MasukDuas semanas depois, a manhã no chalé amanhecera coberta por uma névoa fina que se dissolvia lentamente sobre o lago. O ar frio das montanhas trazido pelo vento carregava o cheiro de pinho e terra molhada, e os primeiros raios de sol começavam a aquecer a varanda de madeira onde Mariana estava sentada, uma cesta de crochê apoiada no colo.Ela movia as agulhas com uma dedicação paciente, o fio azul-claro se transformando em pequenos quadrados perfeitos sob seus dedos. Ao lado, Cecília observava com uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo desleixado:— Tenta de novo — Mariana disse, a voz suave, sem o tom de julgamento que costumava marcar suas conversas.Cecília suspirou, pegando as agulhas com a mesma graça de quem segura um ouriço. Tentou repetir o movimento que Mariana lhe ensinara, mas o fio escapou das hastes, formando um nó confuso:— Não sei como você faz isso parecer tão fácil — Cecília resmungou, os dedos lutando contr
Uma semana se passou desde que chegaram ao chalé. O tempo, que antes parecia suspenso entre a neblina das montanhas e o reflexo do lago, agora se arrastava em uma rotina tensa de pequenos conflitos e tréguas forçadas.Mariana estava deitada na cama do quarto de hóspedes, o corpo pesado como chumbo. A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho, mas ela não tinha forças para se levantar. Há dias, uma fadiga inexplicável a consumia, uma exaustão profunda que o sono não curava. As dores nas costas pioravam à noite, um incômodo surdo que a fazia revirar na cama até o amanhecer.A porta se abriu sem batida. Cecília entrou, os cabelos ruivos desgrenhados, a expressão carregada de irritação mal disfarçada:— Anne mandou perguntar se você está bem — Cecília disse, a voz seca, os braços cruzados sobre o peito.Mariana suspirou, os olhos fixos no teto de madeira:— Estou bem.— Claro — Cecília torceu o nariz, os olhos percorrendo o quarto com desdém. — Você não desceu para o café da manhã.
O carro preto subiu a estrada sinuosa por quase quarenta minutos antes de finalmente desacelerar diante de um portão de ferro forjado que se abriu silenciosamente. A cabana surgiu entre as árvores como uma visão saída de um sonho alpino: vidro e madeira de carvalho escuro se fundindo com a paisagem, uma arquitetura moderna que parecia abraçar o lago cristalino aos seus pés. Montanhas verde-escuras se erguiam ao redor, cobertas por uma neblina matinal que dava ao lugar uma atmosfera de isolamento absoluto.Cecília saltou do carro antes mesmo que Márcio desligasse o motor. Seus olhos percorreram a fachada de vidro, a lareira gigante de pedra que se avistava através das janelas, o deque de madeira que se estendia sobre a água parada. Ela quase deu pulinhos de felicidade, o vermelho das bochechas por conta do frio contrastando com o brilho nos olhos:— Isto é... — ela murmurou, virando-se para Márcio com um sorriso que ele não via há dias. — Isto é incrível.Márcio pegou uma das malas del
O apartamento de Cecília em Edimburgo estava uma bagunça controlada. A mala aberta sobre a cama acumulava peças de roupa que ela dobrava com pressa, os movimentos bruscos contrastando com a barriga que já começava a pesar. Um funcionário uniformizado esperava no corredor, as mãos cruzadas à frente do corpo, pronto para levar as malas até o carro.— Só mais um minuto — Cecília disse, sem olhar para ele, os dedos percorrendo as dobras de uma blusa que ela insistia em alisar.Ela terminou de fechar o zíper da mala com um puxão seco e, por um momento, ficou parada, as mãos apoiadas na cintura. O corpo pedia um alongamento depois de tanto tempo curvada sobre as roupas. Ela ergueu os braços acima da cabeça, sentindo os músculos das costas se esticarem, e então, distraidamente, deixou a mão direita descer até a barriga. Os dedos tocaram o tecido esticado da blusa, e ela fez um movimento circular, quase inconsciente, sobre o volume onde o bebê crescia.Márcio andava de um lado para o outro na
Três dias depois, o fim de tarde em Londres vestia um cinza úmido que ameaçava chuva. Mariana e o Dr. Williams saíram pelas portas de vidro do hospital: — Juro que nunca vi um paciente tão obcecado pela própria próstata — Williams disse, balançando a cabeça, os olhos claros brilhando de humor. — Ele trouxe um gráfico. Um gráfico, Mariana. Com setas. Mariana riu, o som leve e sincero, enquanto ajustava a alça da bolsa no ombro: — Você devia ver o que eu atendo na obstetrícia. Semana passada, uma mulher quis discutir a posição do feto com base na astrologia. — Astrologia? — Williams ergueu as sobrancelhas. — E você levou a sério? — Levei. Ela estava nervosa, precisava de acolhimento, não de correção. Depois que a gente conversou, ela relaxou e o exame fluiu. Williams parou na esquina, virou-se para ela com um sorriso que carregava algo mais do que camaradagem. Por um instante, o olhar dele desceu até os lábios dela, mas ele se conteve, mantendo o tom leve: — Você é boa nisso, sa
A noite no apartamento de Cecília, a ampla cobertura em Edimburgo mantinha todo o contraste com a solidão que habitava ali dentro. A decoração sofisticada e os móveis caros pareciam frios sob a luz branda das luminárias, enquanto, na cozinha espaçosa, o som da faca batendo na tábua de corte era violento, ritmado pela raiva. Cecília picava cenouras com uma fúria que fazia os pedaços voarem para fora da tábua. O cabelo ruivo, despenteado, caía sobre o rosto ainda marcado por hematomas amarelados, vestígios da agressão de Mariana: — Já disse que não fui eu — ela cuspiu sem olhar para trás. — Mas ninguém vai acreditar, não é? Por que acreditaríam? A vilã da história, a manipuladora, a louca. Márcio estava parado na entrada da cozinha, o paletó dobrado sobre o braço, a camisa social malpassada. Ele parecia exausto, havia voltado correndo de Milão em um voo particular: — Eu só vim ver como você está. — Mentira. Você veio me interrogar. — A faca desceu com mais força, rachando um talo







