[NYRA 🏍️]
O sábado chegou mais rápido do que eu esperava. Parece que Deus resolveu ouvir minhas orações, porque o dia de trabalho finalmente terminou.
Desliguei o computador, enfiei minhas coisas na bolsa e praticamente corri para a saída.
Meu plano para aquela noite era simples: voltar para casa, tomar um belo banho, beber uma taça de vinho com a toalha enrolada na cabeça e ouvir uma boa música enquanto escolhia uma roupa para minha pequena "noite de fuga" da vida cotidiana.
Nada muito elaborado. Eu só queria algumas horas sem clientes, projetos de shopping e um chefe que parecia acreditar que minha função na empresa era decorar ambientes para mulheres ricas gastarem dinheiro.
Quando cheguei ao apartamento, fui direto para o banheiro.
Desde que me mudei em busca de paz, quase não tive tempo livre. Aparentemente, os clientes preferiam o meu serviço.
Ou essa era a desculpa do meu chefe para jogar uma enxurrada de projetos em cima de mim.
Sério, ele achava que eu só pensava em compras? Era porque eu era mulher? Por isso eu tinha que entender de decoração?
Filho da...
Meu celular começou a tocar.
Olhei para a tela.
Mãe.
Soltei um suspiro demorado.
- Grr...
Eu sabia exatamente o que ela queria. Tentaria me convencer a voltar para a cidade dela, como fazia sempre que conseguia falar comigo por mais de cinco minutos.
O que estava fora de cogitação.
Aquela cidade tinha se tornado sufocante. Não havia uma rua sequer que não me lembrasse de alguma coisa que eu preferia esquecer.
Principalmente dele.
Dimitri tinha ido embora sem sequer me dar um simples adeus. E, por mais que eu tentasse fingir que aquilo já não importava, lembrar daquela noite ainda era suficiente para me deixar furiosa.
Como se não bastasse, minha mãe tinha começado a se relacionar com um canalha.
Eu não aguentava mais vê-la apanhando e fingindo que estava tudo bem depois. O desgraçado me deixou traumas que eu não pretendia colecionar por muito mais tempo.
Meus dezenove anos foram um dos piores aniversários da minha vida. E aquele ano inteiro não ficou muito atrás.
Então, sim, eu fui embora.
Não foi só por Dimitri. Foi por mim também.
Eu precisava sair de lá antes que aquela cidade acabasse com o pouco de mim que ainda restava.
Deixei o celular tocar até parar.
Depois, coloquei uma música para tocar e terminei de me arrumar.
Naquela noite, eu não queria pensar na minha mãe, no meu ex-melhor amigo ou em qualquer outra desgraça que tivesse ficado para trás.
Eu queria correr.
E, pela primeira vez em muito tempo, isso parecia motivo suficiente para sair de casa.
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Corrida ilegal tem cheiro de liberdade.
Gasolina, pneus quentes, motores roncando e aquela arrogância masculina que me dava vontade de acelerar só para calar a boca de todo mundo.
Quando cheguei ao Viaduto Morto, na Zona Leste, já havia uma fila de carros preparados para a corrida. Motos também ocupavam parte do espaço, enquanto grupos de pessoas conversavam perto das máquinas e faziam suas apostas.
Parei minha moto em um espaço livre.
Os olhares vieram quase imediatamente.
Alguns eram curiosos. Outros tinham aquele brilho competitivo de quem acabara de encontrar uma possível adversária.
Opa, carne nova.
Eu conhecia bem aquele tipo de olhar.
E, sinceramente, tinha sentido falta.
Por alguns segundos, fiquei apenas observando a movimentação. A música pulsava pelas caixas de som, os motores faziam o chão vibrar e as pessoas pareciam esquecer que existia qualquer coisa além daquela noite.
Era ali que eu me sentia em casa.
Ou pelo menos era o mais perto disso que eu conseguia chegar ultimamente.
- Bonita sua moto.
Uma garota apareceu do meu lado e encostou a mão no guidão.
Olhei para ela, um pouco incomodada com a intimidade repentina, mas deixei o canto da boca se levantar.
- Bonita sua cara de pau também. Já chega assim encostando nas motos alheias ou sou privilegiada?
Ela soltou uma risada leve.
