LOGINEstado de espírito caracterizado por decepção, desgosto ou desgraça; sofrimento moral; decepção, dissabor, mágoa. - Dicionário Michaelis
Magda acorda com o sol entrando pela sala do apartamento minúsculo onde mora. A televisão está ligada e Norman Bates mata uma mulher enquanto usa um robe azul lindo, que Magda fez questão de costurar igual, um em tecido leve para o verão e outro mais pesado para o inverno. Ela coça os olhos e limpa os dedos em um guardanapo que está na mesinha ao lado do sofá. Seu bichinho de pelúcia puído, que lhe acompanha nas noites desde que tinha quinze anos, está esmagado sob as duas almofadas que ela usou como travesseiro.
No celular, uma de suas redes sociais berra uma quantidade absurda de notificações, mas ela não olha para isso, apenas se levanta, leva o prato para a cozinha e j**a tudo na pia, ligando a chaleira para que possa fazer um café forte.
Em outro ponto da cidade, Alan está chegando em casa, o corpo suado da corrida que fez pelo bairro seguro e arborizado. Um saco de pão francês, que ele chama de pão de sal, está agarrado pela ponta e ele segura o elevador para sua vizinha de andar poder sair com tranquilidade, a bengala auxiliando-a na caminhada lenta.
“Bom dia, meu jovem,” ela saúda.
Alan acorda cedo mesmo que esteja de férias. Ele sai para correr, para ver os mesmos vizinhos de sempre e conversar com a atendente da padaria que, vira e mexe, lhe guarda um sonho fresquinho que ela mesma fez. Ele entra no apartamento bem iluminado, deixa o pão sobre a mesa e pede para seu aparelho Home ler a previsão do tempo. Ele sabe que vai fazer calor o dia todo, mas pode ter tempestade no fim do dia e neste momento, está pedindo para tocar o podcast da Folha.
Alan toma seu banho, veste uma roupa leve e toma o café da manhã com tranquilidade, o sol vai bater na janela apenas a tarde, mas o apartamento está bem iluminado e fresco e o dia está lindo lá fora, mesmo que a cidade seja bem poluída e sempre deixe uma camada cinza ser vista ao longe.
Uma hora e meia depois, ele já escovou os dentes e está indo para o escritório onde trabalha, já que não confia muito que seu parceiro dará conta da empresa – ou ele só é um viciado em trabalho que fica inquieto demais quando está de férias e não viaja.
Magda não está trabalhando e ela vê a conta bancária recheada. Há um e-mail da secretária de Rasha dizendo que o próximo pagamento caíra na próxima segunda. O valor vai ser o descrito no contrato assinado após o programa, o total de vinte porcento do que foi pago para que ela participasse como tapa buracos.
Se a audiência aumentasse, se o público gostasse dela então o pagamento poderia aumentar. E isso era previsto até o último programa em que participasse.
Era um trabalho, pensou Magda enquanto pagava todas as faturas do cartão de crédito e diminuía o limite. Ela morde uma bisnaguinha enquanto o computador abre uma planilha de gastos. Ela quita tudo e recalcula as despesas fixas. Ainda sobrou dinheiro na conta, mas não consegue pensar que talvez deva pensar em viajar por uns dias, em aproveitar o dinheiro como algo bom e não só como um problema a ser evitado.
Magda não gosta de dever, ela prefere ser triste e infeliz do que correr o risco de não conseguir pagar o cartão no ato. Ela não viaja, não vai no cinema mais de uma vez a cada dois meses e nunca, em hipótese alguma, compra pipoca.
Magda tem medo. Muito medo de dinheiro. De faltar dinheiro, como faltou durante toda a sua infância.
Desjejum terminado, contas pagas, a ruiva desliga a televisão e se espreguiça, decidindo que está na hora de ir tomar banho, talvez, quem sabe, não possa ir até os jardins do apartamento e desenhar um pouco por lá? Ela segue ignorando as notificações do celular.
Quando chega no trabalho, Alan é recebido com uma pequena festinha que a equipe fez. Ele ri, fica ruborizado e pede que deixem de bobagem. Seu colega de sociedade diz que a menina ruivinha é muito gatinha e questiona se ele teria como lhe passar o número dela, caso não a escolha. Ninguém, jamais, desconfiaria que Alan Pegatto não passaria por lá.
“Obviamente não,” Alan responde. Ele ainda adiciona, “afinal, eu não tenho o contato de nenhuma garota e nem posso ter,” mas seu amigo sabe que isso é mais uma desculpa do que uma verdade.
Tudo bem, ele realmente não pode ter contato com nenhuma das meninas via rede social; ele também não pode pedir ou conseguir o telefone de nenhuma dela, mas porque ele passaria o contato dela se ele mesmo estava interessado?
Foram gravados dois programas. Magda não foi eliminada em nenhum deles.
E isso gerou um grande rebuliço na equipe, principalmente nas duas garotas que foram eliminadas, já que... Bom, Alan soube do estrago que suas escolhas fizeram por um dos caras da equipe, mas com Magda, as coisas foram diferentes.
