus planos ser atraído pela babá da minha filha, como também eu não planejava me casar com ela.Desde o primeiro dia em que coloquei os olhos nela, eu sabia que tinha algo de diferente e agora eu não conseguia desviar o olhar.Ela me rejeitava; ela me lembrava a cada segundo do nosso acordo. Ela criara uma barreira entre nós dois, me impedindo de continuar.Meu celular vibrou no bolso da calça. Voltei à realidade. Virei as costas para o espelho e me encostei na pia, olhando diretamente para o vaso sanitário, antes de atender a ligação. A voz do Henry s
POV ClariceO ar dentro do avião particular era difícil de respirar. Charlotte dormia ao meu lado tão lindamente que nem mesmo a turbulência me fazia parar de olhar para ela, nem mesmo por um segundo.Quando eu contasse a ela que eu era sua mãe, como ela reagiria?Eu fiquei pensando nisso por minutos longos demais enquanto o silêncio no avião parecia preocupante. Todos estavam dormindo, menos eu.Meu estômago se revirou em um nó apertado quando olhei para o Gabriel. Ele não parecia nem um pouco o CEO implacável de quem eu costumava ouvir falar nas rodas de conversa quando eu era uma grande empresária. Ele era diferente de tudo o que eu poderia imaginar.Eu precisava desse casamento tanto quanto ele e certamente nós dois acreditávamos que seria apenas um contrato, mas eu estava com os olhos parados tempo demais em cima dele, observando seu peito subindo e descendo e lembrando das inúmeras vezes em que ele foi gentil e amoroso comigo, fazendo um sorriso idiota surgir em meu rosto.Exata
POV ClariceGabriel entrou no carro enquanto pedia para o motorista colocar minhas coisas no porta-malas e dizia para dirigir para casa. Imediatamente meu corpo gelou.Eu toquei a maçaneta e foi como se a história se repetisse: meu corpo sendo projetado para trás, o calor, as faíscas.— Você está bem? — As mãos dele segurando meu ombro me fizeram encolher. Era a mesma sensação que eu sentia quando alguém furava meu braço com uma agulha.Era o veneno percorrendo o meu corpo na mesma velocidade que o fogo me atingia.— Tudo bem — eu disse, mas meu corpo quase não me obedeceu.Entrei no carro e agarrei o estofado, fechando os olhos. Precisei repetir para mim mesma que não aconteceria outra vez. Ainda assim me assustei quando Gabriel entrou do outro lado, fechando a porta, e o carro ganhou movimento.— O que aconteceu com o segurança? — eu perguntei e ele não entendeu. Sua testa franziu. — O homem que estava comigo no dia do acidente.Ele abriu os lábios, seu rosto ganhando traços signifi
POV ClariceUm riso nervoso escapou da minha garganta, rasgando-a em dois pedaços.— É apenas uma coincidência — eu tentei parar de rir, mas não consegui —, quer dizer, todos nós temos alguém parecido com a gente em algum lugar do mundo.Gabriel parou de pentear meus cabelos por um momento. Suas mãos congelaram no ar e eu me arrependi no mesmo segundo por ter dito aquilo; pior ainda, ter dito no intervalo de tempo longo entre uma resposta e outra.Por que eu não fiquei calada?Por que não mantive minha maldita boca fechada?— Pode ser que você esteja certa — a mão dele voltou a deslizar pelos meus cabelos na mesma velocidade que meu coração batia —, mas eu desconfiaria disso se não soubesse que a mãe da Charlotte morreu no parto.Droga! Fechei os olhos com força. Eu queria desaparecer ou, melhor, fazer o Gabriel desaparecer. Eu estava esticando a corda sabendo que uma hora ou outra ela iria arrebentar exatamente para o meu lado.— Falando sobre a Charlotte, eu disse a ela que nos casa