Tinha cabelos castanhos presos num rabo de cavalo alto, um macacão esportivo que parecia ter sido costurado no corpo e um olhar que não se intimidava facilmente.
- Eu sou Naomy, com Y no final. É a primeira vez que vejo você por aqui. E já chegou com cara de quem vai dar trabalho.
- Você tem cara de quem fala demais.
Tirei a jaqueta e a pendurei na moto.
- Mas obrigada pelo elogio.
- Não foi elogio. Foi constatação.
Ela abriu uma lata de energético e me estendeu outra.
- Toma aí. É de maracujá. Dizem que acalma.
Peguei a lata, mesmo não gostando muito de energético. Muito menos de calmaria.
- Nyra. Meu nome é Nyra.
Toquei minha lata na dela.
- E, se esse energético me acalmar hoje, eu te vendo a moto.
Naomy gargalhou.
- Gostei de você. E olha que não gosto fácil de ninguém.
Nós nos afastamos um pouco da muvuca, o suficiente para não precisar ouvir os comentários sexistas dos idiotas do outro lado da pista.
- Tá aqui por quê? - ela perguntou, apoiando o quadril num dos carros estacionados.
- Porque o mundo é chato e correr me lembra que eu ainda tô viva - confessei.
Não costumava dar papo para qualquer pessoa naquele ambiente, mas aquela garota parecia ser gente boa.
Parecia.
- Intensa - ela comentou, arqueando uma sobrancelha.
- Eu só venho por tédio mesmo. Ou para ganhar umas apostas. Quer que eu aposte em você hoje?
- Só se quiser perder dinheiro.
Sorri de canto.
- Eu corro bem, mas hoje... hoje eu tô com vontade de correr. Não me importo em ganhar ou não.
- Melhor ainda. As que correm com raiva ou só por pura adrenalina são as melhores.
Havia algo nela que me chamava a atenção. Uma segurança um pouquinho exagerada, quase performática. Ainda assim, Naomy era carismática, e eu não estava com vontade de ficar analisando as pessoas naquela noite.
- Sabe... - ela continuou, olhando para o céu encoberto. - Tem gente aqui que corre só para aparecer. Outros correm para esquecer. Qual tipo você é?
Pensei por um instante.
- Eu corro para lembrar que ainda tenho controle de alguma coisa nessa porcaria de vida. Nem que seja por alguns segundos.
Suspirei.
Naomy assentiu como se entendesse.
Talvez entendesse mesmo. Ou talvez só soubesse fingir muito bem.
Antes que ela pudesse responder, meu celular vibrou dentro da bolsa.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Abri.
AVISO A TODOS OS PILOTOS INSCRITOS
As regras da noite estão disponíveis no canal oficial do evento. Apostas paralelas não autorizadas, interferência na pista e tentativas de alterar os resultados serão tratadas como violações graves. Valores apostados devem ser acertados após cada prova. Participantes que descumprirem as regras poderão ser banidos dos próximos eventos.
Logo abaixo, havia uma última linha:
A organização não se responsabiliza por dívidas pessoais, conflitos entre pilotos ou consequências de apostas feitas fora do sistema oficial.
Franzi a testa.
- Que simpáticos - murmurei.
- Recebeu o aviso também? - Naomy perguntou, olhando para o próprio celular.
- Isso é normal?
- Todo mundo recebe quando se aproxima o horário das corridas. É o jeito da organização fingir que controla alguma coisa por aqui.
- E controla?
Ela deu uma risada sem humor.
- Algumas coisas. Outras, nem tanto.
Olhei novamente para a mensagem.
O aviso parecia genérico, mas a parte sobre apostas e conflitos pessoais me chamou a atenção.
- Já aconteceu alguma coisa?
Naomy guardou o celular.
- Digamos que tem gente que não sabe perder. E tem gente que não aceita receber menos do que acha que merece.
- Parece um ambiente muito saudável.
- Você nem imagina.
Antes que eu pudesse perguntar mais, dois motores roncaram alto perto da entrada.
Algumas pessoas se afastaram para abrir caminho.
Um rapaz de sorriso largo demais veio na nossa direção.
- Buenos días, garotas!
Naomy estendeu a mão esquerda, e ele a levou até os lábios num beijo rápido.
Depois, virou-se para mim e fez uma reverência exagerada, aproximando a mão da minha.