Nenhuma pessoa poderia falar sobre o ocorrido por pelo menos dez anos, sabendo que isto levaria a uma quebra de um contrato caríssimo.
Só que Magda estava estarrecida de não ter sido eliminada, ultrajada talvez fosse o termo mais correto! Depois que a gravação do programa terminou, Magda voou para o camarim de Rasha e basicamente começou a gritar todos os pensamentos que estava tendo, deixando tudo fora de sentido.
Enquanto Rasha tentava segurar o riso pela situação, as duas meninas eliminadas mergulharam porta a dentro e colocaram a ruivinha contra a parede acusando-a de coisas que não seriam de bom tom serem reproduzidas.
“Eu concordo!” Magda diz enquanto tenta esquecer da dor em suas costas, “eu deveria ter sido eliminada!”
A discussão só acabou quando um estrondo surgiu na sala. As três garotas olharam na direção do barulho e viram o espelho do camarim estilhaçado, com Rasha segurando uma garrafa de alumínio contra o item enorme.
“Que é que está acontecendo aqui?” Perguntou com uma suavidade apavorante.
Duas meninas gaguejaram, sem conseguir gerar nenhuma palavra a respeito do ocorrido. O silêncio parece um monstro que sai engolindo tudo, mas Magda resolve ser a que fala algo:
“ Eu deveria ter sido eliminada...”
“Devia mesmo!” Uma das eliminadas reafirma.
Quando conta isto para Roseane, sua namorada, Rasha precisa parar seu relato, pois Julian gargalha. Ele é casado com Roseane há vinte anos e não se importa nem um pouco com o namoro da esposa com Rasha. “Eu perdi isso?” Ele pergunta retoricamente, “que pena que não estavam gravando.”
Rasha bebe um gole de vinho rose e sente os dedos de Roseane correndo por sua cocha direita, uma carícia cheia de promessas para aquela noite.
“Pois bem,” Muniz continua a história, o corpo se aquecendo com o toque da namorada que domina a televisão aberta mesmo sem aparecer em público.
“Vocês realmente acreditam na injustiça?” Pergunta para as três.
“Bom...” Uma delas tenta falar algo. “Acho que... depende né?”
“Ela já deveria ter sido eliminada, ela nem foi escolha dele.” A outra explode.
“Ele a escolheu. Escolheu tirar vocêsduas. Além disso, pelo que posso ver, a covardia e imaturidade de vocês mostra que ele realmente pode ver além de um rostinho bonito.”
Rasha queria dizer que elas eram podres por dentro, mas tinha que se manter calma, afinal, havia gente demais naquela sala e o processo sobre ela seria bem pesado. O assunto foi encerrado com Rasha lembrando as três meninas de que no contrato assinado, há um clausula onde as personagens poderiam ser alteradas até a data do primeiro programa; que a escolha de quem ficava ou ia era exclusivamente feita pelo príncipe; que participar do programa deixava todas cientes.
Magda sentou no balanço do parquinho que havia na praça em frente ao prédio. Isis tomava um sorvete e alguns caras passaram assoviando para ela, pois seu top de academia deixava o corpo a mostra e, se tinha algo que todo mundo teria que concordar, é que Isis tinha um corpo bonito.
“Eu acho que ele gostou mesmo de você,” Isis diz.
Magda geme, nem uma concordância, nem uma discordância, apenas um gemido solto por quem está pensando demais em algo. E ela pensa muito bem sobre o último programa gravado. A prova consistia em escolher um cômodo de sua própria casa para apresentar ao príncipe. Algo para fazerem juntos neste cômodo e explicar o motivo da escolha.
A combinação não escolhida eliminaria a garota.
“Eu só sei que não é justo estar neste programa, Isis.” Geme a ruiva. Ela teria que dar um jeito de ser eliminada, mesmo que todas as vezes, durante aquele dia, em que pensou isto, uma dor surgia no seu peito.
