LOGINOs meses passaram com amargura. Aquela noite na festa, em que achei ter ganhado um pouco de dignidade, virou fumaça.
Enrique não ficou de braços cruzados vendo a reputação dele cair. Moveu todas as influências para destruir o pouco que me restava. Contratou advogados impiedosos e pagou matérias jornalísticas que me fizeram parecer, para o mundo inteiro, uma louca ressentida, cínica e extremamente interesseira.
Conseguiu virar a história com tanta maestria que eu passei de vítima enganada a mulher má, capaz de tramar da pior forma só por uma herança milionária que, segundo ele, nunca me coube.
Mas eu não fiquei para me enterrar. Decidi ir para Chicago com a Carmen, e ali eu recomeçaria. E embora nos primeiros meses tenha sido difícil conseguir trabalho, eu soube me virar. Claro, isso não é algo de que eu me orgulhe: faz duas semanas que trabalho no Nori, um clube noturno no coração da cidade.
E sim, eu nunca imaginei que ia acabar vestida de coelhinha servindo drink para homens que me devoravam com o olhar. Mesmo assim, por enquanto não tenho outra opção. Minha filha precisa comer e precisa de cuidados, então eu não posso ficar me fazendo de coitada.
A noite avança, e com ela volta Peterson, um velho nojento que não para de me assediar para me ter. Mas nunca vai me ter. Se tem uma coisa que eu jamais vou vender, é o meu corpo e a minha dignidade.
— Vem cá — voltou a me chamar, como sempre.
Parei. Respirei.
— O que o senhor deseja? — tento sorrir.
— Outro uísque — disse, empurrando o copo cheio na minha direção. — Vai, quando você vai me dar o seu nome? Para com essa palhaçada. Mulher que faz esse tipo de trabalho não é tão santa assim.
— O uísque eu trago já — respondi, pegando o copo, olhando direto nos olhos dele. — E eu já falei que o meu nome não importa. Sou só uma funcionária. Vou atrás do seu drink.
Voltei com o uísque, pus na frente dele e virei para ir embora.
— Eu disse para você me dar o seu nome — repetiu, me pegando pelo braço.
Parei. Senti o aperto firme na pele e alguma coisa no estômago se contraiu, uma mistura de medo e de uma raiva que eu já conhecia muito bem.
— Me solta — disse, com a voz baixa e calma, olhando direto para ele.
Ele não soltou. Pelo contrário, apertou um pouco mais.
— Eu só quero conversar. Qual é o problema?
— O problema é que o senhor não tem permissão para me tocar — respondi, puxando o braço com firmeza.
Ele se levantou. E naquele momento, não nego, senti medo.
— As meninas daqui são simpáticas — disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você deveria ser simpática também.
— A moça já pediu para o senhor soltar ela.
A voz surgiu atrás de mim com uma serenidade que contrastava com o barulho do clube. Não era uma voz alta. Também não precisava ser.
Ele virou só um pouco o rosto, irritado com a interrupção, e soltou uma risada carregada de arrogância.
— E quem diabos é você para se meter onde ninguém te chamou? O namorado dela? O marido? Ou é mais um desses imbecis que acham que garçonete precisa de herói?
Não teve resposta imediata.
O homem deu dois passos calmos até ficar ao meu lado, como se aquele velho não representasse ameaça nenhuma para ele. Só então levantei a cabeça para vê-lo com clareza.
Devia medir perto de um metro e noventa. Os ombros largos pareciam capazes de bloquear toda a luz do bar, enquanto a camisa preta, justa sobre um torso firme e uns braços poderosos, marcava cada músculo sem precisar exibir. O cabelo escuro caía um pouco desordenado sobre a testa, dando um ar selvagem que contrastava com a calma absoluta da expressão.
Mas foram os olhos que terminaram de me imobilizar.
Verdes.
De um verde intenso e fundo, tão difícil de descrever quanto de sustentar. Não eram olhos quentes nem amáveis. Eram os olhos de um homem acostumado a sobreviver, de alguém que tinha visto violência demais para se impressionar com mais uma.
Uma cicatriz profunda atravessava a sobrancelha direita e descia até se perder junto do olho. Longe de afeá-lo, endurecia ainda mais um rosto masculino, de traços marcados e uma barba perfeitamente aparada que mal sombreava a mandíbula.
Era, sem exagero, o homem mais imponente que eu tinha visto na vida.
Não sorria.
Não levantava a voz.
Nem sequer parecia irritado.
E, ainda assim, toda a arrogância de Peterson começou a rachar assim que o teve na frente.
— Eu te fiz uma pergunta — insistiu Peterson, tentando sustentar o olhar.
O desconhecido deixou cair a vista sobre a mão que ainda segurava o meu braço e depois voltou a olhar direto nos olhos dele.
