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Deixou de Ser Sombra, Tornou-se Rainha
Deixou de Ser Sombra, Tornou-se Rainha
Author: Fumaça Azul

Capítulo 1

Author: Fumaça Azul
— Nathan, volto para Oeiras em quinze dias. Vamos nos casar.

Aninhada no sofá escuro da varanda do bar, Cecília Queirós dizia aquelas palavras com uma calma absoluta ao telefone. Do outro lado da linha, uma voz masculina, magnética e distante, respondeu de imediato:

— Cecília, se a memória não me falha, há dois meses você rompeu nosso noivado por causa desse seu suposto namorado.

Cecília pressionou os lábios, sentindo o gosto amargo das lembranças.

Dois meses atrás, ela planejava levar Noah Freitas, seu namorado de sete anos, para conhecer seus pais. No entanto, assim que tocou no assunto, recebeu a notícia de que as famílias Queirós e Pereira planejavam uma união, e que Nathan Pereira era seu noivo oficial.

Por amor a Noah, ela enfrentou a família, brigou feio e acabou mandando o próprio pai, Rafael Queirós, para o hospital. Na época, firmou uma aposta com eles, jurando que seria feliz para sempre com Noah e provaria que sua escolha estava certa. Contudo, em apenas sessenta dias, todo o amor que sentia foi corroído pela parcialidade constante de Noah em relação a Júlia Pires, sua irmã adotiva.

E hoje foi a gota d’água.

Era o aniversário de namoro deles. Noah a deixou esperando e foi para um bar flertar com Júlia.

Apertando o celular com força, Cecília respondeu num tom suave, mas carregado de uma determinação inabalável:

— Vou terminar com ele.

— Precisa de ajuda? — A voz do homem soou cortante, com uma agressividade latente.

— Não, obrigada. — Recusou ela. — Vou resolver tudo entre nós e limpar essa bagunça sozinha, não quero te dar trabalho. Dediquei muito esforço à empresa dele nos últimos anos e preciso de um tempo para recuperar o que é meu. Espero que possa esperar.

— Tudo bem. Te vejo no aeroporto daqui a quinze dias. — Concordou Nathan, encerrando a chamada logo em seguida.

Cecília guardou o aparelho e permaneceu imóvel por um instante, o olhar perdido no vazio. Então, levantou-se do sofá e caminhou em direção a um dos camarotes no segundo andar do bar.

Antes mesmo de se aproximar, o som da algazarra lá dentro chegou aos seus ouvidos. Risadas, gritos e incentivos. Noah e Júlia eram o centro das atenções.

Ao colocar a mão na maçaneta, as vozes lá dentro se tornaram mais nítidas, revelando a crueldade da cena.

— Eles se morderam! O Noah usou a língua, eu vi! Ninguém supera o Noah nessa rodada!

— É só um copo de bebida, pra que esse esforço todo?

— Você não sabe de nada? A bebida é o de menos, o prêmio é a nossa Júlia! Se ela perdesse, teria que dançar com um desconhecido lá embaixo. Você acha mesmo que o Noah deixaria outro homem chegar perto dela?

— Mas... o Noah não tem namorada?

Até o momento em que Cecília escancarou a porta do camarote, ninguém notou sua presença. Apenas quando as pessoas mais próximas da entrada sentiram a mudança na atmosfera e se cutucaram, o silêncio começou a se espalhar.

Cecília parou à porta, os braços cruzados, observando friamente a cena. Noah segurava Júlia com uma expressão de adoração, suas mãos grandes amassando a cintura dela com uma intimidade possessiva e vulgar. Se houvesse uma cama ali, Noah provavelmente não teria se contido.

— Ce... Cecília? — Gaguejou alguém, como se tivesse visto um fantasma.

Ao ouvir o nome, Noah abriu os olhos abruptamente. Ao encontrar o olhar irônico de Cecília, sua expressão mudou para um constrangimento visível. Ele soltou a garota em seus braços, afastou as pessoas ao redor e caminhou até a namorada, tentando manter a voz firme:

— O que você faz aqui?

A audácia dele em parecer ofendido fez o escárnio no fundo dos olhos de Cecília aumentar. Ela desviou o olhar por cima do ombro dele, encarando o sorriso provocativo de Júlia, e disparou:

— Você por acaso esqueceu que dia é hoje?

Era o aniversário de namoro deles.

