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Capítulo 3

Author: Bagel
No dia seguinte, fui acordada pelo som dissonante de uma orquestra no andar de baixo, pensando que ainda estava em um pesadelo.

Abri a janela. O gramado da mansão já estava coberto de flores e tapetes vermelhos.

Eles estavam realizando uma celebração pelo aniversário da fundação beneficente da minha mãe.

Fiquei confusa. Ninguém se importava com aquela instituição havia anos, desde que minha mãe morreu.

Eu mesma a administrava, mas nunca com um espetáculo público daquele tamanho.

Através da minha janela que ia do chão ao teto, vi o jardim de rosas favorito da minha mãe. Caterina estava parada exatamente onde minha mãe costumava ficar.

A mulher usava um vestido branco de alta-costura, de braços dados com meu pai, recebendo brindes dos convidados.

O mordomo estava à porta, evitando meu olhar.

— Foi ideia do Don. Ele disse que queria dar continuidade ao trabalho beneficente dos Collins.

— Ele também disse… que quer renomear a fundação em homenagem a Caterina.

Abri minha porta bem a tempo de ouvir as fofocas que subiam do andar de baixo.

— Você soube? A administração da famosa fundação beneficente dos Collins foi entregue a Caterina.

— E a filha ilegítima da amante, Sarah, adotou o nome Collins. Parece que ela está prestes a se tornar a nova senhora da casa.

Sob os olhares atentos da multidão, Caterina assumiu uma expressão de injustiçada.

— Embora Evangeline possa ter alguns mal-entendidos sobre mim, juro por Deus que vou proteger esta família no lugar da mãe dela.

— Contanto que eu possa cuidar de Marco e das crianças em seu lugar, e zelar pela instituição, um pequeno mal-entendido não é nada.

Agarrei o corrimão com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.

Ela havia se colocado como a matriarca, sem demonstrar o menor respeito pela minha mãe.

Nesse momento, Vincent se aproximou com Sarah apoiada em seu braço. No instante em que me viu, soltou o braço dela e veio em minha direção a passos largos.

— Você acordou, minha princesa.

Ele me interrompeu antes que eu pudesse falar, ajoelhando-se diante de mim, os olhos cheios daquela devoção ensaiada digna de um astro de cinema.

Abriu uma caixa de veludo vermelho. Dentro dela havia um enorme e raro diamante azul.

— Meu Deus! É "O Coração do Amor Verdadeiro"! — Alguém exclamou. — Aquele que foi vendido por uma fortuna na semana passada!

Vincent beijou o dorso da minha mão, com uma voz suave o bastante para derreter aço.

— Isso é para compensar você, Evie, por eu ter estado tão ocupado ontem à noite.

No passado, sempre que eu fazia birra, ele me apaziguava com um diamante raro.

Meu cofre agora estava cheio de anéis de todas as cores.

Mas agora, olhando para aquela pedra fria, eu não sentia nada.

Tesouros inestimáveis, um marido devotado.

Era tudo apenas veneno coberto de açúcar.

Vincent colocou o anel no meu dedo e se inclinou perto do meu ouvido.

— Sorria, Evie. A imprensa está aqui. Não envergonhe a família.

Forcei um sorriso rígido, mas meu olhar passou por cima do ombro dele e se fixou nas mãos de Sarah.

Ela estava brincando com um colar de pérolas.

Eram pérolas selvagens que minha mãe e eu havíamos recolhido, uma a uma, em uma praia na Sicília.

Não tinham valor financeiro, mas eram minha última ligação concreta com ela.

— Devolva. — Empurrei Vincent e caminhei em direção a Sarah.

A expressão de Vincent mudou, e ele tentou me segurar, mas sacudi sua mão e avancei até ela.

— Devolva. Agora.

Sarah fingiu surpresa, dando um passo para trás.

— Irmã, por que está sendo tão agressiva?

Ela piscou os olhos grandes e inocentes, mas sua voz baixou para um sussurro que só eu podia ouvir.

— Essa porcaria parece tão barata quanto sua mãe morta. Não serve para gente de classe.

— Sua vadia! — O sangue subiu à minha cabeça, e eu me lancei em direção ao colar.

Vincent agarrou meu pulso com tanta força que achei que fosse esmagar meus ossos.

— Evangeline! Você enlouqueceu?

Ele abaixou a voz, o tom carregado de impaciência.

— Este é um evento importante. Não me faça passar vergonha.

— "O Coração do Amor Verdadeiro" não é suficiente para você? Por que está fazendo um escândalo por causa de algumas pérolas sem valor?

— Eram da minha mãe!

Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu nem percebi o sorriso cruel que surgiu nos lábios de Sarah.

— Irmã, não fique brava, eu só…

Enquanto falava, ela fingiu me entregar o colar.

No momento em que estendi a mão para pegá-lo, seu dedo prendeu deliberadamente o fio.

Pá. O cordão se rompeu.

Dezenas de pérolas se espalharam pelo chão de mármore.

Como se estivesse terrivelmente chocada, Sarah caiu de joelhos com um baque.

Na frente de todos, ignorando seu vestido caro, começou a engatinhar pelo chão, recolhendo as pérolas uma por uma.

Um instante depois, estendeu as mãos em concha com as pérolas e me olhou timidamente.

— Irmã, sinto muito. Foi tudo culpa minha. Eu não sabia que eram da sua mãe. Recolhi cada uma delas. Por favor, não fique com raiva de mim…

Os convidados ao nosso redor começaram a cochichar, seus olhares me pintando como uma valentona autoritária.

— Isso já é demais.

— Pobre Sarah. Ela é tão coitada.

Eu sabia que aquela era a especialidade dela: se fazer de vítima.

Estendi a mão para ajudá-la a levantar, mas no instante em que a toquei, o corpo de Sarah se jogou para trás, derrubando uma torre de taças de champanhe.

Mas, enquanto caía, aproveitando o caos como cobertura, ela me deu um empurrão violento.

As taças desabaram. Ela acabou no chão, parecendo desalinhada, mas sem nenhum ferimento.

Eu, porém, perdi o equilíbrio e caí para trás em direção à quina afiada da lareira de mármore.

Uma dor excruciante atravessou minhas costas, como se alguém tivesse quebrado minha coluna com uma marreta.

Através de uma névoa de dor, ouvi Sarah soluçando.

— Irmã, eu sei que você me despreza por eu ser ilegítima, mas me humilhei, implorei para que me perdoasse. Por que ainda assim me empurrou?

Vincent tirou o paletó. Ele hesitou por um segundo, seus olhos passando por mim caída no chão, antes de correr para envolvê-lo em torno de Sarah.

Então, pela primeira vez em público, ele se virou contra mim.

— Evangeline. Peça desculpas.
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