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Capítulo 5

Author: Fumaça Azul
— Sra. Cecília, amanhã vou pessoalmente para ajudar com a mudança.

A voz de Vanda rompeu o silêncio do carro. Durante todo o trajeto de volta, ela fez questão de confirmar repetidas vezes se Cecília estava mesmo decidida a terminar com Noah e se levaria consigo tudo o que lhe pertencia na empresa. Vanda era leal a Cecília, portanto, se a patroa partisse, ela a seguiria sem hesitar.

Cecília apenas assentiu com a cabeça, observando o veículo se afastar até sumir de vista. Suspirou, virando-se para caminhar em direção à entrada da mansão, mas não deu mais do que dois passos quando o toque estridente do celular a deteve.

O visor indicava uma chamada do orfanato.

Um pressentimento ruim lhe apertou o peito. Ao atender, a voz do diretor soou carregada de pânico do outro lado da linha:

— Cecília, pelo amor de Deus! O pessoal do Grupo Freitas entrou em contato dizendo que vão cortar todo o financiamento do orfanato. Eles exigiram que retiremos as crianças que estão hospitalizadas imediatamente. O que está acontecendo?

Orfanato. Grupo Freitas.

Bastou ouvir aquelas palavras na mesma frase para que Cecília compreendesse o jogo sujo de Noah. O sangue gelou em suas veias, mas ela forçou a voz a permanecer firme para não desesperar ainda mais o diretor.

— Diretor, mantenha a calma. Vou acionar meus contatos agora mesmo para resolver isso. Não se preocupe.

A promessa de Cecília foi o suficiente para acalmar um pouco o homem, mas a gravidade da situação pesava sobre seus ombros. As crianças patrocinadas pelo Grupo Freitas sofriam de doenças genéticas congênitas; os aparelhos que as mantinham vivas não podiam ser desligados nem por um segundo sem risco de morte.

Noah sabia disso. Ele sabia exatamente onde atingi-la.

Assim que encerrou a chamada, Cecília não hesitou por um segundo sequer. Discou um número que não chamava há muito tempo, com os dedos trêmulos de raiva e angústia.

— Alô, sou Arthur.

A conexão foi rápida e a voz masculina do outro lado soou familiar, despertando em Cecília uma onda de emoção que ela lutava para conter. Apertou o celular com força, sentindo os olhos arderem.

— Arthur... — Chamou ela, com a voz embargada.

Houve um silêncio de dois segundos na linha, que logo foi preenchido por um tom carregado de sarcasmo:

— Ora, ora... Se não é a nossa fugitiva, a herdeira que abriu mão de tudo em busca da "verdadeira felicidade". A que devo a honra desta ligação? Onde está o Noah, aquele namorado perfeito e atencioso que você tanto defende?

Cecília mordeu o lábio, tentando engolir a mágoa que subia pela garganta, mas as palavras saíram entre soluços contidos:

— Terminei com ele. Preciso da sua ajuda, Arthur.

Sem perder tempo, ela explicou a situação crítica do orfanato, enfatizando que aquele era o mesmo lugar que a acolhera quando fora sequestrada na infância.

— Entendi. Deixe comigo, eu resolvo isso. — Arthur Queirós abandonou o tom zombeteiro imediatamente.

Apesar de ainda estar magoado com as atitudes passadas da irmã, Arthur jamais deixaria de protegê-la. Ouvir o choro contido de Cecília desarmou qualquer ressentimento que ele pudesse ter. Após uma breve pausa, ele acrescentou, com um tom mais sério:

— Sei que você ainda reluta sobre o casamento arranjado com Nathan. Se não quiser casar agora, posso interceder junto aos nossos pais, mas com o Noah... Isso acabou, Cecília. Não vou permitir que se machuque mais. Eu nunca faria nada para te prejudicar.

As lágrimas, que Cecília tanto tentava segurar, finalmente rolaram pelo rosto ao ouvir a proteção na voz do irmão.

— Eu sei. — Respondeu ela, esperando a onda de tristeza diminuir para conseguir falar com firmeza. — Assim que resolver as pendências aqui, vou voltar para casa. Eu deveria ter ouvido vocês desde o início. Noah definitivamente não era a pessoa certa para mim.

Eles encerraram a ligação com a promessa de um reencontro breve. Dois minutos depois, o celular de Cecília vibrou com uma mensagem de Arthur. O problema do orfanato estava resolvido. Além disso, ele lhe passava uma instrução clara. No dia seguinte, ela deveria comparecer ao aniversário de setenta anos de João Moura, patriarca da família Moura, representando a família Queirós. Havia também uma nota preocupante. A neta da família Moura, a Daniela, foi empurrada para dentro da água e ainda estava inconsciente.

Como os Queirós e os Moura eram amigos de longa data, a presença de Cecília era indispensável. Ela concordou prontamente.

Naquela noite, Noah não voltou para casa. O celular de Cecília, no entanto, iluminou-se com uma mensagem provocativa de Júlia, o que a levou a bloquear o número da mulher sem pensar duas vezes.

Na manhã seguinte, quando Vanda chegou para buscá-la, Cecília pediu para ser levada primeiro à antiga mansão da família Moura. A mudança definitiva para sua nova casa ficaria para depois da visita protocolar.

Ao descer do carro em frente à imponente residência da família Moura, Cecília mal teve tempo de dar alguns passos. Seu braço foi puxado com violência para trás, fazendo-a tropeçar e quase perder o equilíbrio.

