Share

Capítulo 2

Author: Bagel
— Principessa Evangeline, o Fundo de Linhagem foi ativado.

— De acordo com a regra inquebrável que sua mãe estabeleceu, uma vez que o Fundo de Linhagem é iniciado, apenas alguém com sangue direto dos Collins pode tocar em um único centavo. Nem o próprio Deus pode anular isso.

— Seu pai, Marco, já está tentando desesperadamente contornar os controles.

Acariciei minha barriga inchada, murmurei uma confirmação e encerrei a ligação criptografada.

Marco achava que tinha o controle absoluto sobre a linha vital da família Collins, mas esqueceu que minha mãe se protegeu dele até o dia em que morreu.

Eu me lembro do funeral da minha mãe. Meu pai se ajoelhou diante do caixão dela, chorando inconsolavelmente.

Ele se arrependeu de sua indiscrição quando bêbado, de ter caído na cama da amante, Caterina, e jurou que viveria o resto da vida apenas por mim.

Eu era muito jovem naquela época. Acreditei em suas lágrimas.

E Vincent, então apenas um caporegime menor na família Jenkins, ficou ao meu lado no túmulo da minha mãe a noite inteira.

Ele me ofereceu um ombro para me apoiar quando eu tinha acabado de perder a pessoa mais próxima de mim, enxugando minhas lágrimas.

— Evie, de agora em diante, deixe que eu seja aquele que vai te proteger.

Aquela única frase foi suficiente. Entreguei a ele meu corpo e minha alma e, por causa dele, comecei até a me afastar dos negócios da família, quase perdendo tudo.

Usei a influência dos Collins para impulsionar Vincent até a posição de Don.

Eu tinha esquecido completamente o último aviso da minha mãe: nunca confie em um homem que começa sem nada e está disposto demais a se curvar.

Pensando agora, todo aquele carinho não passou de parte de um plano frio e calculado.

Meu celular vibrou, me arrancando dos pensamentos.

Sarah havia enviado uma sequência de fotos.

A primeira era do nosso quarto principal, a cama completamente bagunçada.

A segunda era de Sarah usando minha camisola de seda, segurando uma taça de vinho tinto e tirando uma selfie no espelho.

A terceira mostrava ela sentada no colo de Vincent, os dois prestes a se beijar.

Cada foto vinha acompanhada de uma legenda provocadora.

[Mana, esse robe é tão sedoso. Não é à toa que o Vincent diz que te abraçar é tão gostoso.]

[Vincent disse que o isolamento acústico daqui é excelente. Você devia ter ouvido como eu gritei por ele na mesa do escritório.]

Uma onda de náusea revirou meu estômago. Corri para o banheiro e vomitei violentamente.

Nem ouvi quando Vincent voltou.

A porta do quarto foi aberta de repente.

— Evie? O que houve? Tentei te ligar, mas a linha estava ocupada. Você não está se sentindo bem?

Ele se aproximou a passos largos, os olhos cheios de uma preocupação ensaiada, e me levantou habilmente, colocando-me sobre a cama.

Então me entregou uma fatia de bolo de morango, meu favorito.

— Até pedi para o nosso confeiteiro me ensinar a fazer. Não fica tão enjoativo desse jeito. Quer experimentar um pouco?

Eu tinha ouvido dizer que ele havia cancelado uma negociação importante de território só para terminar esse bolo com as próprias mãos.

Os olhos profundos do homem transbordavam uma falsa aflição. Eu havia sido enganada por essa atuação durante anos.

Ao ver minha expressão vazia, ele congelou por um segundo.

Depois suavizou o olhar e colocou a mão na parte inferior do meu abdômen, acariciando delicadamente.

— Vincent — eu disse, olhando diretamente para ele — existe alguma coisa que você precisa confessar?

— Você ainda tem uma última chance.

Por causa da noite em que ele me tirou de um armazém em chamas, queimando o próprio braço para me salvar, eu lhe daria essa última oportunidade de ser honesto.

— Amor, do que você está falando?

Ele riu, um som desamparado e carinhoso, e se inclinou, roçando o nariz no meu.

— Você e o nosso bebê são o meu mundo inteiro. Não tenho segredos com você.

Olhei para aquele rosto bonito e senti um frio profundo nos ossos.

Era verdade. O diabo realmente usa o rosto de um anjo.

Sem ver reação minha, Vincent soltou uma risada baixa e beijou minha pálpebra.

— Pensando demais de novo? É porque tenho estado muito ocupado para ficar com você ultimamente?

Enquanto falava, sua mão deslizou para minha cintura, tentando me acalmar com uma intimidade familiar.

Um relâmpago repentino iluminou o quarto, banhando tudo em uma luz branca fantasmagórica.

