Share

Capítulo 2 — Camille... porra...

last update publish date: 2026-08-13 04:25:31

POV Camille

O interior do sedan de altíssimo luxo cheirava a couro caro e sândalo. O aquecedor estava no máximo, mas o ar gelado que impregnava meus ossos recusava-se a ir embora. Eu estava encolhida no canto da porta traseira, abraçando os próprios joelhos rasgados, vendo a chuva transformar os prédios do centro corporativo em borrões de neon.

— Para o carro — murmurei, a voz fraca, tentando destravar a porta. — Para essa merda agora.

ao meu lado, Elliot sequer piscou. Ele mantinha a atenção fixa no tablet, a luz da tela recortando o perfil perfeito e implacável do seu rosto.

— Tranque a porta, Marcus — ordenou friamente ao motorista.

— Você não pode me manter aqui! — me virei para ele, tomada por uma fúria desesperada. — Eu não quero a sua caridade, Elliot! Eu prefiro morrer naquela pista a receber qualquer coisa vinda do homem que faliu a minha família! Do homem que empurrou o meu pai para a morte!

Pela primeira vez, Elliot desviou a atenção da tela. O tablet foi colocado de lado com um estalo seco. Ele se virou para mim devagar, e o ar na cabine pareceu rarear instantaneamente.

— O seu pai era um fraco que faliu por incompetência e covardia — ele cuspiu as palavras com tamanha crueldade que senti como se tivesse levado um tapa físico. — E você é a vadia ingrata que escolheu se deitar com o filho da puta do Vicente para me destruir. Não venha me falar de moral agora.

— Seu desgraçado! — avancei contra ele, as unhas prontas para rasgar aquela pele perfeita.

Elliot foi mais rápido. Em um movimento fluido e brutal, sua mão de aço cravou no meu pescoço, não para me sufocar, mas para prender minha cabeça contra o estofado. Seu corpo grande se projetou sobre o meu, me imobilizando completamente.

— Me solta! — tentei gritar, mas a proximidade do seu rosto me paralisou.

— Cala a boca — ele sibilou, os olhos azuis faiscando a milímetros dos meus.

Antes que eu pudesse expelir o próximo insulto, a boca de Elliot colidiu contra a minha com a violência de uma punição.

Não havia carinho. Não havia desejo nobre. Foi um ataque desesperado e dominante. Ele tomou meus lábios com uma ferocidade assustadora, me forçando a sentir o peso da sua raiva acumulada por dez anos. Minhas mãos bateram contra seu peito rígido, mas ele se inclinou mais, prensando seus dentes contra os meus até que um estalo de dor fez meu lábio inferior rasgar.

O gosto metálico do meu próprio sangue invadiu minha boca.

Soltei um gemido abafado contra seus lábios. Só então ele se afastou, milimetricamente, segurando meu queixo com força o suficiente para deixar marcas, enquanto meu sangue escorria lentamente pelo meu queixo.

— Voltou à razão agora? — ele perguntou, o hálito quente e ritmado batendo na minha pele machucada. — Preste bem atenção, Camille: se você colocar os pés fora deste carro, a polícia te prende na próxima esquina. Vicente e aquela secretaria vadia já assinaram a sua ordem de prisão antes mesmo de te jogarem na rua.

Respirei fundo, a boca latejando, o gosto de ferro queimando na língua.

— Então me deixa ser presa! — desafiei, os olhos lacrimejando de dor e rancor.

— Não — Elliot aproximou o rosto até que seu nariz roçasse a minha bochecha machucada. — Porque você é a única peça que falta no meu tabuleiro. Eu não estou te salvando por compaixão. Eu estou te trancando na minha gaiola porque só o seu nome pode destruir o império dos Lancaster. Você me pertence agora.

O carro entrou na garagem subterrânea do seu edifício em Mayfair. O motor silenciou, deixando apenas o som da minha respiração descontrolada.

A cobertura era um mausoléu de mármore preto e vidro. Elliot me conduziu até o escritório assim que subimos pelo elevador privativo. Ele jogou uma pasta pesada sobre a mesa de mogno.

— A partir de hoje, a sua antiga vida morreu — ele disse, enquanto servia duas doses de uísque. — Esta é a sua nova identidade. Passaporte, cartão de crédito sem limite e documentos sob o nome de Camille Reed. Você não dá um passo sem os meus seguranças. Não faz uma ligação que não seja monitorada. Eu tenho o controle total da sua existência.

Olhei para os documentos impecáveis na mesa. A foto era minha, mas a história ali gravada era uma ficção perfeita.

