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Capítulo 1

last update publish date: 2026-10-19 04:52:24

[NYRA 🏍️]

— Merda!

Saí da cama num pulo e quase fui de cara no chão por causa de uma bota largada no meio do quarto.

Ótimo. Mais um dia começando maravilhosamente bem.

As latinhas de cerveja continuavam espalhadas pelo chão, minhas roupas estavam jogadas na cadeira e o despertador provavelmente já tinha tentado me acordar umas cinco vezes.

Corri até o espelho.

Cabelo desgrenhado. Olheiras. Rímel borrado.

Uma beleza de milhões.

Prendi os cachos num rabo de cavalo, lavei o rosto e escovei os dentes na velocidade da luz.

— Vamos, garota. Você só precisa sobreviver até o fim do expediente.

Peguei a bolsa, enfiei as pastas do escritório dentro dela e saí do apartamento praticamente correndo.

Dez minutos atrasada.

De novo.

A rua estava um caos. Buzinas, gente apressada, motores roncando e aquele calor que fazia o asfalto parecer derreter.

Coloquei o capacete, subi na moto e girei a chave.

O motor respondeu com um ronco familiar.

Finalmente, alguma coisa na minha vida ainda funcionava direito.

Acelerei.

Trabalhava num escritório de arquitetura. Sim, eu sei. A ironia era quase ofensiva.

Eu, que sempre preferi velocidade, barulho e a possibilidade de fazer alguma besteira, passava os dias desenhando prédios para gente rica que achava que mudar a cor de uma parede era uma questão de vida ou morte.

— Menos emoção, mais estabilidade — resmunguei, desviando de um carro. — E um salário que mal paga minha vontade de pedir demissão.

O problema era que eu precisava daquele dinheiro.

Depois de tudo o que aconteceu, mudar de cidade tinha parecido a melhor saída.

Eu precisava de distância. De um lugar onde ninguém soubesse meu nome, onde as ruas não guardassem lembranças e onde pudesse começar de novo sem ter que explicar por que eu tinha ido embora.

Não foi apenas por causa de Dimitri.

Mas o desaparecimento dele foi a última coisa que me fez perceber que eu não aguentava continuar naquela cidade.

Eu tinha perdido muita coisa em pouco tempo. Algumas pessoas, algumas certezas e uma versão de mim que parecia ter ficado presa naquela última noite.

E, por mais que tentasse seguir em frente, havia uma coisa que eu ainda não tinha conseguido deixar para trás.

Dimitri.

Apertei o guidão.

Fazia anos que ele tinha desaparecido sem me dar uma explicação decente. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada.

No começo, esperei.

Depois, procurei respostas.

Por fim, fiquei com raiva.

Era mais fácil acreditar que ele era um covarde do que admitir que uma parte de mim ainda se preocupava com o que poderia ter acontecido.

— Filho da puta — murmurei.

O sinal abriu.

Acelerei e virei na avenida principal. Foi quando vi um carro preto parado mais adiante.

Não era apenas preto. A pintura fosca parecia engolir a luz, as rodas eram largas e o motor tinha um ronco grave.

Diminuí a velocidade por instinto.

Por um segundo idiota, imaginei um Skyline R34 preto. Um sorriso torto. Olhos que sempre pareciam esconder alguma coisa. Uma voz me chamando de Tigresa.

Voltei a acelerar e não olhei para trás.

---

Cheguei ao escritório com dez minutos de atraso e um humor capaz de assustar qualquer pessoa com bom senso.

A recepcionista ergueu os olhos do monitor.

— Bom dia, Nyra. Já tem cliente esperando.

— Que ótimo. Também estava com saudade deles.

Ela fingiu não ouvir.

Joguei a bolsa no canto da mesa, liguei o computador e abri os arquivos do projeto Torres & Silva.

Nem cinco minutos depois, meu chefe apareceu.

— Nyra, você revisou os renders?

Respirei fundo.

— Estou abrindo agora.

— Eles pediram uma paleta menos agressiva. Precisamos entregar a nova versão hoje.

Menos agressiva.

Era um prédio comercial, não uma declaração de guerra.

Mordi a língua.

— Tudo bem. Eu resolvo.

Ele saiu sem agradecer.

Um talento impressionante.

Passei a manhã corrigindo projeções, ajustando cores e ouvindo opiniões de pessoas que acreditavam que assistir a um programa de decoração as tornava especialistas em arquitetura.

Eu gostava do meu trabalho. Gostava de desenhar, de criar alguma coisa a partir de uma folha em branco e de imaginar como as pessoas ocupariam um espaço que antes só existia na minha cabeça.

Mas, ultimamente, tudo parecia sem graça.

