LOGINCapítulo 5
Orion Valek O cheiro dela me atingiu como um soco no peito. Doce. Doente. Sangue seco. E por baixo de tudo… o laço. Forte. Desesperado. Chamando por mim com uma urgência que fez o lobo dentro de mim enlouquecer. Eu estava na fronteira quando o vento mudou. No segundo seguinte já corria, Kael atrás de mim tentando acompanhar. As árvores se tornaram manchas escuras. O chão sumia sob os pés. Eu só sentia o puxão no peito, cada vez mais fraco, como se o fio estivesse prestes a se romper. E então eu a vi. Um corpo pequeno, vestido apenas com o avental sujo de hospital, caído de lado na terra úmida. Os cabelos escuros espalhados pela folhagem. A pele pálida demais sob a luz da lua. Eu cheguei a tempo de vê-la tentar se levantar… e desabar de novo. — Não — o som saiu de mim como um rosnado. Eu me ajoelhei ao lado dela em menos de um segundo. As mãos grandes e quentes deslizaram sob o corpo frágil com um cuidado que eu não sabia que possuía. Ela não pesava quase nada. Os ossos pareciam frágeis demais sob a pele. O cheiro de infecção e de tumor me fez o estômago revirar de ódio puro. — Pequena… — murmurei, a voz rouca. — Eu te encontrei. Aguenta. Levantei com ela nos braços. A cabeça dela tombou contra o meu peito. O coração batia fraco, irregular. Eu apertei o corpo dela contra o meu como se pudesse transferir a minha própria força para dentro dela. — Kael! — gritei. — Avise a mansão. Quero o médico ancião esperando. Agora. Meu beta não fez perguntas. Já corria na frente, o celular colado na orelha. Eu caminhei rápido, mas sem sacudir o corpo dela. Cada passo era calculado. O lobo dentro de mim uivava, exigindo sangue de quem a tinha deixado chegar àquele estado. Exigindo a marca. Exigindo que eu a protegesse com dentes e garras se fosse preciso. A mansão dos Lobos Brancos surgiu entre as árvores como uma promessa de segurança. As portas se abriram antes mesmo de eu chegar. Servas já esperavam no hall, olhos arregalados. — Preparem o quarto principal — ordenei, a voz baixa e cortante. — Roupas limpas. Água quente. E ninguém ouse fazer barulho. Elas se moveram rápido. Eu subi as escadas de dois em dois degraus, o corpo dela ainda colado ao meu peito. No quarto, depositei Ela com infinito cuidado sobre a cama de linho branco. As servas se aproximaram para trocar as roupas sujas. Eu virei o rosto por respeito, mas não saí do cômodo. Não conseguia. O médico ancião entrou minutos depois, o rosto gravado de décadas de experiência. Ele examinou a ferida da bala, os curativos mal feitos, a fraqueza extrema. Cada “hmm” baixo dele me fazia apertar os punhos até doer. — A prata ainda queima por dentro — murmurou. — E o tumor… está avançado. Ela está no limite, Alfa. — Então faça o que for preciso — respondi, a voz perigosa. — Eu não vou perdê-la. Fiquei ao lado da cama depois que todos saíram. Sentei na poltrona escura, o corpo inclinado para frente, os cotovelos nos joelhos, os olhos fixos no rosto pálido dela. A mão dela estava fria. Eu a segurei entre as minhas, sentindo o laço pulsar fraco, teimoso, vivo. Horas se arrastaram. Eu não dormi. Não conseguia. Cada respiração irregular dela era uma facada. Cada vez que o peito subia com dificuldade, o lobo dentro de mim se agitava, pronto para rasgar o mundo. Foi quase no amanhecer que os cílios dela tremeram. Eu sentei mais reto. Os olhos se abriram devagar. Primeiro confusos. Depois focaram em mim. Eu vi a surpresa. Vi o reconhecimento instintivo do laço. E vi algo mais… uma avaliação silenciosa. Como se ela estivesse comparando. Eu sabia o que ela via. O mesmo que todas viam: o rosto marcado pela guerra, a mandíbula firme, os olhos escuros demais, o corpo construído para matar e proteger. Eu também sabia que ela tinha visto Ravi Darke. E que a comparação era inevitável. Ela ficou me olhando. Longo. Silenciosa. O peito subindo e descendo um pouco mais rápido. Eu senti o olhar dela como um toque físico. O lobo se mexeu, satisfeito. Eu abri os olhos completamente, deixando que ela visse tudo o que eu sentia. Aproximei a cadeira. Peguei a mão dela com cuidado, como se fosse feita de vidro. Inclinei a cabeça e beijei cada dedo. Um por um. Devagar. Sentindo a pele fria contra os lábios. O laço vibrou entre nós, quente, aliviado. — Você acordou, pequena lua — disse, a voz baixa e rouca de quem passou a noite inteira em vigília. — Que bom. Ela engoliu em seco. A voz saiu fraca, rouca: — Quem…? — Orion Valek. Alfa dos Lobos Brancos. — Segurei a mão dela com mais firmeza. — E você é minha destinada. Eu senti você sofrendo. Eu vim. Os olhos dela se encheram de algo frágil