Eu estremeci por instinto.

Na noite em que minha mãe foi assassinada, houve uma tempestade exatamente assim.

Mas depois que Vincent entrou na minha vida, nunca mais tive medo delas.

Agora, ele ainda me segurava firme, o queixo apoiado sobre minha cabeça.

— Não tenha medo. Eu estou aqui. Nada pode te machucar.

Seu abraço estava quente como sempre, mas meu coração estava frio.

Passado um tempinho, pensando que eu havia adormecido, ele olhou uma mensagem no celular, sua expressão mudando levemente.

Depois de confirmar que meus olhos estavam fechados e que eu estava "dormindo", ele saiu do quarto com tanta pressa que nem ajeitou a gravata.

Logo, meu próprio celular se iluminou.

As mensagens de Sarah, perfeitamente cronometradas, começaram a chegar sem parar.

Cada uma mais explícita que a anterior.

Fui rolando por elas, entorpecida, achando que já estava morta por dentro, até chegar à última.

Era um vídeo.

Vincent estava sem camisa, beijando a pequena pinta vermelha no ombro esquerdo de Sarah.

— Sarah, essa pinta é linda. É minha estrela da sorte.

Meu mundo ficou em branco.

Porque exatamente no mesmo lugar, no meu ombro esquerdo, havia uma cicatriz de bala.

Era de três anos atrás, durante um tiroteio nas docas. Eu havia me jogado na frente de Vincent, levando um tiro que era destinado a ele.

Depois disso, a cicatriz se tornou nossa marca mais "sagrada".

Sempre que fazíamos amor, Vincent a beijava, quase de forma obsessiva.

— Evie, esta é a prova do seu amor por mim. Quando a vejo, me lembro que você me deu a minha vida.

Eu costumava achar que aquilo era reverência, um amor por mim gravado até em seus ossos.

A última mensagem de voz de Sarah chegou, sua voz em uma risada suave e triunfante:

[Ele insiste em me pegar por trás, lambendo essa pinta no meu ombro sem parar. Diz que isso o deixa incrivelmente excitado.]

[Não é estranho? Hahahaha.]

[Ele também disse que quer dar ao nosso bebê um nome ligado a uma "estrela da sorte".]

O telefone escorregou da minha mão, caindo com um baque no carpete.

Humilhação, raiva e nojo se contorceram no meu estômago.

Eles não apenas pisotearam minha dignidade, como transformaram a cicatriz que recebi por ele em um acessório para o joguinho sórdido dos dois.

O que eu havia confundido com amor e uma dívida sagrada agora era a piada mais cruel do mundo.

Fiquei sentada na escuridão até a primeira luz do amanhecer.

Pegando o celular, voltei até a mensagem antiga e respondi:

[Concordo. Então que meu filho tenha o seu nome.]
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 9

    Vincent recebeu uma entrega especial. Um mordomo trêmulo lhe entregou um pen drive.Era um “presente de volta" dos homens de Rafael.A tela se iluminou, mostrando a clínica subterrânea úmida e escura.Eu estava encolhida no chão imundo, coberta de sangue, tentando desesperadamente proteger minha barriga.Sarah esmagava minha mão com o salto enquanto seus capangas zombavam e me humilhavam.E ao fundo, uma voz — a dele próprio, fria e indiferente:[Não me importa quem seja. Ensine ao zé ninguém uma lição.][Eu limpo qualquer bagunça.]O copo escorregou da mão de Vincent e se estilhaçou.Ele encarou a figura desesperada na tela, quebrada e incapaz de se levantar.O que ele estava fazendo naquele dia?Estava com Sarah, escolhendo joias, planejando como engolir as docas da família Collins por inteiro.Ele pensava que estava domesticando um animal desobediente.Nunca imaginou que ele próprio havia enviado a mulher que mais o amava no mundo para a execução.— Tragam a Sarah. — A voz de Vin

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 8

    Nos dias seguintes, Rafael mobilizou a melhor equipe jurídica da família Gallo.Cada centavo que Marco e Caterina haviam desviado, cada propriedade, até mesmo as joias antigas que minha mãe tanto amava, foi arrancado de suas mãos por uma força invisível.Os traidores que antes haviam abandonado a família Collins agora faziam fila do lado de fora da mansão, ajoelhando-se e implorando por perdão.Mas eu não tinha tempo para eles.Hoje era o dia do meu exame pré-natal.Como de costume, Rafael havia fechado toda a Quinta Avenida. Um cortejo de vinte SUVs pretos e blindados alinhava-se pela rua.Sentada no carro particular de Rafael, observei os olhares invejosos do lado de fora e senti novamente o peso do poder.As pessoas que antes zombavam de mim por carregar um bastardo, que esperavam me ver cair, agora nem tinham coragem de me encarar.— Nervosa? — Rafael pegou minha mão; sua palma era seca e quente.— Não. — Respondi, acariciando minha barriga inchada. — Com você aqui, eu não tenho m