Afastei a minha antes que ele pudesse encostar.
- Se tocar em mim, eu arranco sua mão, Don Juan.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- Uau! A moça é mais feroz que pitbull com cólica.
- Não leva para o pessoal, Kael - Naomy comentou, piscando para ele. - A moça parece que teve um mês brabo.
- E não é buenos días, cara. Não sei se já notou, mas tá de noite.
Kael levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
- Perdão, bella. Não consegui raciocinar diante de tantas belezas.
Ele sorriu e olhou para nós duas.
- Então... as senhoritas vão participar da corrida para alegrar a noite?
- Me indique alguém que valha a pena enfrentar! - respondi, um pouco mais alto do que pretendia.
As caixas de som e o barulho dos carros pareceram diminuir justamente naquele instante.
Ótimo.
Meu lado corredor imprudente tinha acabado de anunciar sua chegada para metade do evento.
Kael abriu um sorriso.
- Eu senti cheiro de desafio?
- Você sentiu cheiro de alguém procurando um jeito de perder dinheiro - Naomy respondeu.
- Cruel. Estou cercado de mulheres cruéis.
- Você sobrevive - falei.
Foi quando uma voz masculina surgiu ao meu lado.
- Eu posso resolver isso.
Virei o rosto.
Um homem pálido, de cabelos escuros e expressão convencida, estava parado perto de nós. Era bonito, não vou mentir. Mas tinha aquela aparência de quem passava tempo demais admirando o próprio reflexo.
Ele me avaliou rapidamente.
- Meu nome é Magnus. Mas me chamam de Smoke.
Minha sobrancelha subiu.
Smoke?
Que apelido de merda.
- Smoke? - repeti.
- Exatamente, gatinha. Só conseguem ver a fumaça do meu escapamento quando estou na pista.
- Que intrigante.
Meu sarcasmo pareceu passar direto por ele.
- Já que é assim, não se importa em correr com essa pobre mortal, se importa?
O sorriso dele aumentou.
- Aqueça o motor, gata. Esteja na linha de partida em vinte minutos.
Ele piscou e se afastou.
Observei seu carro, um monstro preto com detalhes cromados e um ronco que parecia anunciar a própria arrogância.
Quando Magnus começou a andar, percebi que mancava levemente.
Talvez fosse uma lesão antiga. Talvez fosse apenas o jeito dele.
Não era da minha conta.
O problema era a reação de Naomy.
Assim que ele se afastou, ela segurou meu braço.
- Você está maluca, mulher?
- Ué, qual é o problema?
O aperto dela diminuiu, mas o olhar preocupado continuou ali.
- O problema é que esse estrupício é o manda-chuva das ruas daqui. Tipo a merda de um mafioso. Não é uma boa ideia correr com ele.
- Por quê? Ele dirige mal?
- Nyra, estou falando sério. Ele não é um bom perdedor.
- Então você acha que eu tenho chance de ganhar?
Naomy me encarou por alguns segundos.
- Eu não sou nova nessa área, querida. Sei quando uma pessoa é boa... ou quando só faz pose.
- Fico lisonjeada.
Afastei as mãos dela dos meus ombros.
- Mas eu sei me cuidar. E sei quais decisões tomo.
- Puta merda, mulher. Você é completamente doida - Kael comentou.
- Obrigada.
Dei um pequeno sorriso e pisquei para ele.
Eu precisava daquela corrida.
Não sentia uma ansiedade boa assim havia anos. E tinha certeza de que a sensação seria ainda melhor quando cruzasse a linha de chegada.
- Só tem uma coisa que você precisa saber - Naomy disse, agora mais séria.
- Lá vem.
- Magnus não controla só as corridas. Ele também movimenta muito dinheiro por meio das apostas. Tem gente que deve dinheiro para ele há meses. E tem gente que prefere obedecer a perder tudo.
Olhei na direção do carro preto.
- E você está me contando isso agora por quê?
- Porque você acabou de desafiar o cara que mais gosta de transformar uma derrota em problema dos outros.
Kael cruzou os braços.
- Eu, no seu lugar, escolheria outro adversário.
- Ainda bem que não sou você.
Naomy soltou um palavrão baixinho.
- Você vai acabar me dando cabelos brancos.