PersonalidadeQualidade essencial e exclusiva de uma pessoa; aquilo que a distingue de todas as outras; caráter, identidade, originalidade. – Dicionário Michaelis.A mesa estava uma bagunça, como sempre. A comida farta era simples, um frango assado, um punhado de salada fresca, suco, arroz, feijão e purê de batatas, nunca podia faltar purê quando Marília ia almoçar na casa da mãe. Ninguém sabia de onde tinha tirado tanto amor pelo purê, mas quando não se tinha, ela simplesmente ficava fazendo um discurso interminável de como ninguém lembrava dos mais velhos.“Você foi moleque,” Regina diz, ou tenente Pegatto, como detestava ser chamada pela família. Ela queria fugir do trabalho quando estava naquela casa cheia e confortável.“Obrigado pelo aviso tardio,” Alan retorna para a irmã que está ao seu lado direito. À esquerda, a mãe continuava concordando fisicamente com Marília, que discute sobre o ato malcriado de Alan.Como ele ousava participar de um programa de namoro e não avisar a nin
IrmãsAmiga inseparável, de todas as horas, ligada a outra pessoa por sentimento de irmandade e fraternidade; mana – Dicionário Michaelis. A prova seguinte, para Alan conhecer as meninas e ver se era compatível com elas, seria algo interessante. Ele escolheria uma atividade e teria um tempo com cada uma delas. O príncipe pensou em muitas coisas e Rasha negou várias delas.“Você sabe que tem que ter um tempo colado com elas, não sabe?”A apresentadora estava com a cara mais entediada do mundo. Como assim as ideias dele tinha que envolver corpo colado? E como assim ele não fazia ideia disso?“Acho que esqueci de ler o manual das provas,” ele ironiza enquanto recruza as pernas.“Vamos, você consegue fazer algo melhor do que só essas coisas chatas. Que tal, acampar?”“Duvido que pelo menos três gostem de ficar um tempo no mato com um punhado de insetos,” ele rebate.Seria interessante, pensou a apresentadora, ver as meninas ficando apavoradas com a ideia e tentando fingir que amaram. Me
OpacoPouco ou nada claro e preciso; difícil de compreender; confuso, incompreensível – dicionário Michaelis.As meninas se reuniram no palco. Os a plateia estava sacudindo as mãos, as duas. Para direita e para esquerda, como se estivessem mostrando que tremiam de tensão. A música era tensa e até a luz estava mais baixa, meio roxa, para afetar ainda mais o público que assistia ao programa. Rasha tinha feito a grande pergunta para Alan:“Quem você elimina hoje?”Magda percebeu que estava tensa com a situação. Ela só não entendeu a razão para aquilo. Era por medo de ser escolhida por Alan e descobrir que estava realmente gostando dele ou era por ser escolhida e perder o dinheiro que Rasha estava lhe oferecendo.Caramba, franziu a testa, quanta coisa uma cabeça podia pensar em tão pouco tempo?A câmera foi passeando por aquelas meninas que mais demonstravam algo. Focaram um pouco mais em Magda, o que causou um reboliço na internet, levantando brigas e teorias sobre a ruiva saber ou não qu
RegraFórmula que indica o modo correto de falar, pensar ou agir, em determinados casos. – Dicionário Michaelis.“Acho que é conversar é o melhor encontro que alguém pode ter.” A câmera foca um pouco mais no rosto sardento de Magda. Ela pensa um pouco, deixa uma gostosa sensação de mistério no ar. “É isso, um simples momento confortável.”Com o sorriso suave da ruiva, a imagem volta para Alan e Rasha. A plateia está aplaudindo, igual ao que fizeram com todas as outras declarações.“Então, você concorda com ela?” Rasha Muniz provoca.“Sim, claro.” O príncipe diz. “Se não podemos ficar confortáveis com quem convive conosco, então será que vale a pena?”Roseane sorri e olha para o marido. O programa está muito interessante para o casal que acompanhava a busca pelo coração de um cara bonitão. “Acho que desta vez,” ela começa com a voz risonha, “você vai perder a aposta.”Julian beija a mão da esposa e a puxa para mais perto. O aconchego do sofá era aumentado pelas cobertas fofas recém limp
InimigoPessoa que tem inimizade, hostilidade a alguém e quer seu mal. – Dicionário Michaelis.Rasha Muniz brilhava no palco de seu programa. Vestida como uma princesa, ela chama Alan ao palco. Gosta como ele parece preencher todo o ambiente, como a plateia grita animada mesmo sem incentivo algum. Eles se abraçam, possuem quase a mesma altura, já que ela está em saltos altos.Sem o microfone ligado, perguntam como estão. O príncipe interage com a plateia saudando-os com um aceno de mão. Está sempre sorrindo, mas de um jeito um tanto fofo, parece até um garoto.“Meu querido,” diz Rasha quando se acomodam nos bancos desconfortáveis, mas capazes de deixar uma postura elegantíssima, “como foram os encontros com nossas garotas?”Alan diz:“Incrível. Elas são incríveis.” Ele é bem politizado.“Então, você conseguiu conhecer um pouco mais delas?”“Olha, Rasha, eu tenho uma tendencia a ser meio lento nisto,” revela. A plateia urra com alegria de saber que ele pode ser lento em algo. Todos ver
PensarTer em mente; pretender, tencionar – Dicionário MichaelisNo dia de gravar a eliminação, Alan não quis sair da cama. O programa estava previsto para ser gravado às 14 horas, mas ele tinha de chegar um pouco mais cedo. O carro da emissora chegaria as 12:30 e teriam um lanchinho para ele quando chegasse.Bom, metade de suas coisas já estavam prontas porque ele sabia que teria aquele desânimo quando acordasse. Era sempre a mesma coisa, ir para o palco do programa, ser bombardeado por perguntas e pegadinhas, lembrar o tempo todo de se manter sorridente e, no final, explicar o motivo de eliminar alguém.As duas primeiras gravações eram para ter sido fáceis. Uma garota que não queria participar? Moleza, ele pensou. O problema é que se interessou demais pela mulher. Aí ficou um pouco mais difícil de eliminar alguém.Alan Pegatto odiava, de todo coração, fazer as pessoas ficarem tristes. Com raiva? Tudo bem, ele podia lidar com a ideia de não gostarem dele; mas magoado? Socorro, ele nã







