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Capítulo dois

last update Petsa ng paglalathala: 2026-06-15 23:53:27

POV Clarice

Abri meus olhos e me vi surpreendentemente viva. Meus braços procuraram a minha filha desesperadamente. A luz forte e branca acima da minha cabeça me cegou. Eu não fazia ideia de onde eu estava ou por que eu ainda estava viva.

O aparelho ao meu lado apitou; eu não conseguia me mover, minha visão turva não me deixou reconhecer o rosto à minha frente, mas a voz parecia familiar. Eu me agitei; o homem ordenou que me tranquilizassem, até a escuridão vir outra vez.

O cheiro do álcool invadiu minhas narinas antes de abrir os olhos outra vez. Olhei para o lado e tive a impressão de conhecer a mulher que estava próxima de mim… Certamente eu a conhecia, afinal eu estava outra vez no hospital, talvez não o mesmo em que eu havia quase morrido.

— Ah, querida, você parece cansada — sua voz era doce e ela segurava meu braço, ajustando o medicamento que pingava lentamente —, você precisa descansar mais um pouco. O médico virá falar com você.

— Por favor — minha garganta arranhou, eu mal conseguia falar —, a minha filha…

— Você está um pouco confusa por causa da medicação.

— Não… como vim parar aqui antes… quer dizer… — pigarreei como se não soubesse mais falar. As palavras saíam com dificuldade — antes de ele roubar a minha filha.

A enfermeira ficou confusa quando a porta do quarto se abriu e um rosto bastante familiar apareceu. Meu corpo se encolheu como uma roupa nova recém-lavada; o grito morreu em minha garganta. Ele olhou para sua prancheta, soltou um longo suspiro, depois voltou sua atenção para mim e me disse:

— Seja bem-vinda de volta, Clarice — ouvir a voz do médico que tentou me matar me assustou, meu corpo inteiro estremeceu —, você ficou em coma por seis meses, você quase não sobreviveu.

Seis meses? Eu tinha quase certeza de que o tempo não havia passado. Ele poderia facilmente mentir para mim, me confundir para se safar dessa vez.

Ele esperou a enfermeira sair do quarto e depois olhou para mim. Meu corpo congelou. Ele deu um passo em minha direção, seu rosto sem qualquer traço de sensibilidade, seus olhos escuros como duas sombras em cima de mim. Eu não tinha forças nem mesmo para correr e tentar sobreviver outra vez. Ele viu certamente o horror estampado em meu rosto.

— Eu não vou machucar você — ele disse, o som da sua voz fazendo meu estômago se contrair sobre si mesmo —, eu precisei fazer aquilo. O Murilo ameaçou arruinar minha carreira se eu não tirasse a criança de você, se eu não matasse você.

O medo começou a se espalhar dentro de mim quando segurei o lençol da cama e o torci entre meus dedos. Eu queria me levantar, mas meu corpo não me obedecia.

— Você deve estar se perguntando por que está viva — ele virou as costas para mim e se afastou; ainda assim, os músculos dos meus ombros doíam enquanto eu os pressionava —, eu não sou um assassino. Quando o Murilo foi embora, eu transferi você de hospital e salvei a sua vida.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto; meu coração acelerou em um ritmo irregular quando ele se virou outra vez e me encarou com seus olhos sombrios. Ele não me salvaria a troco de nada. Ele fez isso por algum motivo, e eu temia descobrir qual era.

Respirei fundo, como se não fizesse isso há muito tempo; meu peito doeu. Eu precisava manter a calma e disse a mim mesma que tudo ficaria bem, que eu precisava ficar bem para me levantar e procurar a minha filha.

— Por que…

— Não se esforce demais — ele esticou a mão e tocou meu braço, como ácido me queimando —, você está viva, mas preciso garantir que você não vai me entregar para a polícia quando sair daqui.

O ar no quarto ficou denso e azedo quando ele esticou o pescoço como um gato e me encarou outra vez. Como eu poderia confiar nele após roubar a minha filha e tentar me matar? Queria correr até meus pulmões falharem, me esconder em um lugar onde ninguém soubesse o meu nome, correr para qualquer caminho que me levasse de volta para minha filha.

— Minha filha… — Minha voz quebrou; forcei, utilizando toda a força que eu tinha para continuar falando —, onde ela está…

— Ela está bem, até onde sei… — ele parou de repente, seu rosto ficando pesado, a sombra do quarto escondendo o que eu precisava ver —, mas eu não tenho boas notícias.

Meu coração se partiu de novo; tentei agarrar seu braço, eu tentei forçá-lo a continuar falando.

— Prometa que não vai me denunciar e eu prometo contar tudo o que sei — ele não desviou o olhar, a mandíbula tensa, olhando diretamente nos meus olhos —, eu posso ajudar a encontrá-la. Apenas prometa para mim.

— Tanto faz — pigarreei, a garganta seca implorando por uma bebida —, o Murilo não vai perdoar você.

Ele riu zombeteiro. Senti a ardência subir pela garganta, perguntando-me o que de engraçado eu havia dito para que ele sorrisse. Mas seu semblante se fechou no segundo seguinte.

— O Murilo não poderá fazer nada contra mim e nem contra você — encontrei seus olhos quando ele me olhou com pânico; a sua mudança de humor me assustou —, o seu ex-marido está morto.

A revelação me atingiu como um tapa. Murilo estava morto? O homem fez uma pausa e desviou o olhar do meu. Ele não suportou ver o quanto eu estava perdida naquela informação, o quanto eu estava aterrorizada.

— Um acidente de carro os matou. Ele e a Amélia morreram — ele virou as costas para mim pela segunda vez; eu não pude ver se ele falava realmente a verdade —, parece que voce ganhou uma nova chance e eu também.

— Você disse que minha filha estava bem… — congelei, só minhas lágrimas tinham movimentos, escorrendo incansavelmente pelo meu rosto.

— Eu não menti — a expressão no rosto dele, pânico, culpa, algo parecido com o medo, me fez querer gritar —, essa é a notícia ruim, Clarice. A sua filha foi levada para um orfanato e adotada. Eu não faço ideia de onde ela está agora.

As palavras me perfuraram, cortaram profundamente. O ar fugiu dos meus pulmões, eu não conseguia respirar. Eu certamente morri e fui direto para o inferno, eu podia sentir meu corpo queimar a cada segundo; o que aquele homem estava dizendo não podia ser verdade.

— Você vai dormir mais um pouco — vi com a visão embaçada pelas lágrimas quando ele injetou outro líquido no meu corpo —, e quando você acordar, tudo será diferente. Vou ajudá-la a encontrar sua filha, e você vai garantir minha liberdade. Isso não é um acordo.

Ele me olhou com pena nos olhos antes de me afogar outra vez na escuridão.

Seria melhor que eu tivesse morrido.

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