MasukUma semana depois, o bar estava cheio e barulhento, com luzes baixas e música animada tocando ao fundo. Mariana segurava uma taça de vinho branco, os olhos brilhando de um jeito que fazia anos que não brilhavam. Ao lado dela, Vitória ria alto, jogando a cabeça para trás enquanto Melissa reabastecia os copos:— Não acredito que você ainda aguenta o Márcio — Vitória disse, balançando a cabeça: — Eu juro, depois do divórcio, descobri que dormir sozinha é o paraíso.— Fala isso porque você nunca teve que aturar o ronco do Robson — Alícia respondeu, revirando os olhos: — Mariana, você tem sorte. O Márcio pelo menos é quieto.Mariana riu, o som saindo solto e genuíno:— Quieto ele é. Quieto demais, às vezes. Mas, depois de trinta anos, a gente aprende a conviver com os silêncios.— Ou a preenchê-los com vinho — Melissa completou, erguendo a taça.Todas riram, e o som se misturou à música ambiente. No palco ao fundo, um stripper começava sua apresentação, o corpo esculpido se movendo ao ritm
Alguns dias depois, o restaurante era discreto, um desses lugares que Edimburgo guardava para quem podia pagar pelo silêncio. Veludo grená nas paredes, luz de velas sobre toalhas de linho impecáveis e uma privacidade que nenhum outro estabelecimento oferecia. Mariana escolheu a mesa ao fundo, longe das janelas, onde as sombras dançavam com a chama trêmula dos castiçais.O Sr. Cameron chegou, um homem de pouco mais de sessenta anos, cabelos grisalhos perfeitamente penteados e olhos castanhos que carregavam uma inteligência afiada. Ele apertou a mão de Márcio com firmeza, depois cumprimentou Mariana com um beijo no rosto que durou um segundo a mais que o necessário:— É uma lástima — disse ele, sentando-se e ajustando os óculos de leitura: — Conheço vocês há décadas. Vi o casamento de vocês. Vi os meninos crescerem. E agora isso.Márcio inclinou-se para trás na cadeira, os ombros tensos sob o paletó:— Não estamos aqui para lamentações. Queremos discrição absoluta.— Naturalmente — Came
O garçom trouxe uma bandeja de prata com um bule de chá Earl Grey, xícaras de porcelana fina e uma variedade de doces que fazia qualquer um salivar. Bolos de frutas vermelhas, tortas de limão, biscoitos amanteigados e trufas de chocolate amargo cobriam a mesa como um banquete para os olhos. Mariana serviu o chá para ambos, o vapor subindo em espirais perfumadas. Ela pegou um biscoito, mordeu a ponta e fechou os olhos por um instante: — Isso é bom — murmurou, os traços do rosto relaxando. Charles observou a irmã com um olhar que carregava décadas de memórias. Ele pegou uma trufa, girou-a entre os dedos antes de perguntar, a voz baixa e cuidadosa: — Você ainda se lembra do orfanato, Mariana? Ela suspirou, o som carregado de um peso antigo. Colocou o biscoito de volta no prato e apoiou as mãos sobre a mesa, os dedos entrelaçados: — Como esquecer? — respondeu, a voz macia: — Perdemos nossos pais tão jovens, Charles. Eu tinha oito anos. Você, onze. E, mesmo sendo apenas três anos ma
Mariana passa a mão na testa, os dedos pressionando as têmporas como se tentasse conter uma dor iminente. Ela desvia o olhar de Eleonor, que ainda está perto da lareira com aquele sorriso forçado, e se vira para Márcio:— Não estou me sentindo bem — ela diz, a voz baixa, quase um sopro: — Vou voltar para o quarto.Márcio a acompanha com os olhos, a mão estendida como se fosse tocar o braço dela, mas hesita:— E o almoço? Você precisa comer alguma coisa.Mariana para no primeiro degrau da escada. Ela não se vira, mas a voz vem clara, com um fio de amargura que não passa despercebido:— Perdi a fome. E você está em ótima companhia, não está?A ironia é sutil, mas cortante como navalha. Márcio franze o cenho, os olhos se estreitando. Ele dá dois passos em direção a ela, baixando a voz para que apenas Mariana ouça:— Você está com ciúmes?Mariana morde o lábio inferior com força. Por um instante, os olhos azuis dela faíscam com algo que pode ser raiva ou uma vontade absurda de soltar um p
O banho morno enche o banheiro de vapor, as gotas escorrendo pelos azulejos claros enquanto Mariana permanece imóvel dentro da banheira. Ela olha para a superfície da água por um longo momento, depois mergulha a cabeça.O silêncio submerso a envolve como um casulo. O mundo lá fora para de existir — o choro, a culpa, o peso do caixão descendo à terra. Por alguns segundos, há apenas o zumbido abafado da água nos ouvidos e a pressão no peito.Ela emerge com um arquejo, o cabelo loiro escorrendo, colado ao rosto. Limpa os olhos com as mãos trêmulas e é quando percebe Márcio sentado na borda da banheira:— Você não precisa ficar aqui — ela diz, a voz rouca.— Eu sei.Ele não se move. Apenas a observa, os olhos vermelhos fixos nela, como se temesse que ela desaparecesse se ele desviasse o olhar.O espaço apertado do banheiro parece encolher ainda mais. O vapor quente, o cheiro de sais de banho, a proximidade dos corpos. Mariana sente o calor dele mesmo através da camisola molhada, que se rec
O céu de Edimburgo está cinzento, pesado como o chumbo que se alojou no peito de cada pessoa reunida naquele cemitério. O vento corta a pele, mas ninguém se move. As lágrimas congelam antes de cair.Mariana está de joelhos na terra úmida.O vestido preto, simples, sem nenhum adorno, está manchado de barro na barra. Ela não percebe. Não percebe o frio, não percebe o vento, não percebe as mãos de Márcio tentando ampará-la pelos ombros. Sua visão está turva, fixa naquele caixão de madeira escura que desce lentamente para a cova.Rodrigo. Seu primogênito.O nome ecoa vazio dentro dela, como um grito num abismo sem fundo.A voz do padre chega até ela como se viesse de muito longe, palavras em latim que deveriam trazer paz, mas que apenas escorrem sobre sua pele como água gelada. Ela aperta a terra nas mãos com tanta força que as unhas arranham a palma, abrindo pequenos cortes. A dor física é um alívio minúsculo diante do que rasga seu peito:— Meu filho — ela sussurra, mas o som não sai. A