A compreensão atingiu Noah como um soco, e a irritação franziu sua testa. Ele tentou se justificar rapidamente:

— A Juju estava num dia péssimo, por isso chamei o pessoal para animar ela. O que você viu agora foi só um jogo que a galera inventou, eu só estava...

— Eu sei. — Interrompeu Cecília, com uma calma enervante. — É só um jogo. Eu não me importo.

As palavras de Noah morreram na garganta. Ele franziu o cenho, confuso com a reação dela, e estava prestes a sugerir que fossem embora quando foi interrompido.

— Cecília, me perdoa, de verdade. — Júlia se adiantou, segurando uma taça de bebida, com a expressão mais inocente que conseguiu forjar. — Terminei meu namoro hoje e arrastei o Noah para me fazer companhia. Por favor, não culpe ele, a culpa é toda minha. Já que você está aqui, por que não fica com a gente? Essa bebida foi preparada por um barman que o Noah contratou especialmente para mim. Experimenta.

O olhar de Cecília desceu pelo pescoço de Júlia, notando as marcas vermelhas visíveis pelo decote propositalmente aberto. Mais acima, o batom borrado denunciava o que havia acontecido.

Provocá-la assim, na frente de todos? Júlia devia achar que ela era uma idiota passiva.

O sorriso de Cecília se aprofundou, perigoso.

— É mesmo?

Antes que a outra pudesse responder, Cecília completou, o tom carregado de veneno:

— E comparado à saliva do namorado dos outros, qual tem o gosto melhor, irmã?

Ela enfatizou a palavra "irmã" com escárnio, fazendo com que todos na sala se lembrassem da relação familiar entre os dois. Mesmo sendo adotiva, Júlia era irmã de Noah perante a sociedade, e acabara de beijá-lo ardentemente na frente de todos.

Num instante, os olhares direcionados a Júlia mudaram de cumplicidade para julgamento.

— Cecília, o que você quer dizer com isso? — Os olhos de Júlia se encheram de lágrimas instantâneas, a voz trêmula. — O Noah só estava me ajudando a sair de uma prenda do jogo. Além do mais, eu sei o meu lugar, jamais faria nada com ele...

Ela olhou para Noah com a mágoa de uma vítima injustiçada e se calou, como se a dor a impedisse de continuar. Segundos depois, respirou fundo, encenando uma resignação sofrida:

— Esquece. Se meu pai não tivesse morrido para salvar o mano Noah, eu nem faria parte da família Freitas e ele não teria que cuidar de mim esses anos todos. No fim das contas, a culpa é minha por não ter limite, é o meu destino infeliz. Pode deixar, Cecília, vou me afastar. Não importa o que aconteça comigo, não vou mais pedir para o mano me fazer companhia.

A frase terminou num soluço contido.

O clima no camarote pesou. Todos se lembraram da tragédia quando o pai biológico de Júlia foi assassinado por sequestradores ao salvar a vida de Noah. Como filha do salvador, era natural que Noah cuidasse dela. Era apenas um jogo, afinal. A atitude de Cecília, diante daquele drama, começou a parecer mesquinha aos olhos dos espectadores.

Cecília captou a mudança de atmosfera. Seu olhar se tornou ainda mais gélido e ela riu, um som curto e sem humor.

— O seu destino realmente...

— Já chega! — Noah explodiu, agarrando o pulso de Cecília com força, os olhos fuzilando-a. — Eu só estava acompanhando a Juju num jogo, precisava desse escândalo todo? E daí que é nosso aniversário? Eu já não passo tempo suficiente com você? Cecília, desde quando você se tornou tão insuportável e irracional?

Os dedos de Cecília, soltos ao lado do corpo, fecharam-se em punho até as unhas ferirem a palma da mão.

Irracional? Ele, o namorado dela, praticamente encenou uma preliminar erótica com a irmã adotiva na frente de uma plateia, e ela não tinha sequer o direito de questionar? A dor no peito era física, como se uma mão invisível esmagasse seu coração, dificultando a respiração. A decepção inundou seu olhar ao encarar Noah.

O que ela ainda esperava dele?

Forçando-se a manter a compostura, Cecília engoliu o choro e, sob o olhar furioso de Noah, soltou um sorriso protocolar e vazio.

— Você tem razão. — Disse ela, com a voz baixa. — Não vou mais atrapalhar a festa de vocês.

Dito isso, Cecília deu as costas e saiu, sem olhar para trás.
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