— Você está me transformando numa prisioneira — murmurei, me recusando a tocar no copo que ele estendeu.

— Estou te mantendo fora de uma cela de verdade — ele rebateu, bebendo o uísque em um único gole. — Tome um banho no quarto de hóspedes. Há roupas limpas no closet. Amanhã começamos a planejar a sua defesa.

Sem alternativas, engoli o orgulho. Não havia para onde ir. Sem dinheiro, sem amigos, perseguida pela mídia e pela polícia, eu era um cadáver ambulante na noite fria de Londres. A gaiola de Elliot era a minha única blindagem.

O quarto de hóspedes era vasto. Tomei um banho demorado sob a água fervente, chorando em silêncio enquanto limpava a lama dos joelhos e o sangue seco dos meus lábios. A ferida na boca ainda latejava. Vesti um pijama de seda que encontrei no closet — imenso no meu corpo enfraquecido — e me deitei na cama, mas o sono se recusava a vir.

Por volta das três da manhã, a sede me tirou dos lençóis.

Caminhei descalça pelo corredor escuro, tentando não fazer ruído sobre o piso de madeira nobre. Quando passei em frente ao escritório principal de Elliot, notei que a porta de carvalho estava entreaberta, deixando escapar um feixe de luz amarelada.

Um som abafado me fez congelar no lugar.

Era uma respiração pesada, entrecortada. Um arfar denso, rouco, carregado de uma urgência quase dolorosa.

Aproximei-me milimetricamente do vão da porta. Meu coração deu um salto violento contra as costelas.

Elliot estava sentado na grande cadeira de couro atrás da mesa. A camisa social branca estava desabotoada até o peito, revelando a pele clara e os músculos tensos. As calças do terno estavam entreabertas, baixadas até a metade das coxas.

Sua mão direita envolvia o pau ereto, movendo-se em um ritmo frenético, brutal, quase desesperado. A cabeça dele estava jogada para trás contra o encosto da cadeira, os olhos fechados, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a própria carne.

E então, o som rasgou o silêncio do escritório.

— Camille... — ele grunhiu, a voz rasgada de desejo e tormento, deslizando a mão mais rápido enquanto a respiração falhava. — Camille... porra...

O choque me atingiu como uma descarga elétrica.

Colei as costas contra a parede do corredor, a mão cobrindo a própria boca para abafar um grito de horror e incredulidade. O homem que me odiava, o monstro que me chamara de vadia ingrata, o arrogante que me beijara até me fazer sangrar horas atrás... estava ali, no escuro, se masturbando no silêncio enquanto chamava pelo meu nome.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 119 — A Partida na Alvorada

    POV Camille O som dos pneus triturando o cascalho da alameda antes das cinco da manhã cortou a névoa com a frieza de uma contagem regressiva. O carro preto de Harrison já aguardava na base da varanda, as lanternas traseiras pintando de vermelho os troncos dos carvalhos adormecidos. O motor rodava em marcha lenta, um sussurro mecânico impaciente que lembrava a cada segundo que o fuso horário de Londres e o corredor aéreo de Heathrow não toleravam atrasos. No hall de entrada, a mala rígida de couro escuro de Elliot repousava junto à porta dupla. Ele usava um sobretudo de lã cinza-chumbo sobre o terno sem gravata. O homem corporativo de Mayfair parecia ter retornado na elegância impecável do corte das roupas, mas os olhos azuis que me encaravam na penumbra daquele corredor não tinham nada da frieza dos arranha-céus da capital. Eram os olhos do homem que passara a madrugada inteira velando o meu sono, com o compasso de latão guardado no bolso interno, bem contra o lado esquerdo do pei

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 118 — A Rota no Compasso

    POV Elliot Parker Contar aos acionistas em Londres que eu cruzaria metade do globo para assumir uma trincheira jurídica era uma questão de estratégia fria. Explicar a situação para Thomas envolvia apenas honra e pragmatismo entre marinheiros. Mas subir os degraus em caracol da torre para explicar a uma criança de quatro anos e meio que o pai se ausentaria por noventa dias exigia uma coragem que nenhum conselho de administração jamais me ensinara. Antes de subir, chamei Thomas e Harrison para a biblioteca térrea. A lareira crepitava com duas toras grossas de carvalho. Harrison mantinha abertas sobre a mesa as procurações com plenos poderes fiduciários e de representação legal lavradas em cartório naquela tarde. — A Parker Crown Marine responde a partir de segunda-feira sob a gestão conjunta de vocês dois em solo britânico — instruí, assinando a última via com a caneta de tinta permanente antes de fechar o livro de registros com um baque seco. — Harrison cuida do bloqueio fina