demais. Esperança. Medo. Cansaço. — Lavinia — sussurrou. — Lavinia Marke. — Lavinia — repeti, saboreando o nome. — Eu esperava por você há muito tempo. Ela desviou o olhar por um segundo. Quando voltou a me encarar, havia uma tristeza antiga ali. — Eu… tenho poucos dias de vida. O tumor… está me matando. Não vale a pena. Eu não deixei ela terminar. Coloquei o dedo suavemente sobre os lábios dela, silenciando as palavras venenosas. — Não — disse, a voz firme, quase um rosnado contido. — Eu me recuso a deixar você morrer. Ouviu? Eu me recuso. Retirei o dedo e segurei o rosto dela com cuidado, o polegar acariciando a maçã pálida. — Eu posso te marcar. Agora. E você pode beber algumas gotas do meu sangue. O sangue de Alfa dos Lobos Brancos carrega poder curativo antigo. Não é milagre completo… mas pode frear o tumor. Pode te dar tempo. Pode te devolver força. Os olhos dela se arregalaram. Eu vi o conflito. Vi o medo de acreditar de novo. Antes que ela respondesse, a porta se abriu. O médico ancião entrou, o rosto grave. — Alfa… preciso falar. Eu não soltei a mão de Lavinia. — Fale. O velho se aproximou da cama, olhou para ela com respeito e depois para mim. — A marcação vai ajudar. O sangue também. Mas… não será o suficiente. — Ele hesitou. — O tumor dela está ligado ao laço partido. Eu sinto dois fios. Um quebrado, um novo. Para a cura completa… para a loba dela despertar de verdade… ela precisa da marcação dos dois destinados. O silêncio que se seguiu foi pesado. Lavinia fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pelo canto. Quando abriu novamente, a voz saiu quebrada: — Ele me rejeitou. Na frente de todos. Disse que eu era um fardo. Que era fraca. Doente. Que não valia a pena. Algo dentro de mim se quebrou e se reconstruiu em pura fúria. Os punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O lobo rugiu tão alto dentro do peito que eu quase deixei o som escapar. A imagem de Ravi Darke humilhando aquela mulher, a minha mulher na frente da matilha inteira me fez querer atravessar a fronteira naquela mesma hora e arrancar a garganta dele. — Aquele desgraçado — rosnei, a voz baixa, letal, carregada de ódio antigo e novo. — Ele ousou te chamar de fardo? Ele ousou rejeitar o que o destino lhe deu? Levantei da cadeira, o corpo inteiro tenso, a aura de Alfa explodindo no quarto com tanta intensidade que o médico ancião recuou um passo. Eu olhei para Lavinia. Para o rosto pálido. Para a mão fina que ainda segurava. Para a mulher que tinha caminhado até a minha fronteira quase morta só porque eu existia. Inclinei-me sobre ela. Segurei o rosto dela com as duas mãos, o olhar queimando no dela. — Escuta o que eu vou te dizer, pequena lua. Você não é fardo. Nunca foi. E eu vou provar isso. Eu vou te marcar. Vou te dar meu sangue. Vou te proteger com tudo o que sou. E se aquele covarde um dia aparecer… ele vai descobrir o preço de ter te magoado. O laço entre nós pulsou forte. Quente. Vivo. Eu beijei a testa dela com uma doçura que contrastava com a fúria ainda fervendo no peito. — Descanse agora. Eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum. Ela fechou os olhos. Uma lágrima ainda escorria, mas o canto da boca tremeu num quase-sorriso. Eu fiquei ali. De pé. Guardando. E dentro de mim, a guerra contra Ravi Darke já tinha começado de verdade.Lavinia Marke Cinco anos depois O jardim da mansão nunca tinha estado tão cheio. Lobos Brancos e Lobos Negros se misturavam sob as árvores altas, crianças corriam entre as pernas dos adultos, e o cheiro de carne assada, bolo e magia antiga preenchia o ar da tarde. Eu estava de pé na varanda, uma taça de suco de laranja na mão, observando o caos organizado que era o aniversário de cinco anos dos meus filhos. Ralf e Áurea. Meu menino teimoso de cabelos escuros e olhos cinzentos iguais aos do Ravi. Minha menina de cabelos pretos e olhar intenso demais para a idade, pura Orion em versão pequena e implacável. Os dois corriam no meio da multidão como se o mundo inteiro fosse território deles, porque, de certa forma, era. — Mãe! — Ralf gritou de longe, levantando um pedaço de bolo já pela metade comido. — O tio Kael disse que eu posso subir na árvore! — Não pode! — eu gritei de volta, rindo. — Desce daí agora, Ralf Darke Valek! Ele fez beicinho, mas obedeceu. Áurea, ao lado dele, ap