- Relaxa. Se eu perder, você pode dizer que tentou me impedir.
- E se ganhar?
Sorri.
- Aí você vai ter uma história ótima para contar.
---
Vinte minutos depois, eu estava na linha de partida.
Ajoelhei ao lado da moto para conferir os pneus e fazer meu pequeno ritual antes da corrida. Talvez fosse superstição. Talvez eu só gostasse de ter alguns segundos para me concentrar antes de colocar minha vida nas mãos de duas rodas.
Magnus já estava dentro do carro.
Um monstro preto e cromado que parecia ter sido montado para intimidar qualquer pessoa que ousasse ficar ao lado dele.
Pelo sorriso que me lançou através da janela, ele acreditava que a vitória já estava garantida.
Levantei, me alonguei e montei na moto.
Os pneus estavam aquecidos. O motor respondia bem. Eu conhecia aquela máquina e confiava nela.
Era o suficiente.
Um dos organizadores se aproximou e explicou o percurso. A corrida teria um trajeto fechado, com trechos de reta e curvas apertadas, terminando no mesmo ponto de partida. Havia espaço para ultrapassagens, mas qualquer interferência deliberada na trajetória do adversário resultaria em desclassificação.
A regra existia no papel.
Eu só esperava que todos tivessem a decência de respeitá-la.
Magnus abaixou o vidro.
- Vai conseguir me alcançar, docinho?
- Só se eu desacelerar para te esperar.
Girei o punho do acelerador, deixando o motor responder por mim.
- E isso só se eu estiver com pena.
Ele riu.
Aquela risada de quem acredita estar no controle. De quem olha para uma mulher e enxerga apenas um adereço no próprio espetáculo.
O sinalizador subiu.
Três.
Dois.
Um.
A largada veio acompanhada pelo rugido das máquinas e pelos gritos da multidão.
A moto disparou sob meu corpo.
O vento bateu no meu rosto, e a cidade virou um borrão de luzes e sombras. Por alguns segundos, não existiam clientes, contas, lembranças ou telefonemas ignorados.
Só a pista.
E eu estava de volta.
Magnus assumiu a dianteira na primeira reta.
Não me surpreendeu. O carro tinha potência de sobra, e ele sabia disso.
Mantive a distância, esperando uma oportunidade. Na primeira sequência de curvas, ele tentou fechar meu espaço, obrigando-me a reduzir a velocidade por um instante.
- Filho da puta! - gritei dentro do capacete.
Ele queria me fazer perder o ritmo.
Não ia conseguir tão fácil.
Recuperei a velocidade na saída da curva e me aproximei. Quando a pista abriu, avancei pela lateral permitida, sentindo o carro dele ocupar cada vez mais espaço no meu campo de visão.
Magnus tentou manter a dianteira.
Eu não aliviei.
Por alguns segundos, ficamos lado a lado.
Então veio a próxima curva.
Ele entrou rápido demais.
Eu percebi antes que ele corrigisse a trajetória.
Inclinei a moto e passei por dentro, aproveitando o espaço que ele havia deixado. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta.
Quando olhei pelo retrovisor, o carro preto estava atrás.
Não muito.
Mas estava.
A reta final se aproximava.
Magnus acelerou com tudo, recuperando parte da distância. Eu me inclinei sobre o tanque, mantendo a moto estável enquanto o motor gritava sob minhas mãos.
A linha de chegada apareceu à frente.
Mais alguns metros.
Mais alguns segundos.
Cruzei primeiro.
O barulho da multidão explodiu ao meu redor.
Só consegui soltar o ar quando reduzi a velocidade e parei em segurança.
Tirei o capacete, respirando com dificuldade, e passei a mão pelo cabelo grudado na testa.
Caralho.
Eu tinha conseguido.
Não era só sobre vencer. Era sobre sentir que ainda existia alguma coisa capaz de me arrancar daquele estado de apatia em que eu vinha vivendo.
Por alguns minutos, eu não estava tentando esquecer nada.
Estava ocupada demais vivendo.
- CARALHO, NYRA!
Kael veio na minha direção com os braços erguidos, como se tivesse acabado de ganhar a Copa do Mundo.
- Você engoliu aquele otário!
- Você apostou em mim? - perguntei, rindo.
