LOGINLondres respirava o outono com a elegância de sempre. O ar frio da noite fazia as folhas secas dançarem pelas calçadas de pedra do South Bank, enquanto a iluminação dourada do Royal Festival Hall se derramava sobre o rio Tâmisa. Anna Whitmore ajustou o cachecol de seda sobre os ombros, sentindo o perfume suave de lavanda que usava se misturar ao cheiro úmido da cidade. Ao seu lado, Melissa caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo cinza-escuro, o rosto iluminado pelo brilho da noite, os olhos verdes ainda refletindo o êxtase do concerto de violino que haviam acabado de assistir. — Eu sempre esqueço o quanto Vivaldi pode ser... arrebatador ao vivo — Melissa disse, a voz um pouco mais suave do que o normal, quebrando o silêncio confortável entre elas. Anna sorriu, um sorriso lento e genuíno que suavizou as linhas de expressão ao redor dos seus olhos azuis. — É a magia dos instrumentos acústicos. Nenhuma gravação consegue capturar a vibração das cordas no ar. — Ann
O café do hospital não era grande coisa. Algumas mesas de fórmica, uma máquina de espresso que fazia barulho demais e uma vitrine com biscoitos que pareciam ter sido comprados na semana anterior. Mas, naquela tarde de terça-feira, o lugar parecia o refúgio mais aconchegante do mundo. Louise estava sentada em uma das mesas do canto, as mãos envolvendo a xícara de chá de camomila. Ela ainda usava o jaleco da clínica geral, mas os primeiros botões estavam abertos, e o cabelo loiro, agora um pouco mais curto, caía solto sobre os ombros. Ela parecia mais leve. Não era a Louise vibrante de antes, mas era uma versão dela que estava começando a se curar. Gabriel estava à sua frente, a xícara de café preto intocada. Ele a observava com uma intensidade mansa, quase como se ela fosse um pássaro que ele não queria assustar. — O novo setor é bom? — ele perguntou, a voz baixa. — É... calmo — Louise respondeu, dando de ombros. — A Dra. Regina foi muito compreensiva. Menos emergências, horários
Um mês se passou. O outono paulistano chegou, trazendo dias mais cinzentos e um vento frio que Louise não sentia desde Edimburgo. Ela voltou a trabalhar na semana anterior, mas não na pediatria. A Dra. Regina, com uma sensibilidade que Louise não esperava, a realocou para a clínica geral, um setor mais calmo, com horários fixos e menos emergências. Não era o que ela queria, mas era o que ela precisava. A rotina era um bálsamo. Consultas de rotina, check-ups, gripes, pequenas queixas. Nada que a fizesse lembrar do cheiro de antisséptico da ala pediátrica ou do som do choro das crianças. Nada que a fizesse lembrar de Gabriel. Ele não estava lá. A clínica geral ficava no outro extremo do hospital, e ela não o via desde a noite em que ele a abraçou no quarto do hospital. Ele havia mandado uma mensagem dias depois, perguntando como ela estava, e ela respondera com um "Estou bem, obrigada" que não convencia nem a ela mesma. Ele não insistiu. O apartamento novo, alugado por Mariana, er
A noite em São Paulo estava amena, um alívio depois do calor escaldante do dia. No apartamento novo, o silêncio era confortável. Louise havia adormecido cedo, exausta, depois de um dia de lágrimas e poucas palavras. Mariana a observou por um longo tempo, acariciando seus cabelos, antes de fechar a porta do quarto e ir para a sala. Ela olhou para o relógio na parede: 23h45. Melissa havia saído no final da tarde, dizendo que ia conhecer um pouco da cidade e comprar algumas coisas. Mariana não se preocupou; Melissa era uma mulher adulta e independente. Mas, à medida que as horas passavam, uma pontinha de curiosidade começou a crescer. Mariana preparou um chá de camomila e se sentou no sofá. Estava prestes a mandar uma mensagem quando ouviu o som da chave na fechadura. Melissa entrou, e Mariana quase engasgou com o chá. A amiga tinha um brilho diferente no rosto. O cabelo castanho, normalmente preso de forma prática, estava solto e levemente bagunçado. Ela usava um batom mais es
Os dias no hospital passaram como uma névoa lenta e dolorosa. Louise permaneceu internada por três dias, sob observação rigorosa. A pressão alta havia sido controlada com medicação, mas o corpo ainda estava frágil, e a mente... a mente era um campo de ruínas. Mariana não saiu do quarto. Ela respondia às mensagens da família na Escócia com monossílabos. Charles ligava todos os dias, a voz grave e preocupada. Anne mandava fotos de Edward e Elizabeth para animar Louise, mas ela mal olhava para o celular. No segundo dia, o Caio apareceu. Ele tentou entrar no quarto, mas foi barrado por dois seguranças que Mariana havia contratado. A confusão no corredor chamou a atenção de toda a ala. Louise ouviu a voz dele, alta e indignada, e sentiu o estômago revirar. — Eu sou o pai da criança! — Caio gritava. — Eu tenho o direito de ver a Louise! Ela é minha namorada! Mariana saiu do quarto, a postura ereta, o olhar gelado. Ela parou diante dele, bloqueando a porta com o próprio corpo.
O saguão do hotel Tivoli era um oásis de mármore, luzes suaves e silêncio. Mariana entrou primeiro, a postura ereta, os olhos varrendo o ambiente com a autoridade de quem já era dona do lugar. Atrás dela, Louise caminhava como um fantasma, o casaco abraçando o corpo trêmulo, os olhos fixos no chão. Mariana fez o check-in em tempo recorde, usando um cartão corporativo da Durdday Cosmetics. Assim que as portas do elevador se fecharam, trancando-as na segurança do cubículo, Louise pareceu desmoronar. Ela encostou a cabeça no ombro da mãe e fechou os olhos. — Não chora, querida , vamos resolver a situação— Mariana sussurrou, acariciando os cabelos loiros. No quarto, Mariana não perdeu tempo. Colocou Louise na cama, tirou o casaco dela e pegou o celular. — Mãe, o que você está fazendo? — Louise perguntou, a voz oca. — Ligando para o Dr. Nogueira. Ele é o advogado da Durdday no Brasil, contratamos ele antes de você se mudar. — Mariana discou o número. — Se o Caio acha que pode roubar







