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Era a primeira vez que Letícia preenchia um formulário com essa palavra. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela respirou fundo. Havia dois serzinhos que precisavam muito que ela fosse forte agora.
— Letícia, que bom que você voltou. Espero que as crianças puxem mais a você do que à peraltice do Heitor. Elas riram. — Dona Celina, sinto lhe decepcionar, mas a Luísa só puxou a mim na aparência. No resto, é tudo do pai. Já o Eduardo é mais calminho. Riram novamente, enquanto Dona Celina lhe contava algumas das artes que Heitor havia aprontado naquela época — afinal, ele era oito anos mais velho e não haviam frequentado a escola no mesmo período. — Como era sorridente e amado aquele menino… — concluiu Dona Celina. — Você acredita que, todos os anos, no meu aniversário, ele me mandava flores com um bilhete usando um dos meus “bordões”? O último foi: “galinha que acompanha pato morre afogado”. E, por fim, assinava: seu peralta favorito. Ela sorriu entre lágrimas. — Nesse último aniversário, obviamente, não recebi nada. Tenho que te confessar: foi o que mais senti falta, com toda certeza. Entre sorrisos e lágrimas, elas se despediram. Era verdade. No último ano não havia como ter presente enviado, nem cartão pensado com carinho. Heitor não estava mais lá. Já ia fazer um ano. Que saudade. — Dona Celina, muito obrigada por aceitar a matrícula das crianças em cima da hora… e mais ainda por ter vindo me receber pessoalmente. — Oh, querida, imagina! Eu mal pude acreditar quando sua sogra me contatou. Nem parecia real saber que os filhos da minha aluna mais brilhante estudariam aqui. Que bom poder te rever… você passou por tanta coisa nessa vida e está aqui, ainda mais linda e doce do que há sete anos. Letícia estava prestes a se emocionar de novo quando o celular vibrou. Era Eduarda, sua cunhada e melhor amiga de uma vida inteira. Ela sorriu e se despediu. — Dona Celina, agora eu tenho mesmo que ir. A Duda está com as crianças, e temo que meus filhos apareçam com um pônei… ou quem sabe uma girafa. — Tchau, querida. Nos veremos muito. No carro, Eduarda cantava aos berros com os sobrinhos e fazia planos para os próximos trezentos fins de semana. — Lulu, Edu, no próximo final de semana podemos ir… A frase foi cortada com a porta do carro se abrindo. — Aonde a senhorita está pensando em levar meus filhos, dona Eduarda? As crianças explodiram em festa. — Mamãe, mamãe! A xixia Duda vai levar a gente pá paia! — disse Edu, em seu próprio idioma, derretendo o coração das duas. — Bom, isso vamos ver… Agora vamos almoçar, porque eu estou morrendo de fome e já passou da hora desses monstrinhos almoçarem. — Pois não, mademoiselle — brincou Eduarda, enquanto dirigia para o restaurante. — Se seus sogros souberem que levei vocês pra almoçar antes mesmo de passar em casa, me deserdam. — Já estou bagunçando a vida deles me hospedando com as crianças nesse primeiro mês… não quero incomodar mais, se é que isso é possível — concluiu Letícia, com um sorriso discreto. — Tá louca, Leh? Você é família. A casa é sua. Letícia não respondeu. Apenas sorriu, mas sabia que a família Lários sempre a tratara como uma deles. Nunca houve distinções, nunca perguntas demais — apenas acolhimento. Talvez por isso sentisse aquele aperto silencioso no peito sempre que pensava nos segredos que ela e Heitor haviam guardado por todos esses anos. Dez minutos depois, adentraram o restaurante rindo como duas adolescentes. Quem olhasse de fora jamais diria que haviam passado tanto tempo longe uma da outra. — Leh, vai na frente, já reservei a mesa pra gente. Esqueci meu celular no carro. — A tia Duda só não esquece a cabeça porque está grudada, Lulu. Vamos entrar. Ela informou o nome da reserva e, enquanto o recepcionista a conduzia até a mesa, sentiu o chão afundar sob seus pés. Ali, à sua frente, estava seu primeiro namorado. Aquele que a havia feito voar… e, logo depois, cortado suas asas.Pedro, que estava encostado na bancada da cozinha observando a cena, arqueou uma sobrancelha. — Ah, é? Só ela? Ricardo olhou desconfiado. — Lá vem você. Pedro fingiu dar de ombros. — Então tá bom. Vou guardar a surpresa pro próximo aniversário de alguém. Norma virou o rosto imediatamente. — Que surpresa? Pedro tentou segurar o riso. — Nada demais. — Pedro Lários. O tom de mãe fez todo mundo rir imediatamente. Mas então o sorriso dela diminuiu um pouco. — Vocês não estão cogitando a ideia da Letícia aceitar aquele doutorado na Alemanha ainda, né? O ambiente ficou em silêncio por um segundo. Pedro olhou rapidamente pra Letícia antes de rir baixo. E então passou o braço pela cintura dela, puxando ela pra mais perto. — Não, dona Norma. Ele sorriu. — Acho que dessa vez a senhora vai gostar da novidade. Norma já levou a mão ao peito. — Meu Deus… vocês tão me assustando. Pedro riu. Depois olhou pra mesa inteira. Pros filhos. Pra família reunid