- Apostei que você ia sobreviver. Ganhar foi um bônus maravilhoso!
Naomy chegou logo depois, com um sorriso orgulhoso.
Ela me abraçou como se já fôssemos amigas havia anos.
- Eu disse que você era gasolina pura, gata.
- Você disse que eu era doida.
- As duas coisas podem ser verdade.
Ri e devolvi o abraço.
Por alguns segundos, deixei a felicidade tomar conta.
Até ouvir a porta de um carro bater com força.
Magnus tinha chegado.
E não parecia feliz.
Ele caminhou em nossa direção com a mandíbula travada e as mãos fechadas.
A multidão começou a se aproximar, atraída pelo espetáculo que todos pareciam esperar.
Magnus parou diante de mim.
- Isso foi sorte.
Sua voz saiu baixa, mas carregada de raiva.
- Uma garota de moto não pode me vencer assim. Você deve ter trapaceado.
Inclinei a cabeça.
- Aww, Smoke. Que pena. Está engasgado com a própria fumaça?
Ele estreitou os olhos.
- Você não pertence a esse mundo, garota. Isso aqui é jogo para gente grande.
Cruzei os braços.
- E você só j**a quando acha que vai ganhar, né, macho alfa? Quer um lenço para chorar?
Algumas pessoas riram.
Outras ficaram em silêncio.
Magnus olhou ao redor e pareceu perceber que estava fazendo exatamente o que eu queria: dando um espetáculo para todo mundo.
O sorriso dele desapareceu.
- Aproveita enquanto pode - disse, aproximando-se o suficiente para que só eu ouvisse. - Você ganhou uma corrida. Não significa que conhece as regras daqui.
Sustentei o olhar.
- Se tiver alguma regra que eu não conheço, pode mandar imprimir. Eu leio.
Ele soltou uma risada sem humor.
- Vamos ver se continua engraçada quando descobrir quanto custa me fazer passar vergonha.
Magnus se afastou sem esperar resposta.
Dessa vez, ninguém riu.
Acompanhei-o com os olhos até que entrasse no carro.
Naomy apareceu ao meu lado.
- Eu avisei.
- E eu ganhei.
- Nyra...
- O quê? Quer que eu chore porque um homem mimado perdeu uma corrida?
Ela respirou fundo.
- Não. Quero que você entenda que ele acabou de ameaçar você sem precisar levantar a voz.
Olhei para o carro preto.
Pela primeira vez naquela noite, a vitória não pareceu tão simples.
Meu celular vibrou dentro da bolsa.
Era uma nova notificação no mesmo canal usado para enviar o aviso aos participantes.
RESULTADO REGISTRADO: NYRA.
Logo abaixo, uma mensagem da organização:
A disputa foi concluída. O resultado está confirmado. Qualquer tentativa de interferência posterior deverá ser comunicada à equipe responsável.
Mostrei a tela para Naomy.
- Pelo menos alguém aqui parece saber fazer o próprio trabalho.
Ela não riu.
- O aviso existe por um motivo. No mês passado, um piloto perdeu uma aposta alta e tentou resolver a dívida ameaçando o vencedor. A organização precisou intervir. Desde então, mandam as regras para todo mundo e registram os resultados.
Olhei novamente para a mensagem.
Então era por isso que o aviso falava sobre dívidas e conflitos pessoais.
Não era uma ameaça direcionada a mim. Era um procedimento para todos os participantes.
Mesmo assim, não consegui esquecer a última frase de Magnus.
Você ainda vai descobrir.
- Não fica pensando nisso agora - Kael disse, tentando recuperar o clima. - Você ganhou. Aproveita a noite, pelo amor de Deus!
- Concordo com ele - respondi, colocando o capacete debaixo do braço. - Hoje eu vou comemorar.
Naomy ergueu a lata de energético.
- À primeira corrida da Nyra!
Toquei minha lata na dela.
- E à última vez que eu corro com um idiota desses.
Kael começou a rir.
Naomy também.
Eu ri junto.
Mas, quando olhei novamente para o carro preto, vi Magnus observando na nossa direção.
Ele não parecia mais furioso.
Parecia estar esperando alguma coisa.
E eu tive a desagradável sensação de que aquela corrida não tinha terminado quando cruzei a linha de chegada.