LOGINOlho para Dante, tentando entender pelo rosto dele o que pode ser tão importante depois de tudo o que já aconteceu. Ele não desvia os olhos, e isso me assusta mais do que se tivesse feito. — O quê? Ele se aproxima devagar e se senta ao meu lado na cama. — É o Caleb? — pergunto, sentindo o coração acelerar outra vez. — Aconteceu algo com meu irmão? — Não. Seu irmão está estável — responde, hesitando em seguida. — É outra pessoa. — Quem? — O seu pai. Eu devia ter te contado no primeiro dia, mas não tive coragem. Ele para, e vejo sua mandíbula travar antes de continuar. — Alfred morreu, Amy — ele continua, devagar. — No local, antes de a ambulância chegar. Levou um tiro na coxa, pegou a femoral. Não houve tempo. O quarto fica silencioso. Só o ar-condicionado e o apito distante de algum monitor no corredor. Vi tudo o que aconteceu e, naquele momento, uma parte de mim entendeu antes de eu ter coragem de entender. Por um momento, espero que a raiva apareça. Talvez o alívio. Af
“Amy Ferretti” Sair do hospital deveria ser a melhor parte. Por algumas vezes, imaginei Dante dirigindo a vinte por hora, com cara de quem transporta explosivos, e dois bebês dormindo tranquilamente no banco de trás. Hoje, estou observando o relógio marcar dez da manhã, enquanto tento, pela quinta vez, não chorar. Porque, enquanto meus filhos estão em outro andar, eu estou aqui, me preparando para ir embora, enquanto eles ficarão aqui. Essa é a pior sensação que já senti. — Não consigo ir embora sem eles — murmuro, baixinho. Percebo que Dante ouviu quando ele para o movimento de guardar minhas coisas na mala e se vira para me encarar. Ele não responde imediatamente. Acho que também não sabe o que dizer. Porque, pela primeira vez, não existe nada que ele possa resolver. Não pode pegar nossos filhos no colo e colocá-los no carro. Não pode mandar um médico liberá-los. Não pode fazer o tempo passar mais rápido. Ele só pode aceitar que hoje vamos embora sem eles. E isso parece
Dylan não responde. A mandíbula dele trabalha por um instante, como se mastigasse algo que não consegue engolir. Depois, desvia o rosto para a janela. — Você não me conhece — diz, por fim. — Não. Não conheço. Quando voltei, você já era o herdeiro de gravata e sobrenome. Nunca me perguntei quem estava por baixo disso. Ele volta os olhos para mim, ainda desconfiado. — Isso foi falha minha. Não a maior, mas minha. Dylan abaixa a cabeça. Por alguns segundos, parece lutar contra alguma coisa dentro dele. — Eu também nunca quis conhecer você. Era mais fácil te odiar. — Eu sei. O celular vibra de novo sobre a mesa, e deixo vibrar até parar. Se for Victor, isso terá que esperar mais alguns minutos. — Você quer mesmo esta empresa, Dylan? — pergunto, após alguns segundos de silêncio. A pergunta o pega desprevenido. Ele abre a boca, depois fecha e desvia os olhos para o chão. Não diz nada. E, talvez, essa seja a resposta mais honesta que ele me deu hoje. — Não precisa
Dylan passa a língua pelos lábios ressecados e olha para a porta, quase arrependido de ter falado. — E o que ela queria? — pergunto, baixo. Ele não responde. Só encara o chão, a janela, qualquer ponto da sala que não seja eu. Nada. Respiro fundo e me desencosto da mesa devagar. Dylan acompanha o movimento com os olhos, em alerta, pronto para o que quer que eu faça. Não faço nada. Pelo menos, nada do que ele espera. Me aproximo do sofá e, sem tirar os olhos dele, puxo um lenço do bolso, me agacho e enfio a mão sob o estofado até encontrar a faca. Depois enrolo o lenço no cabo e me levanto com a lâmina apontada para o chão. — O que você está fazendo? — ele pergunta, franzindo as sobrancelhas. — Te dando tempo para pensar no que realmente veio fazer aqui. Ele engole em seco, mas não responde. Volto até a mesa e deixo a faca sobre ela, do meu lado, longe do alcance dele. O celular vibra ao lado do teclado. Victor, provavelmente me lembrando da reunião em que eu j
Dylan apoia a mão livre na beira da mesa e se lança por cima dela.Empurro a cadeira para trás com as pernas, e a lâmina passa bem onde estava meu peito, derrubando a caneta e os papéis.Levanto tão rápido que a cadeira bate na parede.— Porra, Dylan!— Cala a boca!A faca treme visivelmente.Os nós dos dedos estão brancos de tanto apertar o cabo, e o corpo inteiro dele parece sustentado por uma corda prestes a arrebentar.Desvio os olhos para o botão que foi instalado após o sequestro. Um toque, e metade da equipe de segurança sobe em dois minutos.O problema é que dois minutos é muito tempo para alguém segurando uma faca a poucos metros de mim.E, se Dylan perceber o que estou fazendo, posso não ter nem dois segundos.Volto os olhos para ele, calculando a distância entre nós.Três passos, talvez dois.— Você já conseguiu — Dylan diz, com a voz falhada. — Meu cargo, minha reputação, meu nome em todo jornal desta cidade. Não bastava?— Eu limitei seu cargo por causa do contrato. O res
“Dante Ferretti” Três dias dentro do hospital me fizeram perceber que aqui o tempo funciona de um jeito diferente. Ele não passa em horas, passa em visitas à UTI neonatal. Uma de manhã cedo, outra no começo da tarde e a última à noite, quando as enfermeiras me deixam ficar mais do que deveriam e fingem não perceber. A primeira visita de hoje já passou, e agora Amy finalmente decidiu tomar café da manhã. Aparentemente, a fome dela só vem depois de ver que nossos filhos estão bem. Duas batidas rápidas na porta interrompem o momento, e ela se abre sem esperar resposta. A nonna entra no quarto como um furacão de lã, com a bolsa enorme pendurada no braço e minha mãe logo atrás, tentando acompanhar. — Como está minha neta? — ela pergunta, já se aproximando da cama. — Dormiu bem, tesoro? — Melhor, nonna — Amy responde, rindo, enquanto recebe dois beijos no rosto e um terceiro, de bônus, na testa. — Melhor não é bom. Bom é bom. — Amanhã eu chego em bom. — Assim se fala. Nonna se v