— O que você pensa que está fazendo? — A voz grave soou atrás dela.

Cecília recuperou a postura e se virou, deparando-se com Noah. A expressão dela, antes neutra, se tornou gélida instantaneamente.

Noah a encarou, confuso. O rosto à sua frente era o mesmo que ele conhecia há anos, mas havia uma estranheza no ar, uma distância intransponível. Sentiu um aperto súbito no peito, como se algo precioso estivesse escorrendo por entre seus dedos sem que ele pudesse evitar.

— Vejo que finalmente percebeu o seu erro e veio se redimir. — Disse ele, tentando recuperar o controle da situação.

Cecília olhou para ele com um misto de incredulidade e desprezo. Achou a presunção dele tão absurda que nem se deu ao trabalho de responder. Virou as costas, pronta para entrar na mansão como a representante da família Queirós que era.

— Sra. Cecília! — A voz de Júlia a interrompeu.

A mulher se colocou na frente de Cecília, bloqueando seu caminho com um sorriso que misturava inocência fabricada e triunfo.

— Obrigada por ter vindo se desculpar em meu lugar hoje. — Disse Júlia, alto o suficiente para que Noah ouvisse. — Afinal, como você é a namorada oficial do Noah, os Moura jamais fariam nada contra você.

Algo clicou na mente de Cecília. Seu olhar alternou entre Júlia e Noah, e a compreensão do que estava acontecendo a atingiu. Eles achavam que ela estava ali para assumir a culpa pelo acidente de Daniela.

— Eu não vim aqui por causa de vocês. — Cecília soltou uma risada curta e fria. — Os problemas de vocês não me dizem respeito.

Júlia não acreditou. Aproveitando a proximidade, inclinou-se e sussurrou no ouvido de Cecília, num tom baixo e venenoso, feito apenas para ela ouvir:

— Vou te contar um segredinho, você nunca vai ganhar de mim. Veja só, mesmo tendo sido eu quem empurrou a Daniela na água, o Noah ficou com pena de mim e decidiu que você levaria a culpa. No coração dele, você não significa absolutamente nada.

A expressão de Cecília escureceu. Seus olhos, agora afiados como lâminas, fixaram-se em Júlia.

— Foi você quem empurrou a Daniela?

O sorriso de Júlia se alargou, carregado de escárnio.

— Claro. Quem mandou aquela idiota tentar competir comigo? Teve o que mereceu.

A confissão foi a gota d’água. No segundo seguinte, a mão de Cecília voou, agarrando o cabelo de Júlia com firmeza.

Antes que alguém pudesse reagir, dois estalos altos ecoaram no ar.

Cecília desferiu duas bofetadas brutais no rosto de Júlia. A dor aguda e a humilhação fizeram Júlia soltar um grito estridente.

— Cecília! — Reagindo ao choque, Noah avançou e segurou o pulso de Cecília com força, seu rosto contorcido de raiva. — Você ficou louca? Solte ela agora!

Recuperando-se do atordoamento inicial, Júlia levou as mãos ao rosto avermelhado e desatou a chorar copiosamente, buscando refúgio atrás de Noah.

— Noah! Eu só queria cumprimentar a Sra. Cecília... Eu não imaginava que ela fosse me agredir assim, do nada! Como ela pôde fazer isso?

Cecília puxou o braço com um movimento brusco, libertando-se do aperto de Noah. Ela ergueu uma sobrancelha, desafiadora, e sorriu com desdém.

— E então? Vai bater em mim para defender a amante?

O tom provocativo de Cecília pegou Noah desprevenido. A mulher à sua frente parecia uma estranha; a Cecília que ele conhecia jamais ousaria falar com ele daquela maneira. Quem havia dado tamanha audácia para ela?

Ele fechou a cara, pronto para repreendê-la, mas Cecília não deu chance para ele.

— Se eu não procuro vocês, sugiro que mantenham distância de mim. E quanto a essa fantasia doentia de que eu vou assumir a culpa pelos crimes dela... — Cecília estreitou os olhos. — Continuem sonhando.

Ela apagou o sorriso do rosto, e sua voz desceu um tom, soando solene e definitiva:

— Terminamos, Noah. Coloque isso na sua cabeça de uma vez por todas. E um ex-namorado decente deveria agir como se estivesse morto.

Sem esperar resposta, Cecília deu as costas para o casal estupefato e caminhou com elegância para dentro da propriedade dos Moura.

Noah permaneceu parado, com a expressão sombria como uma tempestade. Tremendo de raiva mas mantendo o personagem, Júlia agarrou o braço dele.

— Noah, a culpa é toda minha... Se não fosse por mim, a Sra. Cecília não estaria tão descontrolada. Eu vou lá dentro agora mesmo pedir perdão à família da Srta. Daniela. Não quero que você fique numa situação difícil por minha causa.

— Não fale bobagem. — Noah segurou o pulso de Júlia, suavizando a voz, embora seus olhos ainda estivessem fixos na entrada da mansão. — Eu resolvo isso.

Enquanto observava a silhueta de Cecília desaparecer porta adentro, um vinco de preocupação e confusão se formou em sua testa.

De onde vinha toda aquela arrogância repentina? E por que a sensação de perda parecia aumentar a cada passo que ela dava para longe dele?
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