Nesse momento, a porta da casa se abriu outra vez.E Luísa apareceu primeiro, carregando a própria mochila enquanto Joaquim vinha logo atrás, com outra bolsa jogada no ombro.— Tio Pedro!Luísa abriu um sorriso imediato ao ver ele.Pedro abriu os braços automaticamente e ela foi até ele sem pensar duas vezes, recebendo um beijo carinhoso na testa.Aquilo já era natural entre eles.Pedro nunca tentou ocupar o lugar de André.Mas, ao longo dos anos, tinha virado outra figura paterna pra ela sem nem perceber quando aconteceu.E Luísa claramente adorava os dois.Assim que se afastou dele, foi direto até Letícia e abraçou a cintura dela.— Oi, mãe.Letícia sorriu imediatamente, beijando os cabelos dela.Enquanto isso, Joaquim se despedia de Carla com um abraço rápido e um beijo no rosto.— Se comporta — Carla avisou.— Não prometo nada.— Eu acredito.Mas antes que qualquer outra conversa começasse, Luísa já voltou pro assunto mais importante da cabeça dela.— Mãe… depois do café com o vov
O carro parou em frente à casa de Carla poucos minutos depois.Ainda cedo, o bairro parecia silencioso, preguiçoso, com aquele clima tranquilo de manhã de fim de semana. Pedro desligou o carro enquanto Letícia ajeitava Lara na cadeirinha.— Eu vou pegar ela rapidinho.Pedro assentiu.— Tá bom.Mas antes mesmo que Letícia terminasse de abrir a porta do carro, a porta da casa se abriu.Carla apareceu na varanda primeiro.O cabelo preso de qualquer jeito.Moletom largo.Cara de puro cansaço.Letícia começou a rir imediatamente.— Nossa, você tá péssima.Carla soltou uma gargalhada cansada enquanto descia os degraus da varanda.— Você também não tá exatamente maravilhosa.As duas se abraçaram logo em seguida.Forte.Natural.Cheio daquele carinho confortável de quem realmente aprendeu a se gostar.Carla deixou um beijinho no rosto dela antes de se afastar um pouco.— O que aconteceu com você?Ela estreitou os olhos.— Tá com cara de quem aprontou.Letícia tentou segurar o riso.— Eu vou c
Letícia ainda ria baixinho quando o pequeno resmungo voltou a soar no mini berço ao lado da cama. Pedro virou imediatamente o rosto na direção da filha, como se tivesse um radar específico pra qualquer barulho dela. E o sorriso dele mudou na hora. Ficou mais leve. Mais bobo. Mais apaixonado. — Bom dia, pituca… A voz saiu baixa enquanto ele se esticava até o mini berço. Letícia observou em silêncio enquanto ele pegava Lara com cuidado, trazendo a bebê pro colo e sentando novamente na cama, apoiado na cabeceira. A pequena ainda tinha os olhinhos inchadinhos de sono, o cabelinho bagunçado e as bochechas vermelhinhas, mas assim que viu o pai… sorriu. Um sorriso banguela. Aberto. Daqueles que desmontavam qualquer pessoa. Pedro soltou uma risada baixa imediatamente. — Ah, não… não faz isso comigo essa hora da manhã, meu amor. Lara movimentou os bracinhos animada, soltando um som feliz enquanto tentava agarrar a camisa dele. Pedro beijou a bochecha dela devagar. — Isso… con
Os primeiros raios da manhã atravessavam a cortina clara do quarto em faixas douradas, iluminando devagar o ambiente silencioso. O ar ainda tinha aquele clima preguiçoso de madrugada acabando, misturado ao cheiro suave de bebê e do perfume de Pedro no travesseiro. Letícia resmungou baixinho, tentando virar o rosto para fugir da claridade. Os olhos ainda pesados de sono demoraram alguns segundos para abrir completamente. E quando abriu— encontrou Pedro olhando pra ela. Sorrindo. A cabeça apoiada na mão, deitado de lado, completamente acordado enquanto observava ela dormir como se estivesse fazendo aquilo havia horas. Letícia fechou os olhos de novo na mesma hora, soltando uma risadinha abafada. Depois virou lentamente pra ele. — Eu já disse que você precisa parar de fazer isso. A voz saiu rouca de sono. — É assustador. Pedro riu baixo. Aquele riso preguiçoso de manhã. E então se aproximou devagar, subindo parcialmente sobre ela para deixar um beijo demorado no rosto dela.
O silêncio dentro do escritório improvisado era sufocante.Miguel mantinha a arma passeando lentamente entre eles, observando cada reação com um brilho doentio nos olhos, como se estivesse aproveitando cada segundo daquele terror.Pedro permanecia levemente à frente de Letícia, o corpo inteiro tenso, enquanto Daniel segurava Eduarda contra si, protegendo automaticamente a barriga dela com uma das mãos.André ainda mantinha a arma apontada.Mas o clima tinha mudado.Porque agora todos sabiam:Miguel estava disposto a matar.E ele estava gostando disso.O sorriso dele aumentou devagar enquanto caminhava de um lado pro outro.— Nossa… olha isso.A voz saiu quase divertida.— Todo mundo junto por você, Letícia.O olhar dele deslizou por cada um ali.— O pai da sua filha.A arma passou rapidamente por André.— O amor da sua vida.Parou em Pedro.— O marido da sua melhor amiga.Daniel.E então voltou pra ela.— Será que sua vida vale tudo isso mesmo?Letícia sentiu o peito subir rápido dema







