LOGINPOV Clarice
Abri meus olhos e me vi surpreendentemente viva. Meus braços procuraram a minha filha desesperadamente. A luz forte e branca acima da minha cabeça me cegou. Eu não fazia ideia de onde eu estava ou por que eu ainda estava viva.O aparelho ao meu lado apitou; eu não conseguia me mover, minha visão turva não me deixou reconhecer o rosto à minha frente, mas a voz parecia familiar. Eu me agitei; o homem ordenou que me tranquilizassem, até a escuridão vir outra vez.
O cheiro do álcool invadiu minhas narinas antes de abrir os olhos outra vez. Olhei para o lado e tive a impressão de conhecer a mulher que estava próxima de mim… Certamente eu a conhecia, afinal eu estava outra vez no hospital, talvez não o mesmo em que eu havia quase morrido.
— Ah, querida, você parece cansada — sua voz era doce e ela segurava meu braço, ajustando o medicamento que pingava lentamente —, você precisa descansar mais um pouco. O médico virá falar com você.
— Por favor — minha garganta arranhou, eu mal conseguia falar —, a minha filha…
— Você está um pouco confusa por causa da medicação.
— Não… como vim parar aqui antes… quer dizer… — pigarreei como se não soubesse mais falar. As palavras saíam com dificuldade — antes de ele roubar a minha filha.
A enfermeira ficou confusa quando a porta do quarto se abriu e um rosto bastante familiar apareceu. Meu corpo se encolheu como uma roupa nova recém-lavada; o grito morreu em minha garganta. Ele olhou para sua prancheta, soltou um longo suspiro, depois voltou sua atenção para mim e me disse:
— Seja bem-vinda de volta, Clarice — ouvir a voz do médico que tentou me matar me assustou, meu corpo inteiro estremeceu —, você ficou em coma por seis meses, você quase não sobreviveu.
Seis meses? Eu tinha quase certeza de que o tempo não havia passado. Ele poderia facilmente mentir para mim, me confundir para se safar dessa vez.
Ele esperou a enfermeira sair do quarto e depois olhou para mim. Meu corpo congelou. Ele deu um passo em minha direção, seu rosto sem qualquer traço de sensibilidade, seus olhos escuros como duas sombras em cima de mim. Eu não tinha forças nem mesmo para correr e tentar sobreviver outra vez. Ele viu certamente o horror estampado em meu rosto.
— Eu não vou machucar você — ele disse, o som da sua voz fazendo meu estômago se contrair sobre si mesmo —, eu precisei fazer aquilo. O Murilo ameaçou arruinar minha carreira se eu não tirasse a criança de você, se eu não matasse você.
O medo começou a se espalhar dentro de mim quando segurei o lençol da cama e o torci entre meus dedos. Eu queria me levantar, mas meu corpo não me obedecia.
— Você deve estar se perguntando por que está viva — ele virou as costas para mim e se afastou; ainda assim, os músculos dos meus ombros doíam enquanto eu os pressionava —, eu não sou um assassino. Quando o Murilo foi embora, eu transferi você de hospital e salvei a sua vida.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto; meu coração acelerou em um ritmo irregular quando ele se virou outra vez e me encarou com seus olhos sombrios. Ele não me salvaria a troco de nada. Ele fez isso por algum motivo, e eu temia descobrir qual era.
Respirei fundo, como se não fizesse isso há muito tempo; meu peito doeu. Eu precisava manter a calma e disse a mim mesma que tudo ficaria bem, que eu precisava ficar bem para me levantar e procurar a minha filha.
— Por que…
— Não se esforce demais — ele esticou a mão e tocou meu braço, como ácido me queimando —, você está viva, mas preciso garantir que você não vai me entregar para a polícia quando sair daqui.
O ar no quarto ficou denso e azedo quando ele esticou o pescoço como um gato e me encarou outra vez. Como eu poderia confiar nele após roubar a minha filha e tentar me matar? Queria correr até meus pulmões falharem, me esconder em um lugar onde ninguém soubesse o meu nome, correr para qualquer caminho que me levasse de volta para minha filha.
— Minha filha… — Minha voz quebrou; forcei, utilizando toda a força que eu tinha para continuar falando —, onde ela está…
— Ela está bem, até onde sei… — ele parou de repente, seu rosto ficando pesado, a sombra do quarto escondendo o que eu precisava ver —, mas eu não tenho boas notícias.