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 117 — O Telegrama de Singapura

    POV Camille A tranquilidade no vilarejo durou exatos três dias após a instalação dos novos compressores na cooperativa. O sábado amanhecera com um céu azul e límpido, daqueles raros no outono de Dorset, e a calçada em frente à Livraria Histórica estava cheia. Pescadores passavam cumprimentando com acenos de cabeça respeitosos, e as caixas de livros que descarregamos na véspera já ocupavam os expositores principais. Pela primeira vez em meses, a sensação de que a vida havia entrado em um fluxo sereno e definitivo aquecia o meu peito. Mas a calmaria durou até o exato instante em que vi o carro de Harrison subir a ladeira da colina em direção à casa senhorial, quase cortando as curvas de cascalho. Quando retornei para casa no início da tarde, deixando Leo com a Sra. Gable entretida com contos marítimos infantis, encontrei a porta do escritório do térreo entreaberta. Elliot estava em pé diante da grande janela voltada para a baía. Ele segurava um maço de folhas impressas com relatór

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 116 — A Linha de Frente no Cais

    POV Elliot ParkerA vitória contra o embargo da promotoria não nos deu o luxo de cruzar os braços. A terra agora estava firme sob a falésia, mas o calçamento da vila ainda guardava as marcas da desconfiança e o mar precisava voltar a produzir.Às duas da tarde, o sol de outono brilhava sem força sobre o cais secundário de Port Regis.O cheiro residual de sulfeto fora quase totalmente dissipado pelo vento que soprava limpo do canal, mas os homens da cooperativa ainda trabalhavam com cautela redobrada. Três barcos de madeira estavam atracados no píer de serviço, onde as equipes técnicas da Parker Crown instalavam novos sistemas de ancoragem e boias de monitoramento químico contínuo.Caminhei pela passarela de madeira com galochas de couro reforçado, jaqueta técnica e uma prancheta de alumínio sob o braço. Harrison me acompanhava a dois passos, conferindo no tablet os termos do seguro ambiental estendido que fechamos com o Lloyd’s de Londres durante o almoço.— Todas as embarcações com m

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 115 — O Veredito da Coroa

    POV Elliot Parker A descida pela trilha da escarpa sob a luz fria das nove da manhã revelava o estrago que o temporal da noite anterior quase causara. Pedaços de cascalho e raízes expostas mostravam onde a terra cedera superficialmente antes do escoramento, mas o bloco principal da colina permanecia hirto contra a arrebentação das ondas. O Dr. Julian Alistair descia com passos metódicos, apoiado em uma vara de medição retrátil de fibra de carbono. Atrás dele, dois técnicos de sua equipe carregavam um scanner tridimensional de subsolo acoplado a um tripé de campo. O procurador Arthur Vance vinha por último, pisando com cautela exagerada nas pedras úmidas, as barras do sobretudo cinza salpicadas de barro e a respiração curta pelo desnível da encosta. Thomas e eu abríamos o caminho com a corda guia firmemente ancorada aos grampos de aço instalados na véspera. Quando alcançamos a boca da caverna da maré baixa, a água estava em refluxo, deixando a soleira de entrada livre de inundação

  • Depois do Divórcio, Casei com o Pior Inimigo do Meu Ex   Capítulo 114 — O Despertar das Máquinas

    POV Elliot ParkerA luz da manhã infiltrou-se pelas frestas das cortinas de linho cru com uma claridade pálida e lavada. O temporal da madrugada se dissipara, deixando para trás um céu esticado em tons de madrepérola e o cheiro denso de terra molhada misturado à maresia fria.No quarto, o silêncio era interrompido apenas pela respiração serena de Camille, cujo braço repousava sobre o meu peito, a pele macia contrastando com as marcas avermelhadas de esforço que cobriam os meus ombros. O calor dela contra o meu corpo era um convite silencioso para ignorar o resto do mundo, mas o relógio sobre o móvel de cabeceira marcava seis e quinze.Em Port Regis, a maré não esperava pelos homens, e os tribunais de Dorchester muito menos.Com movimentos calculados para não perturbá-la, afastei o edredom grosso e me levantei. Vesti uma camisa de sarja pesada, calça impermeável e calcei as botas de couro engraxado. Antes de cruzar a porta, voltei até a cama, puxando a coberta sobre os ombros nus de Ca

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status