Capítulo Final Orion Valek O grito de Lavinia rasgou a madrugada. Eu estava de joelhos ao lado da cama quando o segundo trabalho de parto começou de verdade. Ravi segurava uma das mãos dela. Eu segurava a outra. O quarto cheirava a suor, a magia antiga e a medo bom. O médico ancião e duas parteiras se moviam com eficiência silenciosa, mas eu só via ela. A mulher que tinha dominado dois Alfas, enfrentado anciãos e carregado nossos filhos até o fim. — Olha para mim — eu pedi, a voz rouca. — Só para mim. Lavinia virou o rosto suado. Os olhos estavam vidrados de dor e determinação. Eu beijei a testa dela com força, sentindo o laço roxo latejar desesperado entre nós. — Você é a mulher mais forte que eu já vi — murmurei contra a pele dela. — Você já venceu guerras. Você vai vencer isso também. Ravi estava do outro lado, a mandíbula travada, os olhos cinzentos úmidos. Ele não falava muito. Só segurava a mão dela como se pudesse transferir força pela pele. A primeira contração
Capítulo 92 Ravi Darke O caminho de volta para a mansão parecia mais longo e, ao mesmo tempo, mais leve. Eu caminhava do lado esquerdo de Lavinia, Orion do direito. Os três em silêncio. O cheiro dela ainda carregava residual de magia antiga e de adrenalina, mas por baixo havia algo novo: alívio. Profundo. Cansado. Vitorioso. Eu sentia pelo laço negro o quanto ela tinha se segurado na clareira. Quanto tinha custado ficar de pé na frente de todos, grávida, e declarar sentença. Agora que a plateia tinha sumido, o corpo dela começava a demonstrar o preço. Eu ajuste i o passo para o dela, mais lento, mais cuidadoso. A mão direita pairava perto das costas dela, pronto para apoiar se ela vacilasse. Orion fazia o mesmo do outro lado. Dois Alfas em guarda mesmo depois da batalha ter acabado. — Você está bem? — perguntei baixo. Lavinia soltou o ar pelo nariz, um som quase de riso cansado. — Estou. Só… o corpo está pesado. Os filhotes estão inquietos. — Eles sentiram — Orion murmu
Capítulo 91 Lavinia Marke O centro da alcateia dos Lobos Negros estava lotado. Eu caminhei entre Orion e Ravi com a coluna ereta, uma mão protegendo o ventre e a outra livre. O silêncio que se fez quando me viram chegar foi quase solene. Dezenas de lobos se apartaram para abrir caminho. Alguns baixaram a cabeça. Outros apenas observaram, curiosos e tensos. No meio da clareira, ajoelhado e com as mãos amarradas atrás das costas, estava o ancião de cabelos brancos. O mesmo que tinha ordenado meu envenenamento. O mesmo que tinha chamado meus filhos de aberração. Eu parei a poucos metros dele. O cheiro de medo e orgulho ferido subia do corpo velho. Ravi e Orion ficaram logo atrás de mim, presenças quentes e letais. Mas aquela hora não era deles. Era minha. — Levantem ele — eu ordenei. Dois betas puxaram o ancião para os pés. Ele cambaleou, mas manteve o queixo erguido. Os olhos amarelados pelo tempo me encararam com o mesmo desprezo de antes. — Luna — ele cuspiu a palavra com
Capítulo 90 Orion Valek O cheiro do veneno chegou antes da voz. Eu e Ravi nos movemos juntos pela floresta atrás da casa antiga do ancião, os passos silenciosos, o lobo de cada um no limite. Kael tinha mandado a localização há menos de vinte minutos. A criada estava ali. O composto também. E o velho de cabelos brancos estava prestes a entregar a ordem final. Nós não esperamos permissão. Ravi arrombou a porta dos fundos com o ombro. Eu entrei logo atrás. A cena se desenrolou na nossa frente como um pesadelo lento demais para ser real. O ancião estava de pé no meio da cozinha pequena, uma ampola de vidro escuro na mão. A criada, uma loba jovem, pálida de medo, segurava um frasco de chá já preparado. O velho falava baixo, mas cada palavra cortava o ar como lâmina. — …ela carregou a desgraça para dentro das duas alcateias. Misturou sangue que nunca deveria se tocar. Eu não aceito essa aliança de Lobos Brancos com Lobos Negros. Nunca aceitei. E se a Luna é a culpada por essa a
Capítulo 89 Ravi Darke O escritório da mansão estava silencioso demais para a quantidade de raiva que eu carregava no peito. Eu estava sentado atrás da mesa de madeira escura, os cotovelos apoiados, as mãos cerradas uma contra a outra. Do andar de cima ainda vinha o eco fraco do que tinha acontecido entre Orion e Lavinia. O laço negro não mentia. Eu tinha sentido o desejo dela, o cuidado dele, o momento em que os dois se entregaram. Não era ciúme o que me apertava a garganta. Era algo mais sujo. Mais silencioso. A sensação de ter ficado do lado de fora enquanto o mundo tentava destruir a nossa família. Kael e Klaus esperavam em frente à mesa, eretos, atentos. — Quero olhos em cada um daqueles anciãos — eu disse, a voz baixa e controlada. — Não quero rumor. Quero fato. Quem se reúne, quem fala baixo demais, quem manda mensagem no meio da madrugada. Vocês saem agora. E não voltam sem alguma coisa concreta. Kael assentiu. — Entendido, Alfa. Klaus demorou meio segundo a mais. Os o