Meu coração se partiu de novo; tentei agarrar seu braço, eu tentei forçá-lo a continuar falando.
— Prometa que não vai me denunciar e eu prometo contar tudo o que sei — ele não desviou o olhar, a mandíbula tensa, olhando diretamente nos meus olhos —, eu posso ajudar a encontrá-la. Apenas prometa para mim.
— Tanto faz — pigarreei, a garganta seca implorando por uma bebida —, o Murilo não vai perdoar você.
Ele riu zombeteiro. Senti a ardência subir pela garganta, perguntando-me o que de engraçado eu havia dito para que ele sorrisse. Mas seu semblante se fechou no segundo seguinte.
— O Murilo não poderá fazer nada contra mim e nem contra você — encontrei seus olhos quando ele me olhou com pânico; a sua mudança de humor me assustou —, o seu ex-marido está morto.
A revelação me atingiu como um tapa. Murilo estava morto? O homem fez uma pausa e desviou o olhar do meu. Ele não suportou ver o quanto eu estava perdida naquela informação, o quanto eu estava aterrorizada.
— Um acidente de carro os matou. Ele e a Amélia morreram — ele virou as costas para mim pela segunda vez; eu não pude ver se ele falava realmente a verdade —, parece que voce ganhou uma nova chance e eu também.
— Você disse que minha filha estava bem… — congelei, só minhas lágrimas tinham movimentos, escorrendo incansavelmente pelo meu rosto.
— Eu não menti — a expressão no rosto dele, pânico, culpa, algo parecido com o medo, me fez querer gritar —, essa é a notícia ruim, Clarice. A sua filha foi levada para um orfanato e adotada. Eu não faço ideia de onde ela está agora.
As palavras me perfuraram, cortaram profundamente. O ar fugiu dos meus pulmões, eu não conseguia respirar. Eu certamente morri e fui direto para o inferno, eu podia sentir meu corpo queimar a cada segundo; o que aquele homem estava dizendo não podia ser verdade.
— Você vai dormir mais um pouco — vi com a visão embaçada pelas lágrimas quando ele injetou outro líquido no meu corpo —, e quando você acordar, tudo será diferente. Vou ajudá-la a encontrar sua filha, e você vai garantir minha liberdade. Isso não é um acordo.
Ele me olhou com pena nos olhos antes de me afogar outra vez na escuridão.
Seria melhor que eu tivesse morrido.
POV ClariceAcordar nesse hospital foi como viver um pesadelo parecido outra vez. Eu abri os olhos e suguei o ar com tanta força que meus pulmões queimaram. As enfermeiras tentaram me acalmar enquanto o caos se instalava de novo em minha vida.Agora eu estava perdendo o controle na frente do Gabriel enquanto ele envolvia a polícia nesse caso.— Por que a polícia não pode estar envolvida, Skay? — Ele se inclinou, me forçando a olhar nos olhos dele enquanto suas dúvidas ganhavam vida na minha frente. — Eu sei que você esconde algo de mim, mas eu não sabia que era algo tão grave.— Você colocou na cabeça que alguém está tentando me matar, e isso não é verdade.— Uma bomba foi encontrada no carro — ele perdeu a paciência, se afastou sorrindo enquanto zombava de mim.— Certamente a bomba era para você — eu disse, minha voz trêmula, o desespero assumindo o controle. — Eu não quero ser interrogada...Ele se virou de repente e me fuzilou com o olhar. Ficou assim por algum tempo, me analisando
POV GabrielEu entrei no ambulatório quando o médico me interceptou no caminho e começou a falar.— É um milagre a sua esposa ter sobrevivido e ter saído desse acidente sem nenhuma sequela — ele fez uma pausa dramática demais —, ela teve algumas queimaduras pelo corpo e fraturou algumas costelas, mas ela sobreviveu.Ele sorriu porque a notícia era boa. Por outro lado, eu não sabia o que dizer. Eu não sabia se queria entrar no quarto e ver como Skay estava sem me sentir destruído por dentro.— Sobre o motorista que estava com ela... — ele parou outra vez e toda a empolgação se esvaziou —, infelizmente ele não resistiu aos ferimentos. Ele está morto.As palavras me atingiram como água gelada. A voz dele soou distante enquanto continuou falando. Eu não ouvia nada, apenas um zumbido longo e torturante carregado de perguntas.— Senhor Lancaster — uma mão pesada repousou em meu ombro quando me virei para encarar o olhar do homem desconhecido —, eu sou o detetive de polícia e estou aqui para
