LOGINPOV ThomasOs quatro dias que antecederam a viagem para Bristol passaram em um ritmo mecânico e implacável, ditados pelo bater constante das ferramentas na bancada e pelo marulhar pesado da maré de inverno contra as estacas do píer.Eu não recuei um único milímetro na minha rotina. Acordava às cinco da manhã, preparava o café forte na garrafa esmaltada, passava o dia ajustando juntas de madeira naval para os barcos dos pescadores locais e, à noites, fechava a porta corrediça de carvalho para me trancar diante dos velhos mapas do estuário do Severn.Mas havia algo diferente no ar de Port Regis.A vila inteira parecia saber que a trégua estava prestes a expirar. Os pescadores evitavam puxar conversa longa quando me viam na doca seca; o velho mestre de obras da cooperativa olhava para mim com uma mistura de respeito e temor, como quem presencia a preparação de um duelo antigo; e até as gaivotas pareciam voar mais baixo, cortando o vento cinzento com gritos agudos que pareciam anunciar o
POV Maíra Brandão A chuva fustigava a fachada de pedra do Clifton Club, o espaço mais exclusivo e sombrio do centro financeiro de Bristol. No interior da sala privada de carvalho e couro envelhecido, o estalar das toras de lenha na lareira de ferro fundido era o único som a romper o silêncio pesado que pairava sobre a mesa de canto. Diante de mim, com um copo de uísque escocês de trinta anos repousando entre os dedos magros e cheios de manchas de idade, estava Marcos Vance. O patriarca da família Sterling-Vance e fundador do império de infraestrutura de Southampton não parecia um homem de setenta anos debilitado. Ele mantinha a postura ereta de um antigo oficial de marinha, vestia um terno de risca-de-giz impecável e ostentava no olhar cinzento exatamente a mesma rigidez fria e implacável que eu conhecia tão bem em seu filho. — O relatório da junta hidrográfica de Westminster entrou na pauta do tribunal esta manhã, Maíra — a voz de Marcos soou profunda, grave, como um motor a die
POV Thomas A luz da manhã cortava a poeira suspensa no ar da oficina em feixes retos e empoeirados, batendo diretamente sobre a prancheta de desenho onde os velhos mapas do Severn estavam abertos. Eu não tinha piscado nas últimas seis horas. O café na garrafa térmica já estava frio, amargo e com gosto de metal velho, mas eu não saí do lugar. Com o lápis de grafite 2H firme entre os dedos, refiz pela centésima vez o vetor de escoamento da curva norte do estuário, recalculando a força de cisalhamento que a maré de equinócio exerceria sobre os pilares de contenção caso os advogados de Maíra conseguissem forçar a homologação daquele projeto antigo no tribunal. Era um trabalho cirúrgico. Cada número precisava estar milimetricamente correto, não por causa do Ministério dos Infraestruturas ou da junta de engenharia de Bristol, mas porque eu sabia quem estaria sentado na primeira fileira da bancada de acusação no dia quinze. Maíra não ia apenas assistir ao julgamento. Ela ia dissecar ca
POV Maíra Brandão O Aston Martin atravessou os portões de ferro batido da sede da Thorne Logistics em Clifton exatamente às onze da manhã. O motorista abriu a porta traseira com a presteza de quem conhecia cada segundo do meu cronograma, mas eu permaneci sentada no estofado de couro por alguns segundos, com a pasta executiva de couro envernizado apoiada sobre os joelhos. A névoa de Dorset parecia ter ficado presa na minha garganta, um resquício amargo do cheiro de salitre, serragem e daquele par de olhos cinzentos que se recusava a sair dos meus pensamentos. Subi direto para a cobertura. A sala de reuniões principal mantinha a mesma vista panorâmica impecável para a bacia do Severn: o complexo de guindastes industriais, os terminais de carga automatizados e as docas profundas onde os cargueiros de contêineres descarregavam as riquezas do norte da Europa. Era um império. Um império que eu havia construído palmo a palmo, dobrando concorrentes, comprando ações na baixa e esmagando q
POV Maíra Brandão O motor de doze cilindros do Aston Martin cortava a rodovia molhada com uma suavidade cirúrgica, mas o ronco abafado da máquina parecia ressoar diretamente dentro das minhas têmporas. A calefação do interior do veículo estava regulada com precisão aristocrática, mantendo o ambiente aquecido e seco, isolado da névoa cinzenta e do vento cortante que fustigava as janelas do carro. No banco traseiro, a mala de couro escura repousava intacta. Mas, por dentro, eu sentia como se estivesse carregando uma carga instável de dinamite a cada quilômetro que me afastava de Dorset. Olhei para o reflexo do meu próprio rosto no vidro escuro da janela lateral. O rabo-de-cavalo estava impecável, o batom cor de vinho não apresentava um único borrão e a gola da jaqueta de lã continuava erguida com a mesma rigidez intocável que eu exibia nas salas de reuniões de Canary Wharf. Ninguém que me visse agora — a herdeira implacável, a controladora da Thorne Logistics, a mulher que fazia
POV Thomas A névoa do início da manhã começou a se dissipar devagar, revelando a silhueta recortada do Aston Martin parado ao lado da cabine telefônica desativada. O motorista de terno escuro já havia acomodado a mala de couro no porta-malas e mantinha a porta traseira aberta. Maíra não olhou para trás ao entrar no veículo. A porta se fechou com um baque abafado e hermético, e em menos de dois minutos o brilho metálico do carro desapareceu na primeira curva acentuada da estrada da serra, deixando para trás apenas o rastro de cascalho úmido e o cheiro do óleo de exaustão dissipando-se na maresia. O silêncio que voltou a tomar conta da enseada de Port Regis era pesado, quase denso demais para ser respirado. Fiquei parado na ponta do píer por longos minutos, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de lona, sentindo a brisa fria bater contra o meu rosto encharcado de suor frio. As palavras dela ainda ecoavam com a clareza de uma sentença pronunciada em tribunal: Vejo você em Brist