— Eu não costumo responder pergunta de homem que não sabe respeitar uma mulher.
— Então some daqui, que isso não é da sua conta — ordenou Peterson.
— Uma pena. Eu não obedeço idiota como você — disse ele, sem se mexer. — Já faz um tempo que a moça está dizendo não, mas parece que você não entende pelo jeito bom. Então te dou três segundos para sair, ou então…
Peterson soltou uma gargalhada seca e desagradável.
— Ou então o quê? — zombou, soltando o meu braço para se virar para ele com os punhos já fechados. — Quem você pensa que é, pedaço de imbecil? Esse problema é entre essa vadia e eu.
Tudo aconteceu em menos de quatro segundos. O homem se lançou sobre Peterson. Por mais que eu tentasse impedi-lo, ele não me escutava. Os golpes iam e vinham; só parou quando se sentiu satisfeito.
— Pede desculpa para a moça. Agora — ordenou ele, fazendo Peterson se ajoelhar diante de mim.
Peterson mal conseguiu se erguer. As pernas tremiam tanto que ele precisou se apoiar numa das mesas para não cair de novo. Tinha o rosto completamente inchado, a camisa manchada de sangue e uma expressão de terror que não se parecia em nada com a arrogância com que, minutos antes, me tinha segurado pelo braço achando que era dono do mundo.
O homem de olhos verdes permaneceu imóvel diante dele. Nem sequer respirava com dificuldade. Parecia que aquela briga não tinha custado o menor esforço.
— Acho que você ainda não entendeu o que eu pedi — disse com uma tranquilidade que resultava muito mais intimidadora do que qualquer grito. — Há um momento eu ordenei que você pedisse desculpa para a moça. Eu não lembro de ter dado permissão para você ficar aí parado me olhando como se fosse a vítima.
Peterson baixou a cabeça. Apertei a bandeja com força entre as mãos. Jamais imaginei ver aquele homem, que fazia semanas tornava a minha vida um inferno, incapaz de sustentar o olhar de alguém.
— Eu… — balbuciou com dificuldade enquanto limpava o sangue do canto da boca. — Moça… peço desculpas. Eu errei com a senhora.
O desconhecido arqueou só um pouco uma sobrancelha.
— Isso foi um pedido de desculpa?
Peterson engoliu em seco. Dava para ver que cada palavra custava mais do que os socos que ele tinha acabado de levar.
— Eu… eu não vou mais me aproximar da senhora. Eu prometo.
O homem esperou Peterson ir embora. Depois virou a cabeça devagar na minha direção.
— Você está bem? Acho que este não é lugar para uma mulher como você.
Não deu tempo de responder à pergunta quando Marcus, o gerente do clube, apareceu correndo, completamente pálido.
— Se eu ficar sabendo que esse rato maldito volta a pôr o pé neste clube e se aproxima dela…
Fez uma pausa. Não levantou a voz. Não precisava.
— Eu mesmo incendeio este lugar.
Marcus baixou a cabeça.
— Entendido, senhor Ivanoff.
Ele girou nos calcanhares e saiu do clube cercado por aqueles homens vestidos de preto.
Fiquei imóvel.
Quem era aquele homem para o meu chefe falar com tanto medo?
Já se passou um ano desde aquela noite em que Mila segurou minha mão e me pediu que construíssemos um futuro juntas. Um ano desde que decidimos deixar o medo para trás e escolher uma à outra sem condições. Hoje, enquanto observo meu reflexo diante do espelho, sinto que a mulher que aparece diante de mim percorreu um caminho enorme para chegar até este momento.O vestido branco que estou usando não representa uma vida perfeita. Representa uma história real. Uma história com feridas, erros, despedidas e reencontros. Representa todas as vezes em que pensei que amar Mila era difícil demais, mas também todas as vezes em que descobri que nosso amor tinha força suficiente para aprender, mudar e crescer.Minhas mãos tremem um pouco enquanto termino de ajeitar alguns detalhes. Não é nervosismo por arrependimento, é a emoção de saber que, depois de tantos anos, vou caminhar em direção à pessoa que ainda consegue me fazer sentir especial com um simples olhar.Ao meu redor estão as pessoas que vir
Cheguei ao meu apartamento com o cansaço acumulado de um dia que parecia nunca terminar. A conversa com Susana, o encontro com Cecilia e aquela estranha sensação de ter fechado uma porta que havia permanecido aberta dentro de mim por tempo demais.Abri a porta e entrei esperando encontrar a tranquilidade de sempre no meu lar. No entanto, assim que atravessei a entrada, percebi que algo estava diferente. Não era uma transformação exagerada nem um cenário impossível, mas pequenos detalhes que falavam de cuidado, de tempo e de alguém que tinha pensado em mim antes de preparar cada coisa.Havia fotos nossas colocadas com delicadeza, lembranças de momentos que eu acreditava terem se perdido e alguns detalhes que pertenciam completamente ao meu mundo. Meu livro favorito sobre a mesa, uma música que eu sempre ouvia quando precisava me sentir melhor e um pequeno bilhete escrito com a letra de Mila.Peguei o papel nas mãos e reconheci aquelas palavras antes mesmo de lê-las. Mila sempre teve um