POV GabrielEu estava entrando na empresa quando vi Frank correndo em minha direção como se estivesse correndo do perigo. Meu primeiro pensamento foi que ele havia descoberto algo muito importante.Ele parou na minha frente e se inclinou, mal conseguindo respirar.— Precisa parar de fumar, Frank — eu zombei dele no seu primeiro dia de trabalho —, se continuar assim, vai morrer.— Morrer... — ele se ergueu, a garganta seca, sua voz desesperada —, você precisa ir ao hospital. A Scarlet sofreu um atentado.Uma coisa estranha aconteceu comigo quando ouvi essas palavras. O mundo ao redor parou e depois deixou de existir. Eu gaguejei palavras que não faziam sentido antes de entrar no carro e ordenar que o motorista dirigisse em direção ao hospital.Algo que eu nunca pensei que sentiria por Skay invadiu meu peito, quase não me deixando respirar.Foi uma enxurrada de acontecimentos depois disso. Frank entrou no carro comigo; eu fiz um milhão de perguntas para as quais ele não sabia as respost
POV ClariceSegurei Charlotte em meus braços e corri com ela para dentro do prédio. Apressada, empurrei a porta enquanto deixava o barulho da chuva pelo silêncio e calmaria da recepção.Ela se encolheu e choramingou. Afastei-a para que pudesse olhar em seus olhos.— Eu estou aqui, tudo bem? — Ela balançou a cabeça. — Não precisa ter medo.Virei-me para a recepcionista e entreguei os documentos da Charlotte para ela. Eu estava pronta para arrumar um bom lugar para sentarmos enquanto planejava um diálogo em minha mente. Certamente o primeiro bom diálogo que eu teria com minha filha, quando uma sombra parou bem na minha frente.Eu conhecia aqueles sapatos vermelho-vivos e aquele perfume enjoativo.A euforia da Charlotte me deu a certeza de que eu não estava enganada.— Tia Emily! — Ela se levantou e correu para os braços da mulher.Fechei meus olhos com força, tentando manter calma toda a minha frustração e raiva que sentia naquele momento. Eu estava tão perto de começar a construir uma
POV ClariceEngoli todas as rejeições da Charlotte e continuei apaixonada por ela. Eu a observava enquanto ela dormia, imaginando os dias felizes que eu ainda poderia ter ao lado da minha filha.Conquistá-la e ter o direito de ser sua mãe verdadeira era o que importava e nada mais.Eu esqueceria os conflitos que eu tinha com o Gabriel, o fato de o Frank estar trabalhando para ele e os motivos de Ava não me apoiar, apenas para ter o direito de ser mãe da minha filha.Enquanto ela dormia, eu fiz uma promessa aos pés da sua cama de que o meu foco e energia seriam somente dela a partir daquele momento.Mesmo sabendo que, talvez, Charlotte nunca me amaria da mesma forma.Uma batida na porta rompeu meus pensamentos e, quando virei o pescoço para ver quem era, meu estômago revirou e eu desejei vomitar ali mesmo.— Com licença, senhora — ela trazia uma pilha de roupas quando empurrou a porta e entrou. Ela sempre andava com a cabeça erguida, ainda agia como se fosse superior a mim. Eu tinha vo
POV ClariceMeu estômago afundou e eu fiquei tempo demais parada em pé no meio da lanchonete enquanto pessoas esbarravam em meu ombro e reclamavam por eu estar parada no meio do caminho como uma estátua.Nunca passou pela minha cabeça que Frank estaria apaixonado por mim.Que tudo o que ele havia feito foi por amor ou que estava se envolvendo ainda mais na minha trágica história porque queria de alguma forma me proteger.Respirei fundo, sabendo que era hora de partir.Meu corpo pegava fogo como se eu estivesse em chamas.Sem pensar duas vezes, saí e voltei para o carro. Sentei no banco e observei a cidade passar diante dos meus olhos enquanto o segurança perguntava para onde ele deveria me levar.— Para a mansão, por favor — eu disse quando o vi me observar pelo espelho.Não havia nenhuma garantia de que aquele homem não contaria nada do que viu para o Gabriel, mas para mim não faria diferença. A situação já havia saído do controle há muito tempo.E eu estava cansada de manter tudo so







