LOGINO dia do aniversário de Mariana amanheceu com um sol pálido, mas teimoso, que se infiltrava pelas cortinas pesadas da mansão Durdday. A casa, que nos dias anteriores fervilhava com os preparativos, agora respirava uma calma expectante. A festa seria intimista, como Mariana havia pedido: apenas a família, alguns amigos próximos e uma mesa posta no jardim, o lugar que ela amava. Louise acordou com um peso no corpo. Nos últimos dias, uma fadiga inexplicável a consumia, como se estivesse carregando o mundo nas costas. Ela atribuiu ao estresse da viagem, à tensão de ver Felipe e Mai, ao constante mal-estar de estar perto de Caio e longe de Gabriel. Mas, naquela manhã, algo era diferente. Ela se sentou na cama, e o quarto girou. Uma onda de náusea subiu da garganta, forte e inegável. Ela correu para o banheiro, caindo de joelhos diante do vaso, e vomitou. O som ecoou no silêncio do quarto, e ela ficou ali, trêmula, a testa apoiada na porcelana fria. O que está acontecendo comigo? pe
Três dias. Louise estava na Escócia há exatamente três dias, e a sensação de estar em casa ainda não havia se instalado. Talvez porque "casa" não fosse mais um lugar, mas um emaranhado de memórias e expectativas que ela não sabia mais como navegar. A mansão Durdday, com sua grandiosidade de pedra e história, parecia ainda maior e mais imponente do que em suas lembranças. O ar frio de Edimburgo, que antes a abraçava, agora a fazia tremer, um lembrete constante de que seu corpo havia se acostumado com o calor do Brasil. Caio, para sua surpresa, estava se adaptando bem. Ele elogiava a arquitetura, fazia perguntas sobre a história da família, e se mostrava o convidado perfeito, seu inglês era intermediário, mas estava se esforçando para acompanhar. Ele até tentou arriscar algumas palavras em gaélico escocês para impressionar, o que arrancava sorrisos educados de Mariana e Márcio. Louise o observava, sentindo uma pontada de culpa. Ele estava se esforçando tanto, e ela... ela estava c
Sábado à noite. O céu de São Paulo, tingido de um azul profundo, começava a se pontuar com as primeiras estrelas, mas a verdadeira constelação estava no salão de festas do condomínio de Gabriel. O ambiente fora transformado para celebrar os dezessete anos de Valentina. Balões em tons de roxo e dourado flutuavam, e uma playlist de R&B e pop internacional preenchia o ar, misturando-se ao som de risadas e conversas animadas. Louise chegou sozinha. Ela havia mentido para Caio, dizendo que teria um plantão de emergência. A mentira pesara em sua consciência, mas a necessidade de ir àquela festa, de ver Gabriel e, secretamente, de se despedir daquele mundo antes de viajar para a Escócia, era mais forte. Ela usava um vestido de seda que realçava seus olhos, o cabelo loiro preso em um coque elegante, mas com mechas soltas emoldurando o rosto. Sentia-se um pouco deslocada entre os adolescentes e alguns pais, mas a música e a energia do lugar a envolveram, e ela respirou fundo, tentando relax
Louise chegou em casa exausta. O dia no hospital havia sido longo, e o peso da conversa com Gabriel no refeitório ainda pairava sobre seus ombros. Ela abriu a porta do apartamento e foi recebida pelo cheiro de comida caseira. O Caio estava na cozinha, um avental sobre a camisa social, o cabelo bagunçado, um sorriso largo no rosto. — Amor, que bom que chegou— ele anunciou, como se fosse uma grande novidade. — Espero que você esteja com fome. Fiz uma lasanha. Louise sorriu, o cansaço se dissipando um pouco. Ela havia confiado a ele uma cópia da chave do apartamento algumas semanas antes. Foi um passo importante, um sinal de que ela estava tentando confiar nele de novo. Ele havia mudado, ela repetia para si mesma. Ele merecia uma segunda chance. — Estou faminta — ela admitiu, largando a bolsa no sofá e caminhando até a cozinha. — O cheiro está ótimo. — Eu sei. — Ele a puxou para um beijo rápido. — Senta. Vou servir. O jantar foi agradável. A lasanha estava deliciosa, o vinho era bo
Algumas semanas se passaram desde que Gabriel havia voltado das férias. A rotina no hospital retomou seu curso, mas, para Louise, algo estava diferente. Ela sabia que ele estava de volta. Camila havia comentado, de passagem, que o Dr. Gabriel havia retornado e que a ala de neurocirurgia estava um burburinho só. Mas Louise não o tinha visto. Nem uma vez. Eles trabalhavam em alas diferentes, em andares diferentes, e a rotina exaustiva da pediatria a mantinha ocupada o suficiente para não pensar nele. Ou quase. Ela ainda pensava. Às vezes, quando o turno acabava e ela caminhava para o estacionamento, o olhar dela varria os corredores, procurando a silhueta alta e os olhos escuros. Mas ele nunca estava lá. Ela não havia respondido à mensagem dele. A mensagem que ele enviara de Londres, dizendo que não desistiria dela. Ela a leu várias vezes, o coração dividido, e no final, decidiu não responder. Ela estava namorando. Estava tentando construir algo com o Caio. E responder ao Gabriel ser
O escritório de advocacia de Caio Ferreira ficava no vigésimo andar de um edifício comercial na Avenida Paulista, com uma vista privilegiada da cidade. A recepção era elegante, com piso de mármore, móveis de design e uma recepcionista loira que atendia os clientes com um sorriso plastificado. As paredes eram decoradas com diplomas e certificados, e o cheiro de café gourmet e luxo pairava no ar. Era uma fachada perfeita. E, como toda fachada, escondia uma podridão. Caio chegou às nove da manhã, o terno italiano impecável, o cabelo recém-cortado, a barba feita. Ele cumprimentou a recepcionista com um aceno e caminhou pelo corredor até sua sala, que ficava no final, com uma porta de vidro fosco onde se lia "Caio Ferreira - Sócio Diretor". Ele entrou, fechou a porta e, pela primeira vez no dia, deixou a máscara cair. O sorriso fácil desapareceu, os ombros caíram, e ele se jogou na cadeira atrás da mesa de carvalho, exausto. O escritório estava indo de mal a pior. A verdade é que, nos