Acomodei as costas no encosto da poltrona e soltei o ar devagar, tentando relaxar a rigidez dos meus ombros.Três meses tinham se passado desde aquele último pesadelo em que o nome de Fabricio tirava meu fôlego, três meses desde que as sombras do cativeiro deixaram de ser uma ameaça real para se transformarem em fantasmas noturnos.Tudo corria bem na empresa, e Benjamín voltava a sorrir, mas minhas noites continuavam sendo um território hostil onde eu acordava suando e procurando às cegas por um perigo que já não estava ali.A doutora Susana me observava do outro lado da mesa com aquela serenidade paciente que sempre conseguia acalmar minha tempestade interior.Ela ouviu meu relato sobre os pesadelos recorrentes, sobre o medo repentino que me atacava quando eu caminhava sozinha ou ouvia uma porta bater inesperadamente. Era frustrante sentir que, embora minha vida seguisse em frente, uma parte da minha alma continuava presa entre quatro paredes.—Gina, o que você está vivendo é a marca
O tiro arrancou de mim um grito que eu nem sabia que era capaz de dar. Meu corpo inteiro reagiu antes dos meus pensamentos. Lancei-me sobre Mila e o abracei com todas as minhas forças, procurando ferimentos, procurando sangue, procurando algum sinal de que ele ainda estava comigo. Minhas mãos tremiam enquanto percorriam suas costas.—Mila, olha pra mim... por favor, diz que você está bem.Ele me segurou, mas, antes que pudesse responder, ouvi uma voz atrás de nós. Não era a de Fabricio. Era uma voz tranquila, firme, uma voz que eu conhecia bem demais.—Filho, nunca se esqueça do que sempre te ensinei. Mesmo quando você acha que os ratos já estão acabados, cedo ou tarde eles tentam atacar.Virei lentamente e vi Nikolái com a arma ainda erguida. Aos seus pés, Fabricio estava imóvel. Na mão dele ainda havia uma arma, como se, mesmo derrotado, tivesse esperado uma última oportunidade para nos machucar.Senti minhas pernas perderem as forças. Aquilo tudo parecia um pesadelo interminável. E
POV GinaO frio do chão era o que menos me preocupava, a dor física não era nada comparada ao vazio insuportável que corroía meu peito. Presa naquela penumbra nauseante, eu mal conseguia mexer as mãos sem que o metal enferrujado arrancasse pedaços da minha pele.Um nó sufocante apertava minha garganta. Eu sentia uma pontada amarga, um pressentimento terrível que não me deixava respirar. Algo bem dentro de mim dizia que aquele pesadelo não teria um final feliz, que talvez eu nunca mais voltasse a abraçar meu pequeno Benjamín.Pensar na risada dele, nas mãozinhas procurando meu rosto pela manhã, me despedaçou por completo. As lágrimas começaram a cair sem controle, queimando minhas bochechas enquanto um soluço dilacerante escapava do meu peito.—Olhem só a grande dama, chorando feito uma cadela abandonada —a voz de Fabricio ecoou na escuridão.Ouvi seus passos pesados se aproximando. Encolhi-me instintivamente, tentando esconder o rosto inchado de tanto chorar.—Adoro ver você destruída
A tela se iluminou com um arquivo anexado que queimava minhas mãos, marcando as coordenadas exatas de uma zona industrial abandonada nos arredores.Meu coração parou completamente e uma dor insuportável rasgou meu peito quando abri as fotografias horríveis que aquele desgraçado havia me enviado.E lá estava ela, Gina, caída sobre um chão imundo, com o rosto pálido manchado de sangue seco e olheiras profundas que apagavam seu brilho natural.Grossas correntes de aço enferrujado envolviam seus pulsos frágeis. Um rugido animal saiu do lugar mais sombrio da minha alma.Eu golpeei a parede com o punho até deixar meus nós dos dedos destruídos, sentindo os demônios me consumirem por inteiro ao ver sua expressão de exaustão absoluta.—Suka blyat! Yob tvoyu mat! Juro pela minha vida inteira que vou pegar aquele covarde miserável e transformar ele em uma maldita carne moída ensanguentada para dar aos porcos da fazenda. Não vai sobrar nada daquele corpo nojento quando eu terminar de destruí-lo o