Eu tinha passado tanto tempo tentando construir uma vida segura que já não sabia se aquela vida era realmente minha.

Na hora do almoço, levei meu cigarro para a lateral do prédio.

Eu tinha prometido parar.

Outra promessa que não durou muito.

Estava terminando de fumar quando dois entregadores pararam perto dali, conversando ao lado das motos.

— Dizem que a corrida de sábado vai ser insana — comentou um deles. — Viaduto Morto. Mais de trinta mil pro vencedor.

Dei uma tragada.

Não estava interessada.

Pelo menos era o que pretendia pensar.

— O campeão da última corrida nem confirmou presença. Tem uma vaga aberta no ranking.

Meu olhar se desviou para eles.

Corridas ilegais.

Motores rugindo. Pneus queimando. O vento batendo no rosto enquanto o mundo inteiro virava apenas uma linha de chegada.

Fazia tempo demais.

— Você vai participar? — perguntou o outro.

— Tô pensando. Mas ouvi dizer que tem gente antiga voltando pra pista.

Meu cigarro parou no meio do caminho até a boca.

— Gente antiga? — perguntei, antes de conseguir me impedir.

Os dois olharam para mim.

— Pilotos que sumiram há um tempo. Nada confirmado — respondeu um deles. — Por quê? Conhece alguém?

Soltei uma risada sem humor.

— Não. Só gosto de saber onde não devo me meter.

Joguei a bituca no lixo e voltei para dentro.

Meu coração, porém, continuou lá fora.

Naquela tarde, errei uma projeção simples, perdi meia hora tentando recuperar um arquivo e ouvi meu chefe reclamar de uma coisa que nem era minha culpa.

Eu deveria ter ficado irritada.

Em vez disso, passei o resto do expediente pensando na corrida.

Trinta mil reais não mudariam minha vida.

Mas uma noite na pista talvez me lembrasse de quem eu era antes de começar a fugir de tudo.

---

Na saída do trabalho, peguei a moto e fui direto para a oficina do Zico.

O lugar estava bagunçado. Ferramentas espalhadas, cheiro de óleo, peças empilhadas e uma placa na entrada que provavelmente estava torta desde antes de eu conhecer aquele homem.

Zico estava debruçado sobre uma moto quando me viu.

Parou de trabalhar.

Olhou para mim.

Depois para a minha moto.

Então abriu um sorriso lento.

— Olha só quem resolveu sair da aposentadoria.

— Não começa! — Resmunguei sem paciência

— Eu nem falei nada.

— Sua cara falou tudo.

Ele soltou uma risada e limpou as mãos num pano encardido.

— Quanto tempo faz?

— Tempo demais.

O sorriso dele diminuiu um pouco.

Zico tinha me conhecido antes da mudança. Antes de eu aprender a fingir que estava tudo bem. Antes de tudo ir ladeira a baixo na minha vida.  um buraco que eu tentava preencher com trabalho, noites mal dormidas e decisões questionáveis.

Zico me ajudou a mudar de cidade, somos praticamente sócios já que concerto minha moto praticamente de graça na oficina

Ele sabia que eu não tinha ido embora daquela cidade apenas por causa de Dimitri.

Havia outras coisas.

Coisas sobre as quais eu ainda não gostava de falar.

— O que você precisa? — perguntou.

— Revisão completa. Suspensão, freios e uma olhada no motor.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Sábado?

— Então você já esta sabendo

Zico ficou quieto por um instante, examinando meu rosto.

— É, eu tenho minhas fontes. Tem certeza de que quer voltar?

Olhei para a moto.

Era ridículo, mas eu sentia falta até do cheiro de gasolina nas roupas. Sentia falta de ter alguma coisa em que pensar além do passado.

— Não sei se quero — respondi. — Só sei que preciso.

Ele assentiu devagar.

—  Nyra. Você mudou muito desdeque viemos pra cá.

— Todo mundo muda.

— É. Mas nem todo mundo consegue voltar para o lugar onde se perdeu. Certeza que esta pronta?

A frase me irritou justamente porque ele tinha razão.

Peguei o capacete e o coloquei sobre o banco.

— Vai consertar minha moto ou pretende passar a tarde inteira fazendo terapia de graça?

Zico riu.

— Você que manda senhorita

Enquanto ele começava a trabalhar, fiquei observando o céu escurecer pela porta aberta da oficina.

Uma corrida, talvez fosse exatamente a pior ideia que eu poderia ter naquele momento.

decidi ir, não pelo dinheiro. Nem pelo ranking.

Eu queria sentir o motor vibrando sob minhas mãos, e aquela velha certeza de que, enquanto estivesse na pista, ninguém poderia me parar

Nem mesmo o fantasma do Dimitri.

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