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 7

    Quando Vincent rugiu aquele número, a sala caiu em um silêncio mortal.Ele estava encharcado de suor frio, me encarando.— Ouviu isso, Evie? Para trazer você de volta para casa, eu apostei o legado centenário da família Jenkins.Ele estendeu a mão para mim, seu sorriso mais parecido com uma careta.— Venha comigo. Pare com isso.Na primeira fileira, Marco praticamente tremia de excitação.Ele esfregava as mãos com ganância. Caterina e Sarah se agarravam uma à outra, como se estivessem diante de uma montanha de ouro que nunca imaginaram ver.Essa era a minha família. Um me vendeu por dinheiro, o outro tentou me comprar por obsessão.A mão em minha cintura se apertou.Rafael soltou uma risada baixa. Ele nem se deu ao trabalho de levantar a placa de lance; apenas inclinou o queixo para o leiloeiro.— Dois bilhões.— Em dinheiro. Agora.— Vendido.O leiloeiro estava em êxtase.— Parabéns ao senhor Gallo por adquirir o controle completo das docas da família Collins.Um estrondo al

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 6

    Uma casa de leilões privada em Manhattan estava lotada com a elite do submundo norte-americano.Aquele era um centro para lavagem de dinheiro e negócios ilícitos da máfia de Nova York; o ar pesava com o cheiro de poder e ganância.Meu pai, Marco, estava sentado na primeira fileira, ladeado por Caterina luxuosamente vestida e por Sarah.Eles exibiam os sorrisos gananciosos de abutres rondando uma carcaça, certos de que eu não teria coragem de aparecer hoje — ou que, se aparecesse, seria apenas como uma perdedora patética.— Este é o último pedaço de carne da família Collins. — Marco se gabava para os chefes do crime ao redor. — E quem der o lance mais alto leva tudo.Ele dizia que planejava se aposentar, aproveitar os anos dourados na Sicília com Caterina.A hipocrisia daquele homem não tinha limites; ele venderia o último resquício de dignidade da própria família por dinheiro.O que ele não esperava era que, quando as portas se abrissem novamente, eu seria a pessoa a entrar no salão

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 5

    — Sr. R… Rafael?Sarah, tão imperiosa apenas momentos antes, agora tremia, os dentes batendo.Num instante, homens de preto da família Gallo invadiram a clínica estreita.Os homens de Sarah nem tiveram chance de sacar suas armas antes de serem jogados ao chão, o estalo nauseante de ossos quebrando ecoando pelo quarto.Rafael Gallo.O Don mais jovem da família Gallo, o homem que controlava todo o submundo de Nova York.Até mesmo os chefes das outras quatro famílias tinham que beijar respeitosamente seu anel quando o viam.Apenas no mês passado, ele havia anunciado em uma reunião da Comissão que não aceitaria mais alianças por casamento, destruindo as esperanças de todas as outras famílias.Todos diziam que ele era insano.Quem herdaria o vasto império Gallo?Ele tirou o caro sobretudo preto, envolveu meu corpo ensanguentado com ele e me ergueu nos braços.— Esvaziem o lugar. — Ordenou, com a voz gelada. — Tirem esse lixo da minha vista.Foram as primeiras palavras que ele disse.

  • Depois de um Casamento de Mentira, Tornei-me a Donna do Rei do Submundo   Capítulo 4

    Eu estava com dor demais para falar.Desabei no chão, minha visão escurecendo enquanto um líquido quente encharcava a barra do meu vestido.Todos me olhavam com desprezo.— Foi longe demais. A garota estava de joelhos implorando, e mesmo assim ela foi para cima dela.— Então a chamada principessa da máfia é tão arrogante e mimada quanto dizem. Nenhuma classe.— Que maldade. Fazer uma coisa dessas com a própria irmã.Vincent pareceu perceber que algo estava errado. Chamou meu nome e começou a vir em minha direção.— Evie, o que foi que…— Ah! Meu tornozelo! — O grito de Sarah cortou suas palavras.Ela estava em lágrimas, uma fileira de taças de champanhe derrubadas ao lado dela, a perfeita imagem de sofrimento.No fim, Vincent voltou para perto dela. Meu pai também correu até Sarah.— Rápido, levem-na para o hospital da família!Uma multidão se aglomerou ao redor deles e partiu. Ao se afastar, Vincent lançou um comentário por cima do ombro.— O chão está frio. Levante-se.No fi

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status