LOGINDepois daquele dia, eu nunca mais vi Felipe.Mais tarde, Beatriz me contou que, ao passar por uma rua, viu Felipe encolhido ao lado de uma lixeira.Ao ouvir isso, senti um aperto no coração.Dizem que um dia como marido e mulher cria um vínculo difícil de apagar. Eu não conseguiria simplesmente ignorá-lo.Pedi o endereço a Beatriz.Depois de alguns dias sem vê-lo, Felipe estava ainda mais magro. As costas, antes eretas, agora permaneciam curvadas por causa do frio.Vestia roupas finas e se abrigava atrás da lixeira, em um canto protegido do vento, soprando ar quente nas próprias mãos sem parar.Ao ver aquela cena, suspirei e lhe entreguei um casaco.O corpo de Felipe enrijeceu. Ele pegou o casaco e manteve a cabeça baixa, sem coragem de olhar para mim.Depois de um tempo, disse em voz abafada:— Eu devo estar horrível assim, não é? Desculpa por não ter conseguido deixar uma boa impressão no final.Revirei os olhos e lhe entreguei um copo de água quente.— Por que você ainda não voltou
Bebemos sem moderação, contando nossas próprias histórias, e o clima entre nós melhorou de verdade.Não sei quanto tempo passou, mas o pessoal do bar foi se dispersando aos poucos, e Beatriz já estava tão bêbada que tinha perdido completamente a noção.Ao vê-la naquele estado, liguei discretamente para Aureliano.— Aureliano, venha nos buscar. Hoje nós exageramos na bebida.Do outro lado da linha, embora a voz dele parecia estar controlada, dava para perceber que ele rangia os dentes de raiva.— Tudo bem.Ele ainda levaria um tempo para chegar, então saí do camarote para tomar um pouco de ar.Acabei esbarrando de frente com um homem. Ele estava completamente bêbado, e o olhar obsceno que lançou sobre mim me deu arrepios.— Ora, ora. De onde saiu essa belezinha? Nunca te vi por aqui. Vem cá, deixa eu te dar um beijinho e ver se você tem o mesmo gosto das outras.Mal terminou de falar e já tentou se aproximar.Franzi a testa e, num gesto rápido, peguei uma garrafa de vinho vazia que esta
Os lábios dele tremiam enquanto ele murmurava:— Mari, você pode me perdoar? Como é que se joga fora quinze anos de relacionamento assim? A gente passou por tanta coisa, enfrentou tantos obstáculos e, no fim, conseguiu ficar junto. Você quer mesmo cortar todos os laços comigo agora? Você disse que a gente ia ter um filho, que ia viajar junto, que ia declarar o nosso amor num dia de neve pesada. Ainda havia tanta coisa que a gente podia viver junto. As promessas que fizemos nem foram cumpridas. E, mesmo assim, você quer ir embora?Ele quase gritava. O corpo tremia sem parar.Em dez anos, eu nunca tinha visto Felipe perder o controle daquele jeito.Na minha lembrança, ele sempre foi gentil e elegante, amável com todos, e ainda mais comigo. Nunca tinha demonstrado o menor sinal de irritação.Foi ali que eu entendi: o amor realmente transforma as pessoas.Se eu via Felipe assim antes, talvez meu coração até vacilava.Mas agora, tudo o que eu sentia por ele já tinha acabado.Olhei para os o
Nos mais de dez anos anteriores, eu praticamente dediquei todo o meu tempo a Felipe. Não trabalhava nem estudava; minha vida parecia ter ficado em pausa.Depois de tanto tempo parada, já era hora de recomeçar.O jantar foi muito agradável. Beatriz passou a refeição inteira enchendo meu prato. Com ela por perto, o clima à mesa nunca esfriava.Desde o primeiro encontro, nos demos muito bem.Depois do jantar, fui com eles até a empresa e me tornei oficialmente acionista do Grupo SY.O escritório que Aureliano preparou para mim era amplo e bem iluminado; ao lado ficava o escritório de Beatriz.Nos intervalos, muitas vezes descíamos para almoçar no restaurante do térreo do prédio ou íamos a um bar tranquilo ali perto para beber alguma coisa.Às vezes, quando a conversa se animava, acabávamos indo a outro bar nas redondezas para relaxar um pouco.No entanto, muitas vezes Aureliano aparecia de surpresa antes mesmo de entrarmos.Nessas horas, Beatriz sempre se indignava.— Com a Mariana comigo
Em seguida, retirei o chip do celular, o quebrei e joguei no lixo.Quando o avião pousou, Aureliano já estava me esperando no aeroporto.Assim que me viu, ergueu o buquê de lírios que trazia nas mãos.— Mariana, aqui!Ao ouvir sua voz, sorri ao encontrar seu olhar.Depois de tantos anos sem nos vermos, ele parecia mais maduro.Estendi a mão para cumprimentá-lo.Aureliano pegou minha bagagem com entusiasmo.— Desde a última vez que nos despedimos, quantos anos já se passaram?Ao ouvir suas palavras, minhas lembranças começaram a vir à tona.Aureliano e eu fomos colegas no ensino médio. Depois do vestibular, escolhemos cursar design de moda.No colégio, sentávamos na mesma carteira e sempre nos ajudávamos. Na universidade, éramos uma dupla elogiada por todos.Ele compreendia cada ideia criativa que eu apresentava nos meus projetos, e os conceitos dele combinavam perfeitamente com os meus.Éramos, de fato, duas pessoas movidas pelos mesmos ideais.Naquela época, eu era muito próxima de Au
Nenhum de nós se importou com a neve acumulada sobre o corpo.Eu ainda estava esperando.No passado, Felipe e eu combinamos que, sempre que víssemos a neve cair juntos, nos declararíamos um ao outro.Mas, ao olhar para o homem à minha frente, ainda contemplando sozinho a paisagem branca, percebi mais uma vez que nós dois não íamos chegar ao fim juntos.Um ruído surgiu ao longe e se aproximou rapidamente. De repente, um mau pressentimento me atravessou. Instintivamente, ergui a cabeça e vi uma enorme pedra despencando encosta abaixo na minha direção, ganhando velocidade a cada segundo.Minha mente ficou em branco por um instante. Com um estrondo ensurdecedor, senti como se um caminhão tivesse passado por cima de mim.— Ah!Levei a mão ao peito e puxei o ar com dificuldade por causa da dor. Uma fina camada de suor frio brotou na minha testa.— Mari! — A voz de Felipe saiu distorcida pelo desespero.Os olhos dele ficaram imediatamente vermelhos, e lágrimas quentes escorreram pelo rosto.—







